
(Foto: Divulgação)
“O exercício da escrita não está apenas no conhecimento, mas na sensibilidade de olhar nos olhos de uma pessoa, sentir sua alegria ou sua dor e saber transmitir isso em palavras, em versos”
Ivana Martins é escritora, jornalista, editora cultural, fotógrafa e palestrante, com uma vida dedicada à literatura e à comunicação. Sua atuação transita entre a poesia, o jornalismo cultural, a fotografia e os projetos culturais, destacando-se pelo compromisso com a palavra, a sensibilidade artística e a divulgação da produção cultural. Formada em Comunicação Social e com MBA em Marketing, atuou como professora universitária nas disciplinas de Fotografia e Direção de Arte. Trabalhou como apresentadora de TV, repórter e fotógrafa em vários veículos de comunicação. Em 2027, completará 40 anos de carreira na literatura.
Confira a entrevista com Ivana Martins
. Quando começou a escrever poemas? Fale um pouco de seu início no mundo das letras e de sua trajetória.
Posso dizer que já nasci escrevendo. Como eu era a filha mais nova e minhas irmãs já eram professoras, com apenas 4 anos eu já lia e escrevia. Também comecei a tocar piano nessa época.
Meu encontro com a literatura e com a arte da escrita aconteceu em um momento muito triste, quando venci um concurso do colégio cujo tema era “Mãe”. Como minha mãe havia falecido havia poucos meses, expressei todo o meu sentimento em um poema, que se tornou a chave para eu gostar de poesia. As pessoas prestavam atenção ao que eu escrevia.
O papel e a caneta eram uma terapia para minha solidão e minhas descobertas de adolescente. Foi por meio da poesia que trilhei um caminho dentro da literatura, do teatro e da cultura. A poesia está em toda parte; basta ter um coração de poeta e saber sentir quando ela pulsa no cotidiano.
. Como é o seu processo criativo?
A criação é fascinante. Creio que o espírito da palavra é a nossa centelha divina, pois o poder de uma palavra é tão forte para construir quanto para destruir.
Meu processo criativo é divino. Digo isso porque acredito no poder da inspiração. A poesia me toca como se fosse uma música; então eu paro e coloco em forma de palavras toda aquela vibração que sinto.
Escrever é sentir a vida em sua forma mais essencial. É ver o que ninguém viu e ter coragem de se expressar, muitas vezes expondo sentimentos íntimos, mas que fazem parte do inconsciente coletivo. Compartilhar nossas dores e amores é fundamental no processo criativo.
Nossa visão de mundo, nossos sentimentos, escolhas e consequências são elementos essenciais para que o poema tenha alma e consistência.
. Analise seu estilo, sua voz literária.
Vejo a poesia como uma forma de sentir e expressar o mundo. Meu estilo é diversificado: falo do amor e do ódio ao mesmo tempo em que aprecio uma flor e sinto seu perfume.
Minha voz dentro da literatura é aquela que vive e anseia muito pela liberdade, igualdade e fraternidade. Parece que escrever é uma missão, e também mostrar, dentro do movimento literário, a importância de termos uma voz firme e consistente.
. Quando escreve um poema, como surge o título? Escolhe alguma palavra do poema, procura inspiração em outros textos ou os títulos surgem na sua cabeça?
Quando escrevo, sinto que sou uma pessoa muito abençoada. Permito-me sair da realidade e habitar a essência da criação, seja qual for o tema escolhido.
A escrita é uma magia que todos temos e poucos sabem usar. Se as pessoas soubessem que podem escrever com o coração, não ficariam estudando tanto para conquistar títulos.
O exercício da escrita não está apenas no conhecimento, mas na sensibilidade de olhar nos olhos de uma pessoa, sentir sua alegria ou sua dor e saber transmitir isso em palavras, em versos.
O poema se torna uma energia poderosa quando um leitor consegue entender sua essência e aplicar aquele verso em sua vida. Os escritores se multiplicam por fazerem parte de vários corações, quando são lidos e compreendidos.
Gosto muito de ler, mas confesso que sou seletiva quando dedico meu tempo a alguns autores. Cresci lendo “Memórias de Emília”, de Monteiro Lobato. Na adolescência, adorava Shakespeare e o amor encantado de Romeu e Julieta. Depois, passei a gostar de Khalil Gibran e de biografias de Mahatma Gandhi, Anne Frank e Charles Chaplin.
Quando entrei para a universidade, foi maravilhoso. Como escolhi Comunicação, tive contato com Filosofia e Sociologia, conhecendo melhor Sócrates, Sêneca, Aristóteles, Platão e Maquiavel, com “O Príncipe”, entre outros pensadores.
Também me recordo das biografias que lia quando estudava piano. Havia uma coleção chamada “Mestres da Música”, e a cada 15 dias meu pai comprava um fascículo para mim. Nele vinham a biografia e um LP com músicas de cada compositor.
Desde cedo eu tinha meu momento de leitura e de treinar os ouvidos para a música clássica. Adorava Beethoven, Bach, Vivaldi, Handel e Tchaikovsky.
A música fez parte especial da minha vida. Estudei piano clássico dos 4 aos 14 anos, mas passei a me dedicar mais à escrita. Fiz até curso de datilografia. Quando surgiu o computador, tratei logo de aprender o máximo possível. Com 16 anos eu já dominava teclados e telas, e aí o encanto virou profissão.
Como jornalista, a escrita se tornou diária nas redações onde trabalhei. Mas a escrita não é a mesma quando falamos em poesia; aí não basta a técnica, temos que ter sentimento.
. Você é editora do jornal “Farol da Poesia”. Fale um pouco desse trabalho.
O “Farol da Poesia” é uma missão, um sonho de ter um espaço, um lugar de fala, de proporcionar aos escritores e artistas tudo aquilo que a gente nunca teve. É uma forma de mostrar quem somos e, principalmente, a nossa arte.
Eu já tive outro jornal antes da internet. Era impresso, caro e difícil de alcançar as pessoas. Hoje tudo é muito mais fácil e acessível. Falar com um artista, com um escritor ou com qualquer pessoa pelas redes sociais ficou muito mais simples.
Creio que a pandemia (novo coronavírus/Covid-19) foi uma virada de chave na vida de muitas pessoas. Foi o tempo em que tivemos que nos reinventar para não morrer e aprender até a fazer chamadas de vídeo para ver quem amávamos.
Nesse contexto de tédio e dor, participei de um edital da Cultura, o Aniceto Matti, e fui contemplada. O projeto inicial era realizar oficinas de poesia e ter um jornal cultural para mostrar os poemas dos participantes, mas ele precisou ser adaptado, porque não poderíamos visitar escolas ou entrevistar artistas pessoalmente.
Assim nasceu o “Farol da Poesia”, há cinco anos. Mesmo depois que os recursos acabaram, continuamos contando com a colaboração de pessoas que acreditam e investem em nosso trabalho.
. Ser editora é uma tarefa fácil ou complicada?
A edição é uma tarefa muito complexa. Além de conversar com os entrevistados, fazer pautas e enviá-las, precisamos visualizar a edição para realizar a paginação, encaixar os assuntos e projetar os painéis de fotos dentro de algumas regras da semiótica.
No meu caso, também preciso entender de diagramação para criar a identidade visual do jornal. É necessário lapidar os textos para que sejam publicados em linguagem jornalística, de forma clara e acessível.
Não podemos usar muitos termos técnicos ou palavras difíceis. O que me fascina no jornal é a parceria com a equipe de colunistas e com o público.
Esse vínculo cultural que formamos com confrades das academias de letras de diversas cidades é muito gratificante. Costumo dizer que somos uma egrégora das artes. Cada colunista traz o que deseja colocar na vitrine, nas páginas do “Farol da Poesia”.
. Como é feita a distribuição do jornal? Qual é sua expectativa?
O jornal é híbrido, o que amplia seu alcance. Por meio do Instagram, atinge um público de 3 mil a 5 mil acessos mensais.
Os assinantes têm o privilégio de enviar poemas para publicação e receber o “Farol da Poesia” todos os meses em seus celulares, via WhatsApp.
O que me encanta é que cada colunista divulga o jornal para seus amigos e compartilha nas redes sociais. Assim, ele circula por lugares que nem imaginamos.
Temos leitores na Itália, Inglaterra, Argentina, Espanha, Portugal e Chile. É uma experiência maravilhosa. Também contamos com assinantes de diversos estados do Brasil.
. Pode citar os nomes de três escritores cujos trabalhos despertam a sua admiração?
Na realidade, são muitos escritores, e fica difícil citar somente três. Mas mencionarei alguns de que mais gosto: Cora Coralina, Carlos Drummond de Andrade e Khalil Gibran.
Entre os contemporâneos, há muitos autores produzindo poesia de primeira linha, com sensibilidade e coragem. Porque ser poeta nos dias de hoje é ser um revolucionário; é saber que é possível levar luz por meio da poesia, apesar das guerras e do caos social.
. Nesta época muitas pessoas escrevem contos, crônicas e poemas. Você pensa que essa explosão literária elevará a poesia ou a banalizará?
Respeito todos os gêneros literários. Cada autor escolhe, ou é escolhido, por determinada forma de literatura. Creio que é muito bom viver em um tempo em que a literatura ressuscitou.
Fico contente em ver o movimento das feiras de livros e dos festivais literários. Acho essencial para formar leitores e incentivar a escrita.
Embora eu veja pessoas com muito potencial sem oportunidade de editar seus trabalhos por falta de recursos, penso que a poesia nunca será banalizada se realmente tiver essência divina.
A poesia é uma forma de falar à alma das pessoas, e não apenas uma produção concreta. Ela é o elo que liga nossa inspiração ao sentimento coletivo.
Se a poesia não ressoar com o que o leitor precisa, ela não cumprirá seu papel maior: iluminar a vida das pessoas.
. Fale de seus projetos para o segundo semestre de 2026.
Por muito tempo sempre contei meus planos e projetos, mas, quando a maturidade chega, preferimos esperar para ver o que acontece.
Só sei que continuarei sempre dando o melhor de mim para que nossos artistas possam brilhar nas páginas do “Farol da Poesia” e para que nossa equipe traga sempre o melhor a nossos leitores.
Para o segundo semestre, espero estar bem para continuar com o “Farol” e compartilhar com mais pessoas a literatura, a poesia e a cultura.
Agradeço a oportunidade e o espaço para falar sobre poesia, pois ela é uma das razões da minha vida.
Deixo aqui um dos meus poemas preferidos:
Com Licença
(Ivana Martins)
Hoje me permiti vestir a roupa
do melhor de mim...
Busquei no cofre da minha alma
as joias mais preciosas:
o amor, a alegria, a gratidão e a confiança.
O tom da maquiagem foi inspirado
em uma das mais belas cores
do ser humano: a transparência.
Busquei também o perfume da sabedoria
e o brilho do conhecimento.
Como não poderia faltar,
calcei os sapatos da persistência.
Peguei a bolsa
de uma das melhores grifes: a educação.
Enfim, não poderia esquecer
o colar da paciência e o anel da virtude.
Ganhei também a pulseira da amizade,
e após essa produção
olhei para o espelho do futuro,
que me mostrou, simplesmente,
que a passagem e seus rituais,
levam para o grande banquete da nossa evolução.
Na festa luxuosa,
a arte das telas nas paredes,
a alegria das pessoas
e o encanto do momento
Foram capazes de transmitir a melhor composição
Executada pela orquestra:
A melodia fascinante chamada Vida.
.....................................................................................
Apoie o jornalismo cultural independente
Como apoiar
Para contribuir: Chave Pix 88836843700
O processo é simples e seguro.
A cultura agradece. O jornalismo independente também.

