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Entretantos

Rita Procópio

ritafprocopio@hotmail.com

A Valorização dos Talentos da Casa

Bárbara Procópio e o mercado do desenho animado

Nascida em Barra Mansa, já trabalhou em estúdios na Holanda, na Dinamarca, e atualmente na Irlanda; ela conta um pouco do que é a área e dá dicas para quem quer ingressar no mercado

Entrevistas  –  14/06/2018 10:14

Publicada: 15/05/2018 (11:09:24) . Atualizada: 14/06/2018 (10:14:05)

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(Foto: Divulgação)

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“Melhore seu desenho; se você pretende ser animador, acredite, o desenho é muito mais importante que aprender qualquer software”

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Explorar possibilidades, sobretudo o desenvolvimento da arte em uma cidade, é também uma maneira de colaborar na responsabilidade de transformar a cidade em um capital educativo. A arte é partilha, é troca, e caminha junto com a educação. Mas os artistas da casa precisam, antes de tudo, serem valorizados pela própria casa, bem como pelos seus companheiros fazedores de arte. O Prêmio OLHO VIVO, nesse sentido, tem feito um papel de suma importância para os fazedores de cultura da região, antes incógnitos dentro de seu próprio território, sendo conhecidos apenas àqueles poucos que conseguiam sair e fazer sucesso fora. Sendo assim, os talentos da casa, aos poucos, vêm saindo do anonimato. Mas ainda é preciso caminhar um pouco mais para que a sociedade pare com essa mentalidade de valorizar apenas os talentos de fora e dê condições para que o sucesso de nossos artistas comece pela casa, e só depois ele atravesse fronteiras, elevando o nome do município. A bem da verdade, muitos desses artistas que começaram fora, devido a falta de valorização interna, nem tiveram oportunidade de começarem na casa, mas são daqui, nascidos e criados aqui, merecem tanto quanto que a região saiba da existência deles. Um exemplo disso é a artista Bárbara Procópio. Quando aluna da Escola de Belas Artes da UFRJ, Bárbara, que nasceu e estudou até o ensino médio em Barra Mansa, fez intercâmbio de um ano na França. Ao retornar, começou sua carreira em estúdios do Rio de Janeiro, mas não perdeu as oportunidades que apareciam de participar de cursos e workshops na área, como o Anima Mundi e Cria 2DLab. Nos estúdios do Rio de Janeiro ela animou episódios do “Sítio do Pica Pau Amarelo”, “Chico na ilha dos Jurubebas”, “Meu Amigaozão”, entre outros. As oportunidades fora do país foram surgindo, e ela então fez as malas e foi trabalhar em estúdios na Holanda, na Dinamarca, e atualmente na Irlanda. Aqui ela vai nos contar um pouco do que é a área dela e dar dicas para pessoas que queiram ingressar nesse mercado.

Confira a entrevista com Bárbara Procópio 

Bárbara, como você começou sua história com animação?

Eu sempre fui fascinada por desenhos animados, mas durante muito tempo não tinha ideia de que trabalhar com animação era uma possibilidade. Eu mal sabia por onde começar, e ao terminar a escola pesquisei por todos os cursos da área de arte que eu achava que pudesse ter alguma relação com animação! Foi quando ingressei no curso de design na Universidade Federal do Rio de Janeiro e aos poucos comecei a entender como essa fatia de arte misturada com audiovisual funcionava, e com a orientação que eu tinha lá dentro pude buscar de forma independente por cursos básicos e estudar de forma autodidata através de livros e pela internet. E foi assim, de forma independente, como quase todos os animadores brasileiros que conheci, que aprendi o suficiente pra conseguir meu primeiro emprego na área. 

Qual é o primeiro passo que a pessoa deve seguir para se tornar um animador?

Estudar muito! Animação não tem atalhos e, acredite, é um trabalho bastante metódico e preciso. Tem que gostar muito e ter muita paciência porque é preciso muito trabalho para obter qualquer resultado, mas ao mesmo tempo é muito gratificante. O animador precisa, antes de qualquer coisa, gostar de desenhar - quase obsessivamente - e estudar animação a partir de boas referências. Não é preciso ter formação universitária para se trabalhar com animação no Brasil, mas é preciso ter um trabalho consistente se você pretende seguir carreira. Comece a estudar pelo “Guia de Sobrevivência do Animador”, do Richard Williams, estude desenho clássico e figura humana, preencha sketchbooks! 

O fato de o animador ter uma formação no exterior contribui, é claro, para o currículo dele, mas contribui igualmente para a inserção dele no mercado brasileiro? Os estúdios brasileiros avaliam pelo currículo ou pelo trabalho?

Os estúdios, tanto no Brasil quanto no exterior, dificilmente vão te avaliar pelo seu currículo, a não ser que você tenha saído de uma escola de arte ou animação de referência. Você será sempre avaliado pelo seu trabalho, sempre. No Brasil ainda não existe muita formação especifica em animação, e a maior parte dos animadores vieram das universidades de design, arte, cinema ou produção cultural. Muitos não frequentaram universidades. De toda forma, todos aprenderam na garra como animar, de forma autodidata, em cursos livres e posteriormente dentro dos próprios estúdios. 

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"Geralmente os estúdios pedem um teste de animação bem básico, nesse caso é preciso saber um pouco sobre o software que vai ser utilizado, e vai variar de estúdio pra estúdio, mas uma vez que você saiba um ou dois softwares, o suficiente pra criar uma animação, você está apto a tentar o recrutamento".

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Como é o processo para conseguir trabalho em um estúdio de animação?

O Brasil tem vários estúdios, principalmente nas capitais. Eles costumam ter oportunidades de recrutamento frequente, sempre que surge um projeto com maior demanda de animadores, então fique atento nas redes sociais e nos sites dos estúdios para saber a melhor hora de mandar seu portfólio. Inicialmente os recrutadores pedem portfólio - um bom conjunto de desenhos, principalmente de figura humana, reel - um link pra um vídeo dos seus trabalhos ou experimentações audiovisuais, que não passe de três minutos, e CV onde você coloque as experiências que forem relevantes pra área. Geralmente os estúdios pedem um teste de animação bem básico, nesse caso é preciso saber um pouco sobre o software que vai ser utilizado, e vai variar de estúdio pra estúdio, mas uma vez que você saiba um ou dois softwares, o suficiente pra criar uma animação, você está apto a tentar o recrutamento. 

O que é mais forte para o mercado: as séries, ou os filmes de animação? Explique-nos as vantagens entre um e outro sob o ponto de vista de crescimento profissional do animador.

Existem muito mais séries de animação, para TV ou internet, do que filmes sendo produzidos, por isso dificilmente o primeiro trabalho de um animador será num filme. As séries de TV têm um aspecto muito mais rígido e comercial do que os filmes, mas possibilitam que o animador iniciante entenda a dinâmica do mercado e aprenda a entregar qualidade com velocidade. Os filmes têm uma dinâmica muito diferente e geralmente dão muito mais liberdade à criatividade do animador. 

O animador pode divulgar de imediato em portfolio o seu trabalho ou ele tem que esperar algum tipo de liberação da produtora?

Quando você trabalha para um cliente sempre existe um contrato de confidencialidade. O animador jamais pode exibir o trabalho antes da permissão expressa do cliente ou da produção, e caso isso aconteça, dependendo do cliente, as consequências podem ser bem graves! Geralmente não é permitido sequer postar fotos tiradas dentro do estúdio nas redes sociais, pois o material confidencial pode acabar sendo vazado, como design de personagens nas paredes do estúdio ou uma cena aberta na tela de algum computador. Caso o animador esteja, durante uma produção, à procura de outro trabalho, mas precisa de material para mostrar para outros estúdios, uma prática comum é fazer um reel secreto - colocar num site como Vimeo o vídeo privado com senha, e fornecer apenas para o estúdio ou cliente em questão a senha durante o recrutamento, explicando que não pode ser exibido por direitos autorais. Por conta disso, a maioria dos animadores profissionais não tem reel público atualizado, a não ser com trabalhos pessoais, e quase todos mantêm reels privados com senha.

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"Dificilmente um projeto vai pedir que você mostre tudo o que você sabe - e se pedir, você precisa ser pago de acordo. Se você quer se exceder, testar seus limites e mostrar seu talento, invista em trabalhos pessoais".

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Quanto tempo em média demora um produto de animação para ser finalizado?

Depende muito do produto e do tamanho da produção - e do material humano - que ela dispõe. Um filme de animação pode levar anos, mesmo num estúdio grande, dependendo do nível de dificuldade do projeto. Geralmente um projeto de série no mercado leva de seis meses a um ano na etapa da animação, dentro de um estúdio de tamanho médio. Calcular esse tempo e como ele é distribuído é uma das tarefas do produtor. No Brasil a média de produção do animador numa série de TV, esperada pelo estúdio, é de seis segundos por dia - trinta por semana, dois minutos por mês. Através dessa média o produtor pode estabelecer quantos animadores - e quanto tempo e dinheiro - um projeto precisa pra ser concluído. 

Como é o processo da distribuição da animação?

O processo da animação começa com o roteiro. Depois de aprovado pelo cliente e pela produtora, o roteiro vai ser esquematizado em desenhos pelo storyboarder, com orientação do diretor de animação, numa espécie de história em quadrinhos, cena a cena, de como a animação deve ficar quando pronta, e isso é editado num vídeo com o som original e no tempo em que as cenas precisam acontecer, o animatic. Nesse mesmo tempo, a equipe de arte estará trabalhando no design dos cenários, dos personagens e dos objetos de cena sob orientação do diretor de arte. Dependendo da técnica do projeto, esses personagens e objetos de cena, chamados de props, serão encaminhados a outro profissional, o rigger, que vai criar dentro do software escolhido para a produção uma estrutura de hierarquias das partes do personagem, transformando esses personagens e objetos em verdadeiras marionetes virtuais que o animador futuramente vai usar para movimentar. Tudo isso pronto, a equipe de layout vai montar dentro do software o pedaço de animatic de cada cena, separadamente em arquivos organizados, junto com tudo que vai ser preciso dentro daquela cena específica - cenário, personagem, props, sons. Todo esse processo é chamado de pré-produção, ou seja, tudo aquilo que precisa estar pronto pra quando a produção da animação de fato começar. O animador então tem as ferramentas necessárias pra iniciar seu trabalho e contar a história de acordo com o estilo de animação pedido. Os supervisores, diretores e cliente em todo o processo estarão orientando e revisando o trabalho da equipe que, quando pronto, passará por composição e edição até o formato final finalmente estar pronto para ser exibido. 

Pra terminar, que dica você daria para alguém que está começando agora a trabalhar com animação?

Melhore seu desenho. Se você pretende ser animador, acredite, o desenho é muito mais importante que aprender qualquer software. Paralelamente, estude animação, assista desenhos animados, colete referências, estude os animadores que você admira, leia sobre animação. Se você quer crescer dentro da indústria, precisa aprender a trabalhar rápido e entregar a qualidade que o projeto pede. Mas é muito importante lembrar sempre que o trabalho dentro do estúdio não é o trabalho da sua vida e dificilmente um projeto vai pedir que você mostre tudo o que você sabe - e se pedir, você precisa ser pago de acordo. Se você quer se exceder, testar seus limites e mostrar seu talento, invista em trabalhos pessoais.

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Por Rita Procópio  –  ritafprocopio@hotmail.com

1 Comentário

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  • Marcelo Almeida

    Muito útil a entrevista. Tenho um primo querendo ir pra essa area e acho que essa entrevista com a Bárbara, vai ajudar bastante. Materia muito bem feita pela colunista. Obrigado e parabéns!