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DJ

Olho Pop

Cláudio Alcântara

claudioalcantaravr@hotmail.com

Sentimento Agridoce

Feito Café, de Angra dos Reis, divulga o seu primeiro EP

Hugo Oliveira e Lê Pacheco ganharam o Prêmio OLHO VIVO 2017 - Categoria Clipe; disco - Barbacena - foi lançado em formato digital, nas plataformas de streaming e no YouTube

Entrevistas  –  11/04/2018 11:23

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(Fotos: Divulgação/Santiago Guimarães)

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“Nosso público não é o do mainstream, mas isso não quer dizer que não podemos ter sucesso na nossa empreitada; a galera que curte o nosso tipo de som é muito, muito fiel a ele; vai ao show, compra o disco, quer ler sobre o artista; é o melhor público do mundo, e o melhor: não vai te largar quando surgir a nova moda musical”

(Hugo Oliveira)

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“Barbacena” é o nome do primeiro EP do duo Feito Café, formado por Hugo Oliveira - violão, músicas e letras - e Lê Pacheco - voz. E vai rolar show de lançamento, neste sábado, 14, às 20h, no Teatro Municipal Dr. Câmara Torres, Praça Guarda Marinha Greenhalg, São Bento, em Angra dos Reis. Os ingressos custam R$ 20 (meia), R$ 40 (inteira) ou R$ 20 + 1kg alimento não perecível (entrada solidária). No show, eles são acompanhados de Humberto Ramos - teclado -, Jefté Maia - guitarra -, Raphael Mello - bateria - e Marcos Zampaglione - baixo. O Feito Café ganhou o Prêmio OLHO VIVO 2017 - Categoria Clipe.

Veja o clipe que ganhou o Prêmio OLHO VIVO 2017

Hugo Oliveira conta que a ideia do EP nasceu numa viagem a Barbacena, quando ele e Letícia - com quem é casado - resolveram fazer uma visita a um casal de grandes amigos. Na ida e na volta, como tem um grande problema relacionado à falta de sono em meios de transporte, aproveitou as quase 18 horas de insônia no total e foi digitando algumas letras na tela do celular, sem pretensão.

- Elas se transformaram no grosso do EP e acabaram influenciando no nascimento do duo Feito Café - lembra.

“Barbacena” foi gravado em setembro de 2017, contando com os mesmos músicos que acompanham o duo no show. Foi lançado apenas em formato digital, nas plataformas de streaming e no YouTube.

O Feito Café foi formado em 2014. O casal é apaixonado por música pop. Antes de conhecer Letícia, Hugo Oliveira havia cantado em várias bandas de rock de Angra. Em 2002, cursando a faculdade de comunicação social, no Rio, descobriu um pequeno problema na voz, o que fez com que ele parasse de cantar definitivamente, colocando um fim prematuro na carreira de cantor. Em 2011, conheceu Letícia, farmacêutica apaixonada por dança, judô e música. Eles se casaram em 2012 e, num belo dia, após Letícia oferecer mais uma cantoria enquanto tomava banho, um amigo músico do casal, que morava no mesmo bloco de apartamentos, encontrou com os dois na saída do prédio e disparou: “Pô, era a sua esposa que estava cantando? Que voz bonita!”. Verdadeiro ou não (verdadeiro, sim; a voz de Letícia é linda, como pude conferir ao vivo na Maratona Cultural do Prêmio OLHO VIVO), aquele elogio deu um estalo na cabeça de Hugo Oliveira, que pensou. “Ué... Já que eu não posso cantar, porque não colocar a Letícia para defender minhas composições?”.

- Dito e feito. De lá até aqui, foi tudo muito rápido. Comprei um violão novo e as composições e letras começaram a surgir. Num belo dia em 2014, na fila de espera de um consultório médico, quando conversávamos sobre as coisas que mais gostávamos, café foi citado pelos dois. Daí, pensamos: “É isso: Feito Café”.

Confira a entrevista com Hugo Oliveira

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Como foi o processo de composição? Vocês trabalham esse processo em dupla também? Quanto tempo levou, desde o início das composições até a finalização do EP?

Apesar de compor - por enquanto - sozinho, Letícia ajuda muito no sentido de ser um termômetro relacionado à música. Ela canta as letras que faço e vai sentindo a emoção de cada música. Quando o “emociômetro” vai às alturas, sabemos que temos algo de bom para mostrar. Comecei a esboçar a primeira leva de canções do Feito Café em 2014, lançando o EP com essas músicas em fevereiro de 2018.

O EP tem uma linha conceitual, algo que amarre as músicas de alguma forma? Primeiro vocês lançaram o single “Boa viagem”, agora o EP, ou seja, seguem os passos tradicionais de divulgação de um trabalho musical. Existe a possibilidade de isso ser ampliado para um álbum?

Sou um grande fã de trabalhos conceituais, mas ainda não me considero apto a fazer algo do tipo. De qualquer forma, acho que existe algo que amarra, ao menos de leve, as primeiras canções do Feito Café. Talvez seja o sentimento agridoce que permeia as músicas. Muita gente veio falar comigo sobre a fofura das canções. Concordo que apresentam essa característica, mas não tem só isso ali. Pelo contrário: do single “Feito café” às canções do EP “Barbacena”, todas essas músicas têm um lado triste também. Uma simples conferida nas letras pode provar tudo o que eu estou falando! (risos)

O que foi mais gratificante nesse processo de criação do EP, e qual seria o ponto de maior dificuldade (no sentido amplo, para quem também pretende lançar um EP)?

A maior alegria relacionada ao processo de criação de “Barbacena” foi acompanhar cada canção nascendo, crescendo e ganhando vida própria ao chegar aos ouvidos das outras pessoas. Ver que aquele esboço inicial ganhou corpo e peso emocional, transformando-se em algo que uma pessoa que você nunca viu na vida pode se identificar, é muito gratificante. Quanto às dificuldades, elas têm muito a ver com a questão financeira. Muitas portas se abriram com o advento da internet, mas ser músico independente ainda é muito difícil.

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Poderia fazer um faixa a faixa do EP, do seu ponto de vista?

1 - “Seu e sim” - A primeira faixa do EP foi também uma das primeiras a ser esboçada. Diferente das outras canções do trabalho, ela é cantada da perspectiva masculina, de alguém que vem passando por uma série de problemas e, de repente, encontra um fiapo de luz em meio ao caos da vida cotidiana… Por meio do amor. Tenho muita vontade de tentar inserir um trecho de “Harvest moon”, do Neil Young, em alguma parte dela, quando a gente for apresentá-la ao vivo.

2 - “Erro, não nego; acerto quando puder” - Por enquanto, uma das canções que mais me orgulho de ter escrito. É uma música que defende a ideia de que sempre vamos nos sentir culpados diante de decisões importantes que tomaremos ao longo da vida. Fui chutado por alguém? Sinto-me culpado. Chutei alguém? Igualmente culpado. Feliz? Triste? Indeciso? Correto? Sempre culpado. A música completinha, com letra e tudo, já era ensaiada por mim e pela Letícia em 2014… Mas aí o pessoal do O Terno foi mais ligeiro e lançou uma puta música com uma temática parecida, ano passado. Vale citar mais alguma coisa? OK, vamos lá: queria que o refrão dela lembrasse algo do Belle & Sebastian… Mas querer não é poder, correto? Sigamos sem culpa. Ou com. Sei lá.

3 - “Boa viagem” - Essa canção não foi criada numa viagem ou dentro de um ônibus. Eu estava sozinho no meu quarto, brincando com o violão, quando o refrão dela simplesmente apareceu. Foi uma alegria muito grande, por conta de ter soado para mim como Jovem Guarda, Beatles do começo, “Anna Júlia”, The Wonders e Frank Jorge; por outro lado, forneceu um pouco de preocupação, porque não se parecia com nenhuma das músicas que eu estava compondo na época. Deixamos as preocupações bobas de lado e inserimos a faixa no nosso repertório. Mais do que isso: é o carro chefe do nosso EP, tendo merecido um clipe lindão por meio dos nossos queridos amigos da Alima Produtora. Sabe aquele cara do vídeo num visual mod estiloso, metade Roy Orbison, metade Elvis Costello? É este mesmo que vos escreve! A letra parte de uma premissa simples e certeira: alguém que está abrindo mão de um amor por conta de um sonho que a outra pessoa tem… E que não inclui acompanhante. É triste, confesso. Mas a tristeza é pop.

4 - “Segredo pra quem?” - Tive o mesmo pensamento que muitos tiveram quando escutaram “Faroeste caboclo”, da Legião Urbana. “Uau! Que fantástico: o cara criou um conto dentro de uma música, uma historinha com começo, meio e fim!”. Daí, o próprio Renato Russo, vocalista da banda, disse em entrevistas que uma das influências para a faixa foi a música “Hurricane”, de Bob Dylan. Fui eu correr atrás do Dylan e do disco “Desire”, que continha a música. Assombro total. De lá para cá, entre uma banda e outra, fui sempre tentando criar algo que lembrasse uma dessas narrativas longas que muita gente do folk costuma defender. “Segredo pra quem?” conta a história do primeiro amor de um casal de pré-adolescentes, pela perspectiva da menina. É ambientada nos anos 80 e tem muitas referências da época. Utilizei muito do que eu vi e ouvi no Colégio Estadual Nazira Salomão, em Angra dos Reis, na canção. Estudos Sociais, Atari, papel de carta, Luan & Vanessa, caderninho de perguntas, Roque Santeiro… Está tudo lá. E tem um final bem surpreendente também.

Assista ao clipe do carro chefe de "Barbacena"

Vamos falar de clipes... Ao contrário de a grande maioria dos artistas locais (e isso se deve principalmente à falta de recursos), os clipes do Feito Café são muito bem cuidados, produzidos com qualidade técnica e artística bem acima do que se vê na região. De que forma vocês conseguem viabilizar isso?

Primeiramente, a gente fica muito feliz em ler um elogio desse tipo. Quanto ao possível sucesso dos vídeos, tivemos sorte de trabalhar com profissionais da melhor qualidade - People 9 no clipe de “Feito café” e Alima Produtora Audiovisual no vídeo de “Boa viagem” -, e também trabalhamos muito pesado na produção de cada um deles, por entender que um vídeo, uma música, enfim, um documento cultural é uma coisa que fica. Logo, que ele seja lembrado por ser bom! Viabilizar a produção de um clipe não é tarefa fácil. Envolve gastos, equipe etc. Ainda assim, hoje em dia é muito mais fácil você conseguir um produto desse tipo do que nos anos 80 ou 90. A internet chegou para revolucionar tudo relacionado à música, para o bem e para o mal. Felizmente, nesse assunto em questão, ela só trouxe benefícios. Se você falasse para mim, no começo dos anos 90, que eu teria uma banda que lançaria single, EP e clipe, eu riria na sua cara, afirmando que só em sonho. Hoje, não: se você acredita no que faz, se quer levar isso à frente, é se planejar, juntar grana e mandar ver.

Que análise você faz do mercado musical aqui na região? Há, sem dúvida, o predomínio do sertanejo, do pagode e do funk. Mas ainda é possível fazer música da forma como se deseja e ama?

Sempre é possível fazer o tipo de música que você gosta. Hoje temos o predomínio do tipo de som que você citou não apenas na nossa região, mas em todo o Brasil. Normal. Nos anos 80 foi o Rock Brasil; nos 90 o axé e o sertanejo... Daqui a pouco será outra coisa. A diferença fundamental está na estratégia que você vai utilizar na divulgação do seu trabalho e o público que você quer atingir. Nosso público, por exemplo, não é o do mainstream. Mas isso não quer dizer que não podemos ter sucesso na nossa empreitada. A galera que curte o nosso tipo de som é muito, muito fiel a ele. Vai ao show, compra o disco, quer ler sobre o artista. É o melhor público do mundo, e o melhor: não vai te largar quando surgir a nova moda musical. Logo, tudo tem a ver com o jeito que você vai se colocar no seu nicho. É óbvio que o caminho é longo e árduo, mas estamos dispostos a dar cada passo de uma vez, sem retroceder.

O que poderia ser feito para melhorar e abrir mais espaços para outros estilos e gêneros musicais que não sejam os abraçados pela maioria das casas noturnas e locais onde a música é um dos atrativos?

Acho que o futuro para o tipo de música que o Feito Café faz é micro. Pequenas casas, pequenos shows e público menor, mas de qualidade, que esteja interessado em coisas novas. Não vejo nenhum problema nas casas que investem em estilos mais populares. De qualquer forma, sei que existe uma parcela específica da população que quer ouvir outro tipo de música, outro tipo de artista que não esteja ligado apenas à questão do entretenimento. O lance é pegar essa pequena parcela toda e se voltar a ela. E também tem outra coisa: antigamente, a única maneira que uma banda tinha para divulgar seu trabalho era fazendo show. Hoje não: o Feito Café mesmo, por exemplo, é um projeto musical que só vai começar a fazer mais shows agora, a partir do lançamento do EP. Nosso objetivo, primeiramente, é criar um público que esteja interessado no nosso som. Alimentar essas pessoas com músicas, vídeos, letras, ou seja, tudo que faça alusão ao nosso universo. Depois disso vem o show, que é o fechamento dessa “cadeia alimentar pop”.

> Contatos profissionais do Feito Café - feitocafe@gmail.com ou pelo telefone (24) 99912-6766. O duo está no Facebook, no Twitter e no Instagram, além de ter também um canal no YouTube.

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Por Cláudio Alcântara  –  claudioalcantaravr@hotmail.com

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