(Fotos: Acervo da Autora)
“Ninguém sai o mesmo da leitura de um bom livro! Neste caso, a literatura, ou melhor dizendo, a vida transfigurada, opera o milagre transformador”.
Dalila Teles Veras, nome literário de Dalila Isabel Agrela Teles Veras, nascida no Funchal, Portugal (1946). Vive no Brasil desde a infância. Publicou 21 livros de poemas e uma dezena nos gêneros crônica, diários e ensaios memorialísticos. “Opções para Morrer no Espaço”, Editora Patuá, SP, 2024, e “Fuga e Urgências”, Alpharrabio Edições, SP, 2022, ambos de poesia, são os mais recentes.
Dentre outros, lançou dois livros reunindo suas crônicas (“A Vida Crônica” e “As Artes do Ofício”) e dois diários (“Minudências” e “Diuturnos”). Ativista cultural, desde 1992, dirige a Alpharrabio Livraria, Editora e Espaço Cultural, em Santo André - SP, importante centro cultural, onde promove constante atividade voltada para a divulgação das artes, da literatura e o debate de ideias. Há mais de quatro décadas organiza e colabora na realização de cursos, seminários e congressos.
Publica regularmente suas crônicas no espaço virtual, redes sociais e blogs.
Em 2019 recebeu da UFABC (Universidade Federal do ABC) o título de Doutora Honoris Causa.
e-mail: dalilatelesveras@gmail.com | homepage | blog literário
Confira a entrevista com Dalila Teles Veras
Diante da crescente relevância das mídias digitais, que novo cenário se desenha para a literatura brasileira?
O cenário da literatura, desde sempre, foi aquele que a imaginação e habilidade do autor com a linguagem seja capaz de criar. Mídias digitais, IA, não são capazes de criar, apenas organizam os dados que o ser humano lhes fornece. A literatura brasileira é pujante, em especial, com o trabalho de muitas mulheres que surgiram nas últimas duas décadas e nos dão a conhecer o mundo visto por elas, pensado por elas, criado por elas. Talvez o “novo” cenário seja este, a predominância da mulher num campo que lhe foi, desde sempre, negado.
A constante crítica de que somos um país de poucos leitores interfere de alguma forma em sua atividade?
De nenhuma forma! Quando escrevo não penso no tipo de leitor que eventualmente me lerá. As muitas vezes que tive oportunidade de ouvir um leitor foram sempre surpreendentes. Não subestimo nenhum. São poucos? Sim! Mas num país continental como o nosso, uma porcentagem baixa em qualquer estatística representa um número muito grande! Resido em Santo André, na chamada Região do ABC paulista que integra a região metropolitana de São Paulo. As sete cidades que a compõe somam dois milhões e meio de habitantes. Ou seja, fico muito satisfeita em, no meu caso, ser uma escritora “regional” ou “municipal” (a minha cidade tem cerca de 800 mil habitantes). Se a porcentagem estatística for aplicada a esses números, mesmo assim, serão muitos leitores. E posso garantir que eles existem.
O que a literatura de mais satisfatório lhe proporciona?
A possibilidade de criar e escrever e, por meio da escrita, me expressar artisticamente, por si, já me traz imensa satisfação. Quando um leitor, um que seja, me lê e fala com propriedade daquilo que leu, aí já é uma premiação! A literatura, em especial, a poesia é meu ofício principal, no qual coloco todo o meu empenho. Após 21 livros de poemas publicados (escrevi mais outros dez de outros gêneros, como crônicas, diários e ensaios), posso dizer que experimentei muito até, por fim, me transformar numa “voz”, a minha voz poética que, espero, seja identificável.
Qual é a função da literatura na sociedade?
Acredito que várias são as funções da literatura. Primeiro, a função de poder ser lida de diferentes maneiras. Uma obra literária nunca é lida da mesma forma por duas pessoas, por dez, por cem.
Por vezes tendo a acreditar que a literatura não possui nenhuma função além de transmitir visões de mundo que podem, ou não, provocar reflexões no leitor. Ninguém sai o mesmo da leitura de um bom livro! Neste caso, a literatura, ou melhor dizendo, a vida transfigurada, opera o milagre transformador.
Fale um pouco de sua livraria e editora?
Não é nada fácil resumir uma história de 33 anos! Eu diria que a Alpharrabio Livraria, Editora e Espaço Cultural, sediada em Santo André, região metropolitana de São Paulo, é muito mais que uma livraria. Há quem diga (e muitos já nos disseram) que aquele espaço representa uma verdadeira universidade, pelo montante de conhecimento (artístico, filosófico, político, literário e debate de ideias) que por ali circula e permanece.
Desde sua inauguração, em 1992, já nascia com uma proposta cultural e iniciava uma intensa atividade voltada ao fomento e difusão do livro, da literatura e da cultura em geral.
Ao longo de sua história, tornou-se um polo irradiador da cultura regional que, por sua vez, dialoga com a cultura nacional, trazendo escritores e artistas da capital do Estado de São Paulo e de outros estados, ocasionalmente do exterior, para palestras, lançamentos de livros e outras atividades.
O livro “Alpharrabio 12 Anos: Uma História em Curso”, Alpharrabio Edições, 2004, em coautoria com Luzia Maninha Teles Veras, reflete essa atividade ininterrupta e certamente revelará para as futuras gerações em geral e para o futuro pesquisador em particular, uma boa parcela da produção cultural da região do Grande ABC na última década do século XX e início do XXI, em diálogo com o restante do país.
Uma mensagem aos autores iniciantes.
Antes de alguém se tornar escritor precisa ser um grande leitor. A mensagem é esta: não existe nenhuma receita, mas a leitura é a ferramenta primordial. Eu diria, antes de tudo: leia, leia, leia... Depois, leia mais um pouco.
O que acha de nossa iniciativa de entrevistar/homenagear renomes de nossa literatura, fazendo, além de uma justa homenagem, um “intercâmbio” entre o autor consagrado e o autor iniciante?
Considero uma louvável iniciativa! Toda troca, “intercâmbio” de ideias, sempre será benéfica, não apenas para aquele jovem que deseja se tornar escritor, mas, sobretudo, para os leitores em geral. Aproximar o leitor do autor, assim, em “carne viva”, tanto desmitifica uma eventual ideia romântica ou glamourizada do escritor, quanto propicia uma melhor visão de bastidores da “república das letras”, sem mistificação. O ato de escrever é, sobretudo, um ofício que leva toda uma vida a se aprimorar.


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