
(Foto: Reprodução/Página do MST)
Dom Waldyr Calheiros merece todas as homenagens prestadas
porque ele soube, como ninguém, praticar o amor ao próximo
Sérgio Boechat
O mundo fica muito menor quando morrem pessoas da estirpe de Dom Waldyr Calheiros, bispo emérito da Diocese de Barra do Piraí/Volta Redonda, porque pessoas com o caráter dele estão em fase de extinção. Um homem de coragem, não apenas para enfrentar os anos de chumbo de uma ditadura que durou 21 anos, como também coragem para se aliar aos fracos ou aos perseguidos pelo poder absoluto, disposto a enfrentar tudo e todos para fazer prevalecer os direitos humanos e defender a vida.
Era um homem polêmico, porque não tinha compromisso com os poderosos, não se submetia aos caprichos das elites e também não queria intimidade com o poder. Um homem deste assustava, porque foge aos parâmetros a que estamos acostumados no nosso dia a dia e o tornava um homem independente, pronto para desafiar a força política de quem quer que fosse e disposto a falar a verdade nos seus confrontos com os agentes da violência e os donos circunstanciais do poder.
Sensibilidade social à flor da pele
Dom Waldyr tinha uma sensibilidade social à flor da pele e conseguia uma empatia fantástica com os excluídos sociais, com a população mais carente e com as vítimas do autoritarismo e da violência, viesse ela de onde viesse! Não conhecia a palavra medo, porque Deus lhe poupou desse sentimento e nunca vacilou quando ameaçado, mesmo na sua integridade física, por aqueles que se sentiam no direito de impor a vontade de um governo absolutamente ilegítimo.
Era conhecido no Brasil todo pela sua capacidade de resistência e pelas suas decisões, sempre a favor dos mais fracos, dos mais vulneráveis e dos mais desprotegidos pelos diversos níveis de governo. Mesmo os que não gostavam dele, eram obrigados a respeitá-lo pela sua postura, pela sua altivez e pela sua paixão pelas causas sociais, sempre desafiando os que podiam mais, os que tinham mais e os que pensavam que mandavam mais, não deixando espaço para composição, para concessão ou para qualquer tipo de atitude que significasse a desistência da luta por uma melhor qualidade de vida para os sem terra e para os sem teto.
Era muito fácil criticar o Bispo,
o difícil era fazer o que ele fez
Dom Waldyr Calheiros deu abrigo e facilitou a fuga, para outros países, de diversos perseguidos políticos. Essa prática, aliada à sua proximidade com movimentos sociais, especialmente sindicais, lhe valeu a alcunha de "responsável por toda a subversão no Vale do Paraíba", mas ele acreditava que "nas costas de um bispo, há uma espécie de proteção natural" e a isso ele creditava o fato de ter continuado vivo, durante todo o período da ditadura e de nunca ter sido preso. Era muito fácil criticar o Bispo, o difícil era fazer o que ele fez, se expondo a todo tipo de risco para defender o que ele acreditava ser a verdade e quem estava sendo perseguido pelos governos militares.
O bispo Dom Waldyr Calheiros merece todas as homenagens prestadas porque ele soube, como ninguém, praticar o amor ao próximo, abrindo mão de seu próprio conforto e de uma acomodação que tomou conta de muita gente, inclusive religiosos de várias denominações, que apoiaram a ditadura, como ele mesmo disse em entrevista ao site "Quem Tem Medo da Democracia", preferindo ele mesmo assumir a defesa de quem não tinha ninguém que os defendesse; a proteção de cidadãos que eram ameaçados pelo Estado ditatorial e se tornou um ícone da liberdade e da democracia! Dom Waldyr vai fazer muita falta, porque líderes com o seu perfil estão cada vez mais raros no mundo! A ele as minhas homenagens e o meu respeito!
