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Filmes de Hitchcock dos Anos 30

A caracterização tipológica

Os filmes - Os 39 degraus - e - A dama oculta - perdem-se em meio às peripécias, correrias e simulações de espionagem internacional, uma das fortes características da época, vésperas da eclosão da Segunda Guerra Mundial

Crítica  –  15/07/2017 20:21

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(Foto: Divulgação)

É nítida a maior desenvoltura do cineasta em

“A dama oculta” do que em “Os 39 degraus”,

feito três anos antes

 

Guido Bilharinho 

O conhecimento dos filmes “Os 39 degraus” (The 39 Steps, Grã-Bretanha, 1935) e “A dama oculta” (The Lady Vanishes, Grã-Bretanha, 1938), de Alfred Hitchcock (1899-1980), realizados anteriormente à sua transferência para os Estados Unidos, demonstram que o cineasta britânico nessa fase (segunda metade da década de 1930), ou, pelo menos, nesses dois filmes, está mais ou tão só para Agatha Christie do que para cinematografia consistente e autoral.

Ambos os filmes perdem-se em meio às peripécias, correrias e simulações de espionagem internacional, uma das fortes características da época, vésperas da eclosão da Segunda Guerra Mundial. Nesse mundo absurdo, mas, plenamente explicável e explicado, no qual países lançam-se em fúria mortal contra seus vizinhos, a espionagem é de suas facetas menos cruéis e perversas, conquanto também frequentemente letal, embora restrita à esfera individual.

A estrutura fílmica e a linguagem cinematográfica de Hitchcock nessas obras pautam-se pelo ritmo e conformação dos incidentes e vicissitudes da espionagem. Seu clima, conteúdo e orientação são os mesmos de alguns dos livros da citada escritora britânica nos quais aborda o tema. São mesmas a leveza, a linearidade e a superficialidade narrativas. Iguais os métodos e a atuação dos protagonistas. Semelhantes algumas situações, em que pessoas estranhas às escaramuças da espionagem e contra-espionagem internacional nelas envolvem-se por força das circunstâncias e acabam por ter atuação capital no desenvolvimento dos fatos e solução dos impasses. Análogas, também, as próprias resoluções dos affairres ficcionalmente montados.

Cumpre, no caso, apenas verificar se essas obras de Agatha Christie são anteriores, concomitantes ou posteriores a tais filmes. Na última hipótese ela seria a influenciável. Contudo, pelo menos dois de seus livros transcorridos em trens - como no caso de “A dama oculta” - são bem anteriores ao filme, a exemplo de “O mistério do trem azul” (1928) e “Assassinato no Expresso Oriente” (1933), simples, e, às vezes, agradáveis leituras digestivas e recreativas, próprias apenas para passatempo de férias. De qualquer modo, são essas a ambiência e a prática da época, das quais qualquer escritor tinha conhecimento e acesso na Grã-Bretanha, então ainda um dos centros decisórios do planeta.

Todavia, o aspecto que menos interessa sob o ponto de vista fílmico, aliás, não interessa nada, é esse da influência e da interinfluência, assunto à parte.

O que importa no caso - e, por isso, a questão vem a pelo - é a circunstância da ocorrência da analogia apontada e o que isso representa.

Ora, ao trazer a obra de Agatha Christie à colação está-se querendo dizer simplesmente que esses filmes de Hitchcock, sob o prisma artístico, não existem, do mesmo modo que a bibliografia de Christie está fora da literatura. Esse, pois, o significado da comparação, visivelmente desvantajosa para o cineasta que Hitchcock tornou-se depois.

Contudo, por que, mesmo assim, é convidado a dirigir filmes nos Estados Unidos? Não só pela finalidade comercial do convite, mas, também, pelas qualidades demonstradas nesses e em outros filmes da época. Que vão desde inteligência sagaz e brilhante à segurança e flexibilidade direcionais, além de paulatino e crescente domínio da estruturação fílmica e dos elementos da linguagem cinematográfica. E tanto é claro esse work in progress, que é nítida sua maior desenvoltura em “A dama oculta” do que em “Os 39 degraus”, feito três anos antes.

Ambos são filmes de ritmo célere e ação contínua, principalmente “A dama oculta”. Conquanto comerciais e destituídos em geral de virtualidade artística, apresentam - sempre o último em grau mais elevado - exemplos dos atributos apontados.

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Em “A dama oculta”, as figuras ridículas dos dois cidadãos britânicos - que se comprazem em considerar-se súditos - com toda sua gestuação, postura e atitudes, constituem crítica mordaz e ferina de aspectos da índole dos habitantes do reino, notadamente de sua extremada formalidade, aparente seriedade e importância quase transcendental que dão a seus arraigados e tradicionais costumes, concentrando, no caso, em simples jogo de críquete sua máxima preocupação e atenção no momento.

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Além da perspicácia e pertinência da crítica, o modo de materializar e conduzir essa manifestação de uma das infindáveis anomalias humanas revela a grande capacidade de Hitchcock, que não poderia passar despercebida, como, aliás, não passou.

Mas, não só. O indivíduo que viaja incógnito com a amante denota comportamento coerente com seu caráter oportunista. É outra personagem também brilhantemente delineada e conduzida, sob forte inspiração dos estudos da psicologia humana que, a partir da Viena de Freud, já se iam disseminando pelo mundo até atingir e ter grande voga nos Estados Unidos na década de 1940, onde lá estava o mesmo Hitchcock para lhe dar respaldo e ainda maior divulgação no filme “Quando fala o coração” (Spellbound, 1945). Além desses, há ainda, o passageiro italiano como outro adequado exemplo biotipológico.

Já os demais figurantes, em que se incluem os próprios protagonistas, não apresentam tão aguda personalização da observação caracterológica e psicológica como os anteriormente apontados, simplesmente antológicos.

Algo inexistente, pelo menos em seus melhores filmes estadunidenses, exceto, evidentemente, na comédia macabra “O terceiro tiro” (The Trouble With Harry, 1956), é o traço humorístico ocorrente em “A dama oculta”, responsável não só pela exploração e exibição de particularidades insólitas ou jocosas de algumas personagens, como pela articulação mesma de situações cômicas, como a luta do protagonista com o mágico italiano no vagão de cargas do trem.

Nesse filme e no comboio que rápido o percorre tem-se, talvez pela primeira vez na obra do cineasta, a focalização da paisagem através da ampla e envidraçada janela de um trem, numa captação derivada de imposição da trama e ainda não poetizada no alto nível estético ocorrente nos filmes estadunidenses posteriores, “Pacto sinistro” e “Intriga internacional”.

Se o progresso de Hitchcock entre “Os 39 degraus” e “A dama oculta” (ou desaparecida, como se a denomina originalmente), é nítido e crescente, seus futuros passos cinematográficos nos Estados Unidos, para onde se dirige em 1940, o conduzem, após período transicional de submissão a seu primeiro contrato de produção no país, à elaboração de umas das filmografias mais brilhantes e instigantes do cinema, conquanto destituída de inovações formais. (do livro “O cinema de Hitchcock e Woody Allen”. Uberaba, Revista Dimensão Edições, 2017)

> Guido Bilharinho é advogado atuante em Uberaba, editor da revista internacional de poesia “Dimensão” de 1980 a 2000 e autor de livros de literatura (poesia, ficção e crítica literária), cinema (história e crítica), história (do Brasil e regional)

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Por Assessoria de Comunicação  –  contato@olhovivoca.com.br

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