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Da obra de Arte à Decadência

A trajetória de Hitchcock

Filmografia do cineasta distribui-se em três distintas fases, caracterizadas por nítidas e diversificadas orientações e tendências

Crítica  –  21/06/2017 10:39

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(Foto: Divulgação)

“Correspondente estrangeiro” envolve

muito mais ação de espionagem do que

propriamente atividade jornalística


          Publicada: 15/06/2017 (10:36:40)
          Atualizada: 21/06/2017 (10:39:46)

Guido Bilharinho 

Hitchcock iniciou sua carreira cinematográfica ainda na Grã-Bretanha no início da década de 1920 com o inacabado “Number thirteen” (1922), seguido de “Always tell your wife” (1923), segundo informa Rubens Evaldo Filho no “Dicionário de cineastas”.

No tempo do mudo fez ainda diversos outros filmes em seu país, período finalizado com “O ilhéu” ou “O homem da ilha” (The Manxman, 1929), mas onde realizou ainda vários filmes falados até “A estalagem maldita” (Jamaica Inn, 1939, com Charles Laughton e Maureen O´Hara).

Nos Estados Unidos a partir de 1940, ano em que dirigiu nada menos de dois filmes, “Rebeca, a mulher inesquecível” (Rebeca, 1940, com Laurence Olivier e Joan Fontaine) e “Correspondente estrangeiro” (Foreign Correspondent, 1940, com Joel McCrea e Laraine Day), a filmografia de Hitchcock distribui-se em três distintas fases, caracterizadas por nítidas e diversificadas orientações e tendências.

Na década de 1940, ainda premido pelas imposições mercadológicas dos estúdios, marca passo com filmes naturalistas e convencionais, de linguagem travada e ambiência pesada e em alguns casos até um tanto opressiva, a exemplo de “Suspeita” (Suspicion, 1941), “Agonia de amor” (The Paradine Case, 1947, estrelado por Alida Valli e Gregory Peck), com subordinação total à história como produto a ser repassado ao público.

Todavia, com o decorrer do tempo e dos filmes adquire paulatinamente independência, experiência e maturidade, que lhe permitem lançar-se, vez ou outra pelo menos, às aventuras da inteligência e da autoria, iniciada com “Festim diabólico” (Rope, 1948, com James Stewart e Farley Granger) até alcançar a máxima potencialidade nas obras-primas “Janela indiscreta” (Rear Window, 1954, com James Stewart e Grace Kelly), “O terceiro tiro” (The Trouble With Harry, 1956, com Shirley MacLaine e John Forsythe), “Um corpo que cai” (Vertigo, 1958, com Kim Novak e James Stewart) e “Os pássaros” (The Birds, 1963, com Rod Taylor e Tippi Hedren).

A partir daí entra em evidente decadência com a reincidência em filmes convencionais e anódinos, tendo por finalidade somente narrar as respectivas histórias, destituídas de quaisquer laivos de criatividade e da proverbial sutileza formulatória, apanágio de suas melhores obras, excetuada, nessa fase, até certo ponto, “Frenesi” (Frenzy, 1972, com Jon Finch e Alec McCowen), ambientado em sua Londres, magnificamente captada e exposta no mercado de frutas e adjacências. 

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Em “Correspondente estrangeiro”, segundo filme nos Estados Unidos, conquanto convencional e objetivando apenas narrar peripécias de espionagem, consegue mostrar suas virtualidades diretivas e perspicácia, tanto no dinamismo desenfreado da narrativa quanto nas inúmeras ambientações e no tratamento habilidoso e cuidadoso dado aos detalhamentos ambiental e interpretativo dos atores, incluídos postura, posicionamento e movimentação.

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Pela temática, “Correspondente estrangeiro”, que envolve muito mais ação de espionagem do que propriamente atividade jornalística, no caso apenas pretextual, compõe a série de obras do cineasta dedicada ao assunto, em voga desde às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Desse conjunto fazem parte também, entre outros, os filmes britânicos “Os 39 degraus” (The 39 Steps, 1935), “Agente secreto” (The Secret Agent, 1936, com Peter Lorre e Madeleine Caroll) e “A dama oculta” (The Lady Vanishes, 1938, com Margaret Lockwood e Paul Lukas).

Neles, o cineasta assume aberta posição contra as ações belicosas germânicas, chegando a ponto de finalizar “Correspondente estrangeiro” com exortação, viabilizada por meio do protagonista, à defesa e à participação ianque na Guerra, essa, àquela altura, de desenlace incerto.

Ainda na década de 1940, nos Estados Unidos, amainada a febre da espionagem, Hitchcock realiza, entre filmes de temática variada, duas películas enfocando aspectos e atos derivados da conflagração inicialmente europeia e depois estendida a vários continentes e a todos os mares: “Sabotador” (Saboteur, 1942) e “Um barco e nove destinos” (Lifeboat, 1943). Já “Interlúdio” (Notorius, 1946, com Ingrid Bergman e Cary Grant), com ação desenvolvida no Rio de Janeiro, trata de ato de rapinagem alemã no Brasil. (do livro “O cinema de Hitchcock e Woody Allen”, no prelo)

> Guido Bilharinho é advogado atuante em Uberaba, editor da revista internacional de poesia “Dimensão” de 1980 a 2000 e autor de livros de literatura (poesia, ficção e crítica literária), cinema (história e crítica), história (do Brasil e regional)

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