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Jean Carlos Gomes

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Suzana Vargas - A literatura como expansão da mente

Poeta, ensaísta e professora de literatura é a homenageada no livro Vozes de Aço - Volume XXVIII, da PoeArt Editora

Entrevistas  –  12/02/2026 10:20

 
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(Fotos: Divulgação)

“No momento, temos muitas publicações e pouco escoamento da produção. É preciso virar esse jogo”.

Suzana Vargas é gaúcha de Alegrete, mas reside no Rio de Janeiro há mais de 50 anos. Poeta, ensaísta, autora de livros infantis e juvenis e professora de literatura. Mestre em Teoria Literária pela UFRJ, especialista em leitura e oficinas de criação literária. Criou e desenvolveu importantes projetos na área do livro, como as Rodas de Leitura que se transformaram em ações efetivas na área educacional do país. Publicou 16 livros, sendo seis de poesia, entre os quais “Caderno de Outono” (1997), finalista do Prêmio Jabuti; “Amor é Vermelho” (2005), além do ensaio “Leitura: Uma Aprendizagem de Prazer” (2021). Tem poemas traduzidos e publicados em países como Itália, EUA, Espanha e Alemanha. Foi editora-adjunta da revista “Poesia Sempre”, da Fundação Biblioteca Nacional, onde trabalhou no setor de projetos culturais. Fez a curadoria de importantes projetos literários para feiras e eventos nacionais e internacionais, como as Bienais do Livro do Amazonas, da Bahia, do Rio de Janeiro e de São Paulo, a Primavera dos Livros, a Campanha Paixão de Ler e o Estação Pensamento & Arte, da Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro. Coordenou, para o Minc, o projeto nacional Caravana de Escritores, entre outras atividades. É curadora do Clube de Leitura do Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro (CCBB-RJ). Há 30 anos, criou e coordena a Estação das Letras, hoje Instituto, um dos espaços pioneiros em oficinas de criação literária no país.

Confira a entrevista com Suzana Vargas

Diante da crescente relevância das mídias digitais, que novo cenário se desenha para a literatura brasileira?

Esta é uma pergunta difícil de responder, pois, para ser razoavelmente positiva, teríamos de viver num país de leitores. Não é, infelizmente, o caso do Brasil, ao contrário, as pesquisas mostram um declínio estrondoso da massa leitora. No cenário em que as mídias digitais são protagonistas, aos autores e produtores de conteúdo literário só resta tentar se adaptar a essa realidade, não se deixando levar pelo imediatismo ou pela falsa ilusão de notoriedade que elas proporcionam. Resta também torcer para que as políticas do livro, leitura e literatura governamentais comecem a dar frutos. No momento, temos muitas publicações e pouco escoamento da produção. É preciso virar esse jogo, utilizando essas mesmas ferramentas que parecem empecilhos a nosso favor.

A constante crítica de que somos um país de poucos leitores interfere de alguma forma em sua atividade?

Não interfere, Jean. Amo o que faço, que é escrever, dar aulas, trabalhar com leitura e literatura. Ver talentos desabrocharem, ver leitores surgirem, através do meu trabalho, é uma das grandes alegrias que tenho na minha trajetória. O prazer é muito maior que qualquer objeção ou obstáculo ao meu trabalho. Acredito na literatura, na arte e na criatividade como, talvez, um dos únicos caminhos que possam proporcionar a todos uma razão para estar no mundo.  Falo por mim e por muitas centenas de pessoas que vi encontrarem na leitura e na criação um objetivo que, por si só, justifica toda uma existência.

O que a literatura de mais satisfatório lhe proporciona?

Comecei a ler muito cedo e posso dizer que a literatura me ensinou a viver, a ser uma pessoa melhor, a ver o mundo com olhos mais críticos e, ao mesmo tempo, mais generosos. Essa espécie de expansão da mente que a linguagem literária provoca me deu coragem para ser quem sou, me ensinou a resolver problemas existenciais e objetivos, e a solucionar meus dilemas com criatividade e, se possível, com poesia. Hoje, depois de tantas vivências como escritora e profissional da área, posso dizer que, se tirarem a literatura da minha vida, não sobrará muita coisa.

Qual é a função da literatura na sociedade?

A escrita e a leitura são conquistas civilizacionais. A literatura sempre vai apontar e atender a essa necessidade que todos temos de nos ver representados com as nossas contradições, céus e infernos, num mundo paralelo, mas, incrivelmente real. Aponta soluções, possibilidades. Dá a um povo o sentido de pertencimento, pois trabalha com códigos universais e nos permite acreditar na utopia de um mundo mais justo, mais amoroso e verdadeiro.

Fale um pouco da Estação das Letras?

A Estação das Letras nasceu depois de uma longa gestação, que incluiu meu trabalho como escritora, professora de literatura e criação literária que remonta ao início dos anos 1980, quando, além de concluir a formação em Letras, fiz meu mestrado em Teoria Literária e comecei a trabalhar com a leitura em diversos projetos. É uma espécie de filha mais nova (tenho duas filhas), por meio da qual realizei e realizo aquilo que me parece justo e necessário para divulgar os benefícios da leitura e da escrita. É o trabalho no qual estou mais inteira e mais livre para realizar aquilo que acredito, sem concessões de nenhuma espécie.  Eu queria criar - e criei - uma “escola”, onde, como professora, eu tivesse meus anseios e necessidades atendidos, e, como aluna, encontrasse mestres de qualidade que, mais que me orientassem para me tornar uma escritora ou escritor, me transformassem numa leitora ou leitor melhor. É o meu maior legado, se é que essa é a palavra adequada para essa grande paixão que já me acompanha há 30 anos.

Uma mensagem aos autores iniciantes.

Aos autores iniciantes eu diria o que digo sempre: leiam muito, a leitura vai dar a vocês tudo o que talvez nenhuma oficina consiga. Com isso, não estou depreciando meu trabalho com oficinas, mas apenas afirmando que os livros são fundamentais para você alcançar maturidade existencial, vocabular, e despertar sua criatividade, ferramentas necessárias a qualquer grande escritor que vocês conheçam. E não tenham pressa em publicar. As oficinas têm o papel de dar a vocês algumas ferramentas técnicas importantes, além de darem a oportunidade de tornar público o trabalho de vocês, junto a outros companheiros de jornada.

O que acha de nossa iniciativa de entrevistar/homenagear renomes de nossa literatura, fazendo, além de uma justa homenagem, um “intercâmbio” entre o autor consagrado e o autor iniciante?

Essa iniciativa de homenagear autores é muito bonita, importante, útil. Faz com que os leitores (eu mesma incluída) possam conhecer ou reconhecer, mais e melhor, profissionais da leitura e da literatura com informações às quais talvez não tivessem acesso. No meu caso, fiquei lisonjeada, surpresa mesmo, pois, como escritora, tenho obra pequena. Neste século, publiquei apenas um livro, embora tenha editado 16, entre poesia, literatura infantil e juvenil e ensaios. Agradeço imensamente a vocês por terem lembrado do meu nome e espero ter contribuído com minhas poucas observações.

. A “XXVIII Antologia Poética de Diversos Autores” é o resultado do XXVI Concurso Nacional PoeArt de Literatura 2025, que teve a participação de diversos escritores de vários estados brasileiros. A obra reúne 66 escritores de 15 estados brasileiros mais o DF. No Capítulo Especial à Suzana Vargas, temos comentários inéditos de: Adriano Espínola, Carmen Moreno, Christovam de Chevalier, Euridice Hespanhol, Luiz Otávio Oliani, Mano Melo, Raquel Naveira, Ricardo Vieira Lima, Roseana Murray, Salgado Maranhão e Tanussi Cardoso. 

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Por Jean Carlos Gomes  –  poearteditora@gmail.com

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