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Rita Procópio

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Talentos Sem Fronteira

Suellen Serrat conta como é participar do Workcenter

Atriz de Volta Redonda fala da experiência que viveu no grupo The Open Program of the Workcenter of Jerzy Grotowski and Thomas Richards

Entrevistas  –  18/06/2019 11:36

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(Foto: Divulgação)

Suellen (à esquerda) esteve em sua cidade natal, para ministrar o workshop "Corpo que canta, voz que dança", como contrapartida ao Ministério da Cultura

 

O Workcenter of Jerzy Grotowski and Thomas Richards é um grupo de renome internacional, radicado em Pontedera, na Itália, composto por artistas de diversos países. Fundado em 1986 por Jerzy Grotowski, teatrólogo que revolucionou o teatro contemporâneo trazendo uma nova arte de atuar, onde se dá ênfase à relação entre o público e o ator, Grotowski desenvolveu uma linha de pesquisa de desempenho performático durante muitos anos e, em Pontedera, Itália, esteve à frente do Workcenter por 13 anos. Antes de morrer, confiou a seus colaboradores Thomas Richards e Mario Biagini o fruto de sua pesquisa para que dessem continuidade ao seu trabalho. E assim, hoje, além das performances, o grupo viaja por diversos países ministrando workshops. Foi dessa forma que conheci o grupo, quando um dos componentes, Suellen Serrat, brasileira, veio para Volta Redonda, sua cidade natal, para ministrar o workshop "Corpo que canta, voz que dança", como contrapartida ao Ministério da Cultura, já que seu projeto de intercâmbio com o Workcenter havia sido contemplado em edital.  

Confira a entrevista com Suellen Serrat  

Como é e o que é o The Open Program of the Workcenter of Jerzy Grotowski and Thomas Richards? 

A primeira formação do Open Program em 2007 surgiu de uma seleção de atores no próprio espaço do Workcenter em Pontedera. Thomas Richards e Mario Biagini, que até então trabalhavam juntos, resolveram cada um dirigir um grupo de atores. Chegaram atores de diferentes lugares do mundo e cada qual com seus anseios e desejos. Quem seria selecionado? Se existia alguma característica/aptidão que a pessoa deveria ter? Creio que não. No Workcenter dos últimos anos havia vindo se desenvolvendo um trabalho baseado em cantos ancestrais. Talvez poderia se ter uma ideia de que tipo de pessoas pudessem formar o grupo, talvez. Mas acredito que tudo se deu de num encontro haver uma necessidade de trabalho conjunto, uma necessidade mútua entre pessoas. Algo como um “sinto que temos algo em comum, algum desejo, talvez a gente nem saiba qual ainda, mas sim, precisamos estar/trabalhar juntos”. E assim se formou a primeira geração Open Program. E desde então algumas pessoas entraram, outras saíram, há aquelas que estão desde o princípio, há aquelas que não passaram de um ano. Posso dizer que são pessoas interessantes, intrigantes, não sei se eu sou assim, ou era, mas posso dizer isso dos meus colegas com toda certeza, são pessoas que possuem um mistério, você tem vontade de estar perto, de saber mais, te conquistam em cena e fora dela. 

É preciso ser dito que se trabalha muito quando se está lá. Nos ensaios diários e fora deles. Em todos os aspectos necessários para se levar uma performance ou workshop a qualquer lugar. Mas o trabalho possui algo que atravessa esse lugar de um talvez glamour que tenha as artes e chega num outro lugar, um lugar de encontro. Encontro consigo mesmo antes de tudo e então encontro com o outro. De olhar, ver, estar junto. 

Num mundo estranho onde buscamos pelo estar junto, mesmo que virtual, o estar junto estando realmente junto se torna raro. E quando temos esses momentos temos a certeza que são estes momentos que fazem nossa vida parecer ter sentido. E então queremos mais. Encontrar sentido em uma vida aparentemente sem sentido.  

Fale um pouco sobre Mario Biagini e Thomas Richards. Das atribuições deles no Programa. 

Sou muito grata por ter tido a oportunidade de conhecer e trabalhar com Mario Biagini. No trabalho com ele tive a sensação do que é trabalhar/estar com um mestre. A forma como ele conduzia o trabalho, seu olhar e suas palavras, dentro e fora do trabalho. Com aquela presença marcante que faz com que qualquer um note sua presença em qualquer lugar. Talvez pelo jeito de caminhar, de olhar, de pensar. Às vezes dava um certo arrepio sentir que estava sendo observada por ele.  

Tive a oportunidade de trabalhar com ele diretamente como diretor do Open Program. Com Thomas pude perceber essa mesma qualidade em encontros diversos, porém com menos intensidade, já que não trabalhava diretamente com ele. 

São homens que possuem grandes responsabilidades. São os herdeiros de Jerzy Grotowski, um nome de peso para o teatro mundial. Dentro do Workcenter eles precisam pensar em tudo. No trabalho criativo e também em como continuar mantendo o grupo vivo.  Imagino que isso deva ter um peso enorme na vida deles e que não seria qualquer pessoa capaz de suportar. Eles souberam aprender de Grotowski essa maneira de ser/estar, pensar a vida e o teatro. Estão vivos e estão ativos, precisamos aproveitá-los.

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"Acho muito difícil que na arte não tenha política ou questões sociais envolvidas, porque é a maneira que nos organizamos, é como vivemos e a arte lida com a vida. E acho que não são coisas que precisam estar explícitas. Mas elas estão lá. Tudo depende também de como a pessoa que recebe enxerga o que vê, de qual ponto de vista percebe aquilo. Às vezes criamos algo pensando em uma coisa e quem recebe percebe outra". 

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Como você começou no Workcenter of Jerzy Grotowski and Thomas Richards? 

Em 2012, em Belo Horizonte (MG), participei de uma seleção para novos atores integrarem o Open Program. A príncipio havia ido apenas para acompanhar meu companheiro. Lá chegando fui convencida a participar da seleção, talvez encarando como uma oportunidade de estar próximo do grupo, já que havia visto o trabalho deles em Ouro Preto (MG) e estava extasiada com tudo aquilo. Foram quatro dias de seleção. Ao final do primeiro dia senti que tinha encontrado algo muito importante em mim. E sentia desde então o que estava a ser traçado. Foram dias especiais. Acabei de fato selecionada e então iniciou a saga para conseguir verba para ir para Pontedera - Itália. O convite dizia que seria uma experiência de um ano. Consegui alguma verba pelo MINC através de edital. E depois de um ano passei a receber uma bolsa da Fondazione Teatro della Toscana, ficando por mais um ano no grupo. No final de 2014 retornei ao Brasil, pois estava grávida de meu primeiro filho, Jorge. 

O Programa exige uma atualização contínua por meio de cursos, mestrados etc.? Cite um desses cursos que um de vocês tenha feito. 

Não. Nenhuma exigência. Até pelas demandas que tínhamos era muito difícil conciliar outros desejos. Há quem o tenha feito. Eu quando cheguei na Itália havia trancado minha faculdade de Teatro na UniRio. Até pensei em tentar terminá-la na Itália. Mas não consegui. 

A intervenção cultural do Programa pode ser feita de influências diversas como por exemplo política ou social, no intuito de uma chamada de consciência para a necessidade de um diálogo sobre as questões que ora se apresentam naquele local sem abandonar a influência criativa da pesquisa de Grotowski? 

Acho que não era uma coisa que discutíamos. Acredito que o trabalho que fazíamos acabava indo de encontro a estas questões porque quando criávamos buscávamos por algo que nos motivava, e o que nos motiva acaba passando por esses lugares comuns que todos atravessamos. Se cantava uma canção (tendo como fonte um poema de Ginsberg) que falava “eu não gosto do governo aonde eu vivo”, alguém pode ouvir aquilo e pensar “poxa, eu também não”. E daí quando pessoas se unem algo poderoso pode acontecer. Mas o trabalho sempre partia das nossas experiências, do que nos motivava/movimentava. E não de “precisamos emocionar/tocar as pessoas”. Se por um acaso a pessoa sai comovida/tocada por algo é porque alguma coisa de verdadeiro aconteceu ali. O importante era fazer algo que tivesse profundidade para nós, e talvez, e aí sim, possuísse chances de ser importante para algum outro alguém. Por uma questão política, social, familiar, carnal... 

E acredito também que a influência de Grotowski está muito ligada a uma maneira de se fazer. Mas o que seria feito, isso depende de cada ator e diretor que está ali. Que procura por materiais que são fontes criativas para ele. 

A ocupação artística do Workcenter of Jerzy Grotowski tem cunho político ou social, trazidos da era Grotowski para a realidade atual, ou há ocupações com outros cunhos? 

Acho que não existem essas denominações, estes cunhos. Acho que não existem rótulos, nem necessidade de. Não sei se consigo entender o que você quer dizer quando fala de ocupação artística. O Workcenter está sediado em Pontedera, mas acho que foi bem recentemente que as próprias pessoas da cidade perceberam que existe um grupo de teatro que trabalha ali, até então ninguém sabia que num casarão antigo existia um grupo de estrangeiros fazendo arte. Grotowski viveu diferentes fases de seu trabalho desde quando começou. E acredito que quando foi convidado a ir para Pontedera foi uma chance que teve de mergulhar numa nova pesquisa de trabalho que lhe oferecia as condições necessárias para tal. Acho muito difícil que na arte não tenha política ou questões sociais envolvidas, porque é a maneira que nos organizamos, é como vivemos e a arte lida com a vida. E acho que não são coisas que precisam estar explícitas. Mas elas estão lá. Tudo depende também de como a pessoa que recebe enxerga o que vê, de qual ponto de vista percebe aquilo. Às vezes criamos algo pensando em uma coisa e quem recebe percebe outra. 

A criação das performances são exclusivamente baseadas nos escritos de Grotowski  e Thomas Richards ou há uma equipe formada para pesquisas atuando junto a Thomas? 

Não existe uma equipe separada para isso ou para aquilo. Todo mundo está envolvido no trabalho criativo e em algum aspecto da produção no Workcenter. Nos escritos de Grotowski temos pistas de como ele foi construindo seu trabalho, as coisas valiosas que ele encontrou. A relação ator-público, as ações físicas, o trabalho com os cantos... Tudo isso serve de base pra gente. É esta a nossa base em comum. No trabalho criativo estas bases têm de estar presentes, porém cada qual construindo o trabalho à sua maneira, digamos. Cada pessoa precisa encontrar o que funciona para ela, não existem fórmulas. Às vezes recebíamos algum texto onde nos era pedido que escolhêssemos algo e criássemos em cima daquilo. Noutras podíamos criar sobre qualquer material que quiséssemos. Na hora de criar esta maneira de fazer, tinha a ver com o que Grotowski nos deu e Thomas e Mario vieram/vêm trabalhando e desenvolvendo ao longo dos anos. Minhas ações estão vivas? Pra quem falo? De onde falo? Estou em relação com o quê? Estas questões nos norteavam. 

Mas sobre o que íamos criar, isso dependia de cada ator e/ou do diretor. 

O Workcenter se divide em outros braços? 

Existem dois grupos trabalhando atualmente no Workcenter. Existem inúmeros pesquisadores mundo afora que tratam do Workcenter e de Grotowski. O Workcenter sempre está aberto para este contato com quem venha interessado em conhecer o trabalho que é desenvolvido por lá. Nos últimos anos foi desenvolvido um trabalho pelo Open Program em New York e acabou se formando um “grupo” por lá. Sempre que retornávamos encontrávamos este grupo, e quando íamos embora este grupo continuava trabalhando junto. 

Não sei se isto ainda existe e não sei se respondi sua pergunta.

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"A arte toca nos problemas, nas feridas, nos faz discutir, nos faz querer mudar, ser melhores. E para algumas pessoas essas não são coisas favoráveis. Talvez aí esteja o perigo. Por isso precisamos resistir". 

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Vocês ministram workshops em diversos países. Como são feitas as escolhas do integrante que vai ministrar o workshop?  

Primeiramente quem está capaz para ministrar um workshop. Podia acontecer de ter um workshop em Paris, daí você prioriza o cara que é/vive lá. Até pra ele ter a oportunidade de ir para casa. Noutras vezes por mera questão de dividir o grupo. Existe um grupo apresentando um pequeno trabalho na cidade X, então este outro grupo pode ir dar um workshop na cidade Y. Normalmente tínhamos muitos pessoas aptas a ministrar workshops e geralmente trabalhamos com alguém liderando e outras pessoas dando assistência. E geralmente os workshops eram realizados pelo grupo todo. E funcionava como se estivéssemos abrindo nosso trabalho para novas pessoas entrarem. Então tínhamos que ensaiar. E geralmente também tinham as cenas que os participantes levavam. Mas havia casos onde apenas um, dois ou três integrantes do grupo lideravam os workshops.   

O artista tem uma capacidade mágica de transformar a percepção da realidade, mas no nosso país, infelizmente ainda há uma mentalidade de que as ocupações culturais detonam a estrutura da sociedade. Você acredita que, nesse sentido, a arte das intervenções pode ser considerada política e perigosa, justamente por deixar marcas na memória do espectador, provocando uma situação de mudança?  

Completamente. Por isso que temem a arte. Pelo poder de transformar e inquietar que ela tem. Às vezes você tem uma queixa mas fica quieto porque acha que talvez aquilo seja sem importância e seja só você que esteja pensando aquilo. Desta forma talvez você seja o problema. A partir do momento que encontramos outros falando de coisas que também nos pertencem isso nos fortalece, nos faz querer movimentar, fazer algo. 

A arte toca nos problemas, nas feridas, nos faz discutir, nos faz querer mudar, ser melhores. E para algumas pessoas essas não são coisas favoráveis. Talvez aí esteja o perigo. Por isso precisamos resistir.  

Como funciona o quesito de remuneração dos artistas no Programa? 

No primeiro ano você tem que se manter. Se for convidado a continuar você recebe uma bolsa da Fondazione Teatro della Toscana. Quem está há mais tempo recebe um pouco mais.  

Qual é o caminho para se ingressar no programa e quais são as exigências (idade, experiência na área, fluência em línguas etc.)? 

O caminho é você encontrar estas pessoas e dali nascer uma necessidade de trabalharem juntas. Eu vim de uma seleção. Há quem tenha ido partcipar de um workshop e ficado por lá. Eles precisam te conhecer e dali haver um interesse em trabalho conjunto. Não existem exigências. Se você não fala o inglês (e geralmente a comunicação e as performances são em inglês), isso não vai impedir você de trabalhar no Workcenter, você terá de aprender o inglês então.    

Em média, quantos integrantes tem hoje no Programa? Há ainda chances para a entrada de novos integrantes? Quais são as dificuldades para quem sonha em entrar no Programa hoje, e uma dica de como superar essas dificuldades? 

Em média dez pessoas. Não sei hoje como está. Creio que sempre há chances, até pelo nome “Open Program”. O grupo está sempre aberto para novos encontros, novas possibilidades, novos colegas. Mas não que estejam procurando por isso a todo momento. A dificuldade talvez seja de se bancar financeiramente em outro país no primeiro ano (já que você não pode ter um outro trabalho enquanto está lá). A língua foi uma barreira pra mim nos primeiros meses, até aprender. A distância de casa. O envolvimento total com o trabalho. Você precisa ir entendendo que seu desejo de estar ali é maior que estas dificuldades, e então no trabalho diário você se sente alimentado e consciente de porque fez esta escolha. 

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Por Rita Procópio  –  ritafprocopio@hotmail.com

1 Comentário

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  • Tatiana Rocha

    Excelente entrevista com a atriz Suellen Serrat! Uma super contribuição e um grande incentivo aos artistas! Gratidão a Suellen Serrat pela inspiração e parabéns a Rita Procópio por abordar essa entrevista! Axé!