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Olho Pop

Cláudio Alcântara

claudioalcantaravr@hotmail.com

Convite ao Prazer

AVL já programa mais uma Roda de Leitura

Carlos Drummond de Andrade, foi o texto escolhido para a primeira edição do evento

Cidades  –  13/09/2012 09:13

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(Foto: Reprodução)

Escolha: Drummond foi o

homenageado do primeiro evento


Um convite ao prazer da boa leitura. E muito bem acompanhado. Um guia lê em voz alta, pausadamente, enquanto todos acompanham a leitura no seu texto. Depois, ele inicia uma conversa com o público. Nada formal. O comentário é feito em tom de diálogo, de bate-papo. Assim foi a primeira Roda de Leitura da AVL (Academia Voltarredondense de Letras), em 31 de agosto, às 18h30, no Espaço 2 do Gacemss (Grêmio Artístico e Cultural Edmundo de Macedo Soares e Silva), na Vila Santa Cecília, em Volta Redonda. O texto escolhido não poderia ser mais adequado ao atual momento: “O homem, as viagens”, de Carlos Drummond de Andrade. A AVL já prepara mais uma edição do evento. 

A presidente da AVL, Mércia Heloísa Monteiro Christani, explica que o evento seguiu os padrões das rodas realizadas na cidade do Rio de Janeiro, e que foi aberto ao público em geral. 

- Nos inspiramos nas rodas do Rio porque é uma experiência que deu certo na capital e em outros estados também. Sugeri a ideia da Roda de Leitura para a AVL, que foi aprovada por unanimidade. Os acadêmicos se empenharam muito para que o evento fosse um sucesso - diz.

Testado e aprovado

Mércia conta que Drummond foi escolhido por ser um grande poeta e querido por muitos. A presidente da AVL é quem leu o texto, auxiliada pela coordenadora (que é chamada de curinga nos eventos do Rio) da Roda de Leitura, Regina Vilarinhos. Por que esse formato? 

- Esse mediador, que conheça literatura e tenha lido a obra, é muito importante. Ele é uma espécie de curinga que pode atuar como entrevistador, dinamizando o evento - ressalta Mércia, ao citar um trecho do texto dos idealizadores da roda no Rio, e entusiasmada com a proposta do evento.

O papel do curinga

Cabe ao curinga, entre outras coisas, estimular o público a buscar respostas para cada trecho do texto, compreender, por exemplo, o que Drummond propôs ao escrever: “Restam outros sistemas fora / Do solar a col- / Onizar. / Ao acabarem todos / Só resta ao homem (estará equipado?) / A dificílima dangerosíssima viagem / De si a si mesmo: / Pôr o pé no chão / Do seu coração / Experimentar / Colonizar / Civilizar / Humanizar / O homem”.

Não é um evento cansativo, a duração geralmente é de uma hora e meia e a leitura não deve ocupar mais do que 15 ou 20 minutos do tempo total da sessão. Mas é algo elitizado, para poucos? Muito pelo contrário, como enfatiza Mércia:

- O público alvo é aquele que gosta de ler, independentemente de qualquer rótulo. Podem participar donas de casa, executivos, professores, estudantes etc. Enfim, quem gosta de ler.

Um gostoso bate-papo

Rodas de leituras fazem parte da história da humanidade. Da Grécia antiga ao tempo de Kafka, leituras públicas eram comuns como forma de divulgar obra e autor, lembram os idealizadores das rodas na capital. A diferença é que no mundo contemporâneo surgiu a figura do leitor-guia, normalmente um escritor ou um professor de literatura. Funciona assim: O texto é entregue na entrada do evento; logo após a leitura pelo guia, começa o bate-papo. Isso mesmo, não se trata de ler ou fazer uma conferência com tema previsto. Também não é uma aula, com teoria e didática. É uma conversa prazerosa.

Como consta no texto de apresentação do projeto do evento no Rio, a proposta é que a leitura passe a ser reconhecida, em parte como lazer, em parte como elemento formador e reformulador de conceitos na tarefa de educar. Exatamente o que a Academia aposta como diferencial em Volta Redonda.

Panorama cultural

A AVL foi fundada em 2005 e conta com 35 acadêmicos - cinco morreram: Alkindar Cândido da Costa, Nestor Dockorn, Pedro Viana, José Luiz de Oliveira e Maria José Bulhões Maldonado. A meta da Academia Voltarredondense de Letras daqui para frente, segundo Mércia, é fazer parte do panorama cultural da cidade.

- Vamos torná-la conhecida e executar projetos culturais com envolvimento social, interagindo a AVL com a cidade - destaca.

Serviço

> Roda de Leitura da AVL - Informações com Mércia Christani, (24) 9903-9405, (24) 3342-8506 e (24) 3345-9770. Ou: mercia.christani@bol.com

> Roda Leitura da AVL na mídia: RioSul Net (TV Rio Sul), Foco Regional, Diário do Vale.

O texto que foi lido

‘O homem; as viagens’

(Carlos Drummond de Andrade)

O homem, bicho da terra tão pequeno
Chateia-se na Terra
Lugar de muita miséria e pouca diversão,
Faz um foguete, uma cápsula, um módulo
Toca para a lua
Desce cauteloso na lua
Pisa na lua
Planta bandeirola na lua
Experimenta a lua
Coloniza a lua
Civiliza a lua
Humaniza a lua.

Lua humanizada: tão igual à Terra.
O homem chateia-se na lua.
Vamos para Marte - ordena a suas máquinas.
Elas obedecem, o homem desce em Marte
Pisa em Marte
Experimenta
Coloniza
Civiliza
Humaniza Marte com engenho e arte.

Marte humanizado, que lugar quadrado.
Vamos a outra parte?
Claro - diz o engenho
Sofisticado e dócil.
Vamos a Vênus.
O homem põe o pé em Vênus,
Vê o visto - é isto?
Idem
Idem
Idem.

O homem funde a cuca se não for a Júpiter
Proclamar justiça junto com injustiça
Repetir a fossa
Repetir o inquieto
Repetitório.

Outros planetas restam para outras colônias.
O espaço todo vira Terra-a-Terra.
O homem chega ao sol ou dá uma volta
Só para te ver?
Não-vê que ele inventa
Roupa insiderável de viver no sol.
Põe o pé e:
Mas que chato é o sol, falso touro
Espanhol domado.

Restam outros sistemas fora
Do solar a col-
Onizar.
Ao acabarem todos
Só resta ao homem
(estará equipado?)
A dificílima dangerosíssima viagem
De si a si mesmo:
Pôr o pé no chão
Do seu coração
Experimentar
Colonizar
Civilizar
Humanizar
O homem
Descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
A perene, insuspeitada alegria
De con-viver.

Por Cláudio Alcântara  –  claudioalcantaravr@hotmail.com

2 Comentários

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  • Redação do OLHO VIVO

    Renato Barozzi,
    Obrigado pelo comentário. Na página principal do site, já existe um espaço para comentários genéricos. Está no menu, basta clicar em "Comente Aqui", preencher o formulário e enviar.
    As cartas podem ser enviadas para o e-mail claudioalcantara@pop.com.br

  • Renato Barozzi

    Parabens pelo site claudio. Um trabalho muito bom. Penso apenas que na pagina principal deveria haver um espaço para comentários genéricos como este, pois somente consegui interagir comentando uma matéria ou reportagem. Sei que isto talvez seja proposital.
    Mudando de assunto, se você aceitar, eu posso mandar umas cartas amargas ou engraçadas de vez em quando. Abraços.