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O Povo nas Ruas

Plenárias em praça pública têm se mostrado salutares em Volta Redonda

Faltou nesses atos, não só na cidade como em todo o país, a participação do setor das camadas mais pobres

Opinião  –  04/07/2013 12:29

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(Foto: Reprodução/Facebook)

Neto não foi: Ato em Volta Redonda teve muita polícia (muita mesmo) e nenhum vândalo!

Uma nova novela está sendo escrita pela Rede Globo. Seu roteiro é escrito ao vivo, todos os dias e está nas ruas. A sinopse já mostra a que veio essa nova produção e o argumento da novela é de péssima qualidade. E toda a programação também! Críticos apontam as falhas do roteiro e sugerem aos telespectadores medidas para que se entendam a história e exijam mudanças.

O cenário está mudando a cada dia (seja no país, estado ou município), exigindo atualização permanente da análise, da elaboração teórica e da prática política. São novos atores e espectadores que entram em cena, cada um com suas razões e motivações que os impelem a uma explosão de clamor por mudanças. E dentro desta cena se dá uma nova disputa na luta de classes.

Novos atores entram em cena

Uma juventude de classe média, somada a outra, hoje inserida no mundo da educação formal e do trabalho, está tendo sua primeira experiência de ação política. Esta juventude tem como pano de fundo uma conjuntura política onde o mensalão e as presepadas de Barbosa (nosso novo Collor?), as alianças mais sacanas e corruptas (Renan, Sarney, Maluf, Cabral, Paes, Neto) jogam a história política (ou o que sobrou dela) do PT num lodaçal fétido e pegajoso.

Durante todos esses anos de governo, o PT cometeu erros políticos que o levaram à defensiva (virou vidraça e das mais frágeis), e acuado não conseguiu (devido aos tantos rabos presos com financiadores de campanha e velhas raposas políticas) responder aos ataques e questionamentos, se "burrocratizou", se afastou dos reais movimentos sociais progressistas (ainda que alertados desde a década de 90 por suas correntes mais à esquerda) e não reforçou o lastro democrático.

Tal postura petista, somada aos escândalos que pipocavam por todos os lados, levou essa juventude (que articula-se em rede, nega toda e qualquer hierarquia política e coloca em xeque os agentes da democracia representativa com suas agendas políticas descentralizadas) a uma radical rejeição aos partidos e à política tradicional.

Mais que clara é a presença da direita, botando lenha na fogueira antipartidária ou apartidária (isso ficou totalmente confuso na cabeça das pessoas) e expressando publicamente (nas ruas e nas redes) sua ideologia que disputa a agenda e dialoga com o movimento, ainda que não se configure como setor hegemônico.

E o mural do Facebook foi para as ruas

A mesma juventude que recusa a presença de partidos, sindicatos e movimentos sociais e embarca na onda antipartidária dos conservadores, vaia a Rede Globo e seus repórteres (principalmente, mas não só - a vaia é para toda mídia), faz ela mesma seu grande "Jornal Nacional" com máquinas fotográficas e celulares conectados, denunciando a polícia militarizada (e pra lá de truculenta) e exige serviços públicos de qualidade.

As ruas viraram o mural do Facebook, com uma gigante diversidade de consciência, exigências, expectativas, ideologias (ou falta delas). Só que ali eram pessoas de carne, osso e lágrimas provocadas por gás lacrimogêneo e spray pimenta.

Em pleno inverno cinzento, muitos enxergaram uma "primavera brasileira". Mas nenhuma possibilidade de ruptura se delineou, muito menos revolucionária. Também enxergaram uma conspiração. Um espectro golpista atrás de cada porta a escutar e gravar reuniões partidárias e a fotografar e filmar cada militante "revolucionário". Isso só fez com que nós (eu também me equivoquei) colocássemos no mesmo saco fascista pessoas de todas as matizes ideológicas, e no mesmo saco dos "infiltrados para arruaçar" anarquistas e radicalizados.

Faltou nesses atos, ao menos em VR City (mas eu acredito que no país inteiro), a participação do setor das camadas mais pobres, que vem sendo inserido de forma precária no mundo do trabalho e iludido por um mundo autofágico de consumo e endividamento. Setor que fica de fora da lógica das grandes cidades e capitais dos mega eventos (Copa das Confederações, Jornada Mundial da Juventude, Copa do Mundo e Olimpíadas - todos em sequência e com altos investimentos da... Rede Globo!). Setor que, nas cidades pequenas e de médio porte, é empurrado cada vez mais para longe de seus locais de trabalho e lazer (numa higienização social dos centros produtivos e de lazer). Os poucos deste setor (que não estão organizados, por exemplo, em movimentos como o Movimento Nacional de Luta por Moradia) ficaram reduzidos a uma ação de catarse e atônitos, ou quebravam ou fugiam.

E o jogo de hoje, qual é?

O jogo começou com a pauta do transporte apresentada pelo Movimento Passe Livre. E se enganou quem embarcou que o assunto se restringia apenas ao aumento das passagens. Existe, dentro dessa pauta, um universo tático que poucos enxergaram: uma juventude oprimida pela higienização e privatização dos espaços públicos centrais, negação de direitos individuais e de luta por eles (o "gigante adormecido" vem travando lutas eletrizantes pelo reconhecimento da cidadania LGBT, pela legalização da maconha, pelo direito de mulheres, entre outros, causando um enorme rebuliço e desconforto para os conservadores, fundamentalistas e políticos de direita), os gastos exorbitantes com os megaeventos, onde a participação da maioria da população será reduzida à trabalho voluntário ou mal remunerado e à audiência passiva via... Rede Globo! Esse universo traz para o cerne da questão a mobilidade, mas, principalmente, traz o debate sobre o controle das formas de produção e as questões relacionadas a consumo de bens e de serviços públicos.

É esse jogo difícil e super disputado que está acontecendo e que ganha o pico da audiência desde o início do mês. É preciso organizar uma "torcida" que seja capaz de dialogar com a juventude que está em campo, de colocar para jogar o setor que ainda não entrou e influenciar a virada do placar que até agora está a favor dos conservadores e da direita política do país.

Nossos adversários (me coloco aqui como socialista e filiado ao PSOL e os adversários são a direita, os conservadores, os empresários mais gananciosos) fizeram um gol quando apresentaram a corrupção política generalizada. Deram um drible na área ao não apresentar a corrupção exercida pelo capital privado (de empresas de ônibus, construtoras, agronegócios).

O segundo gol foi feito desgastando todo nosso time (aqui falo da esquerda brasileira), e principalmente a parte fraca, (Dilma e o PT), dando condições que os atacantes do PSDB fizessem tabelinha novamente na área. A bola bateu na trave e Marina e Barbosa, que entraram no segundo tempo, chutaram juntos para marcar (ambos com o papinho de negação da "política tradicional" e "legalidade e combate aos corruptos" estão dialogando principalmente com a juventude, mas também com a direita e os fundamentalistas).

O campeonato segue; não vai acabar agora

Temos que fazer boas substituições, trazendo os movimentos sociais tradicionais, sindicatos, MST, MNLM; trazendo artistas, maconheiros, LGBTs. E será preciso avançar contra nosso próprio sectarismo (o sectarismo da esquerda brasileira), articulando todas essas agendas com suas dinâmicas orgânicas, para, ombro a ombro, chegarmos ao momento decisivo do campeonato.

Precisamos lutar radicalmente para satisfazer a essa nova demanda social apontando novas políticas, ampliando os mecanismos de participação popular (a experiência de plenárias em praça pública tem se mostrado salutar em VR City).

Precisamos combater radicalmente a ideia de uma militarização cada vez maior da polícia e do sistema de segurança pública (destacando e desmascarando a atitude, no mínimo irresponsável, do ministro da Justiça, Zé Eduardo Cardozo, que ofereceu a Força Nacional de Segurança, legitimando a violência estatal e a criminalização dos movimentos).

Precisamos lutar radicalmente pela democratização das comunicações, impedindo assim a defesa dos interesses empresariais e, principalmente, do interesses empresariais do setor.

Temos então uma pauta central
que pode unificar a esquerda?

O momento é de construção de uma plataforma mínima dos partidos e movimentos de esquerda. Uma plataforma que paute a reforma política, os 10% do PIB já, o combate à corrupção e aos corruptores do capital. Uma plataforma que democratize radicalmente o acesso à Saúde, Educação, Cultura, Mobilidade Urbana. Uma plataforma que garanta reforma agrária e moradia.

Em qual estádio vai ser o jogo

O jogo vai acontecer nas ruas e nas redes onde estamos sendo engolidos pelos conservadores fundamentalistas e políticos de direita.

Temos muito trabalho pela frente. Precisamos jogar (a esquerda toda) com os melhores jogadores que temos. Precisamos pôr em prática tudo que treinamos no final do século IXX e todo o século XX. E tudo que aprendemos neste início do século XXI.

Por Giglio  –  gigliovr@facebook.com

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