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Jean Carlos Gomes

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Força Imagética

Fabrício Oliveira - Vencedor do Prêmio Manuel Bandeira de Poesia da Academia Brasileira de Letras

Poeta fala sobre mídias digitais, a função da literatura na sociedade e vida acadêmica

Entrevistas  –  14/10/2026 21:43

 
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(Fotos: Divulgação)

“Não desistam da literatura porque o mundo parece não estar olhando. Continuem escrevendo quando ninguém estiver lendo. Leiam muito, leiam os grandes autores, leiam os desconhecidos, leiam aquilo que os incomoda e aquilo que ainda não conseguem compreender”.

Fabrício Oliveira é poeta, escritor e professor, natural de Santo Estêvão, no Recôncavo Baiano. Licenciado em Língua Portuguesa pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), iniciou sua trajetória literária ainda na infância. É autor de “Gramática das Pedras” (Patuá, 2020), “Viração” (Patuá, 2022), “Corações Arenosos” (Mondrongo, 2023) e “Noite Obscena” (Mondrongo, 2025). Sua poesia se caracteriza pela força imagética, pela densidade metafórica e pelo diálogo entre memória, paisagem, experiência e linguagem. Em 2026, recebeu o Prêmio Manuel Bandeira de Poesia, da Academia Brasileira de Letras, por “Noite Obscena”, distinção concedida ao melhor livro de poesia publicado no Brasil em 2025.

Confira a entrevista com Fabrício Oliveira

. Diante da crescente relevância das mídias digitais, que novo cenário se desenha para a literatura brasileira?

As mídias digitais modificaram profundamente a maneira como a literatura circula, é descoberta e lida. Hoje, um poema pode atravessar fronteiras em poucos segundos e chegar a leitores que talvez jamais encontrassem aquele texto em uma livraria. Isso democratiza, em certa medida, o acesso à produção literária e permite que novos autores construam seus próprios caminhos de divulgação.

Ao mesmo tempo, esse cenário exige cuidado. A velocidade das redes não pode nos fazer confundir literatura com mera produção de conteúdo. A literatura precisa continuar sendo espaço de elaboração, de silêncio, de linguagem e de permanência. Acredito que o digital não substituirá o livro; ele ampliará as possibilidades de encontro entre o livro e o leitor.

. A constante crítica de que somos um país de poucos leitores interfere de alguma forma em sua atividade?

Interfere, sobretudo, como inquietação. Como professor e escritor, não consigo olhar para a realidade de um país com tantas desigualdades de acesso ao livro sem pensar que ainda temos muito a fazer. Mas não gosto de tratar o brasileiro simplesmente como alguém que “não lê”. Existe muita gente lendo, escrevendo e procurando literatura, embora nem sempre tenha acesso às bibliotecas, às livrarias e aos próprios livros.

Acredito que precisamos formar leitores desde cedo e, principalmente, aproximar a literatura da vida. Quando um jovem percebe que um poema também pode falar de sua rua, de sua família, de seus medos, de seus sonhos e de sua realidade, a literatura deixa de parecer uma coisa distante. Ela passa a ser uma possibilidade de existência.

. O que a literatura de mais satisfatório lhe proporciona?

A literatura me proporciona a possibilidade de transformar aquilo que é quase indizível em linguagem. Talvez seja essa a sua maior dádiva. Há sentimentos que não conseguimos explicar na vida cotidiana, mas que, de repente, encontram uma imagem, uma palavra, um ritmo.

Escrever também me proporciona uma espécie de permanência. A vida passa, as pessoas passam, as cidades mudam, mas aquilo que conseguimos inscrever na linguagem pode continuar respirando depois de nós. Para mim, escrever é uma maneira de conversar com o tempo.

. Qual é a função da literatura na sociedade?

A literatura não existe para oferecer respostas fáceis. Muitas vezes, sua função é justamente produzir perguntas. Ela nos ensina a olhar novamente para aquilo que julgávamos conhecer.

A literatura amplia nossa capacidade de imaginar a existência do outro e, consequentemente, nossa própria existência. Ela pode denunciar, desobedecer, revelar, ferir, consolar e provocar. Pode dar nome ao que foi silenciado e devolver humanidade àquilo que a sociedade transformou em estatística.

Por isso, acredito que a literatura é uma das formas mais profundas de resistência da imaginação humana. Um poema pode não mudar imediatamente o mundo, mas pode mudar a maneira como alguém olha para o mundo - e toda transformação começa, de alguma maneira, por um novo olhar.

. Fale um pouco de sua vida acadêmica, como escritor e como está se sentindo após receber o importante Prêmio Manuel Bandeira de Poesia da ABL, na noite de 23 de julho.

Minha trajetória acadêmica sempre esteve muito ligada à linguagem e à literatura. Sou formado em Língua Portuguesa pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), e minha formação como professor caminhou paralelamente à minha formação como escritor. A sala de aula me ensinou muito sobre a potência da palavra e sobre a necessidade de aproximar a literatura das pessoas.

Como escritor, venho construindo minha trajetória a partir da poesia, com livros como “Gramática das Pedras”, “Viração” e “Corações Arenosos”, além de “Noite Obscena”. Também venho trabalhando em prosa. Minha escrita nasce muito da experiência, da memória, da paisagem baiana, mas procura transformar essas matérias em uma linguagem que possa alcançar outros lugares.

Receber o Prêmio Manuel Bandeira de Poesia da Academia Brasileira de Letras foi uma experiência que ainda estou assimilando. Na noite de 23 de julho, no Petit Trianon, senti não apenas a alegria pessoal de receber uma distinção tão importante, mas também a sensação de que uma trajetória construída no interior da Bahia podia chegar a um espaço histórico da literatura brasileira.

Esse reconhecimento tem para mim um significado muito especial. Venho de Santo Estêvão, uma cidade do interior da Bahia, e nunca deixei de carregar comigo a paisagem, a memória e a voz desse lugar. Receber um prêmio com o nome de Manuel Bandeira é também compreender que a literatura pode nascer em qualquer lugar. O prêmio não encerra uma caminhada; pelo contrário, aumenta minha responsabilidade diante da escrita.

. Uma mensagem aos autores iniciantes.

Não desistam da literatura porque o mundo parece não estar olhando. Continuem escrevendo quando ninguém estiver lendo. Leiam muito, leiam os grandes autores, leiam os desconhecidos, leiam aquilo que os incomoda e aquilo que ainda não conseguem compreender.

E, sobretudo, não tenham pressa de parecer escritores. Antes de querer publicar, procurem construir uma voz. A literatura não é uma corrida. É uma permanência.

Cada escritor precisa descobrir aquilo que somente ele pode dizer e a maneira como somente ele pode dizer. Escrevam com coragem, mas também com paciência. O tempo é um dos grandes companheiros da literatura.

. O que acha de nossa iniciativa de entrevistar/homenagear renomes de nossa literatura, fazendo, além de uma justa homenagem, um intercâmbio entre o autor consagrado e o autor iniciante?

Considero uma iniciativa extremamente importante. A literatura precisa de pontes. Um escritor consagrado não deve ser visto como alguém colocado em um pedestal inalcançável, mas como alguém que também percorreu um caminho, enfrentou dúvidas, recusas, dificuldades e começou um dia.

Esse intercâmbio entre diferentes gerações é fundamental porque a literatura se constrói justamente pelo diálogo. O escritor iniciante pode encontrar no autor consagrado não apenas uma referência, mas uma possibilidade de futuro; e o escritor consagrado, por sua vez, pode reencontrar nessa nova geração a inquietação e a força que muitas vezes movem a literatura para frente.

Homenagear quem veio antes e, ao mesmo tempo, abrir espaço para quem está chegando é uma forma bonita de compreender a literatura como uma grande conversa que nunca termina. E talvez seja justamente isso que uma comunidade literária precisa fazer: criar espaços para que as vozes se encontrem.

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