Publicidade

Apoieo Jornalismo independente

Conflitos Sociais

Dhiogo José Caetano

dhiogocaetano@hotmail.com

Série Opinando e Transformando - Episódio 144

Zenaide dos Santos S. Aguilar - Palavras, sementes de transformação

Jornalista, escritora, ativista humanitária e ambientalista fala sobre cultura de paz, educação e espaço digital

Entrevistas  –  27/02/2026 12:10

 

43615355-7158-47c5-b001-46672d3ac957 (1)

(Foto: Divulgação)

“Paz verdadeira só existe onde há equidade, respeito à terra e valorização da vida em todas as suas formas”

Zenaide dos Santos S. Aguiar é a 144ª convidada na série de entrevistas “Opinando e Transformando”. Objetivo é formar um mosaico com o que cada um pensa desse universo multifacetado. Uma oportunidade para os internautas conhecerem um pouco mais sobre os profissionais que, de alguma forma, vivem para a arte/cultura.

. Nome: Zenaide dos Santos S. Aguiar  
. Breve biografia:
Mulher afro originária, casada, mãe atípica, mãe bichológica, matriarca de uma grande família, natural da cidade de Araguari, Minas Gerais, e residente em Guarulhos desde 1988. Ativista humanitária, ambientalista, pedagoga, pós-graduanda em Neuropsicopedagogia em fases finais, jornalista colunista e artesã de ecojoias (biojoias), Zenaide começou a escrever na infância, utilizando folhas de papel de pão para expressar seus sentimentos em poesias reflexivas. Sua carreira como jornalista e escritora profissional iniciou em 2006 no jornal “CNN Notícias” Goiás. Um marco importante foi a criação de um projeto para revitalizar e restaurar uma praça em Guarulhos no ano de 2022, evidenciando o impacto positivo da escrita no formato de projeto de educação e preservação ambiental. Nos intervalos destes trabalhos, foi convidada para escrever numa coletânea com escritores nacionais e internacionais. Desde então, não parou mais de escrever e atualmente já é coautora em mais de 20 livros. Zenaide é integrante e Conselheira na Academia de Letras de Itaquaquecetuba (ALI), ocupando a Cadeira n° 30, Patronesse Hilda Hilst. Está como Embaixadora de Relações Internacionais Culturais da Plataforma Empoderadas Diversas em Miami, Embaixador Diretora Institucional da Editorial Punto Y Coma na Colômbia. Conselheira da Academy Farsala na Grécia. Colunista, idealizadora da coluna “Blog Sapo” em Portugal, no Site Medium em San Francisco e com a plataforma Substack na Califórnia, dentre outros. Além disso, escreve sugestões de pautas para mais de 30 veículos de comunicação, entre jornais, sites e revistas. Detentora de Menções Honrosas, Certificações e Prêmios Nacionais e Internacionais, Zenaide foi uma das autoras homenageadas na Feira do Livro de Sertãozinho 2025, também teve uma placa com sua biografia exposta no Museu da Romênia neste mesmo ano também o Lançamento da “Coletânea Brasil” em todos os cantos, conhecida nacional e internacionalmente por sua paixão pela escrita, pela cultura em geral e por seu desejo de ensinar, inspirar, aprender e empoderar outras pessoas.

Confira a entrevista com Zenaide dos Santos S. Aguiar   

. Em sua opinião, o que é cultura de paz?

Dhiogo, paz e luz! Agradeço imensamente pelo convite e pela oportunidade de dialogar sobre temas tão urgentes e transformadores. Suas perguntas não são singelas, são profundas, necessárias e tocam o coração de quem acredita que a palavra pode ser ponte, cura e revolução. Vamos juntos nessa reflexão. Afagos na alma recebidos e retribuídos com gratidão.
Cultura de paz, na minha singela opinião, é a prática diária e coletiva de reconhecer a humanidade no outro, mesmo quando ele pensa, age ou vive de forma diferente da nossa. É a disposição de resolver conflitos pelo diálogo, não pela violência. É a capacidade de respeitar diversidades étnicas, religiosas, de gênero, de classe sem hierarquizá-las.
Mas cultura de paz não é passividade. Não é aceitar injustiças caladas. É resistência amorosa, é luta ativa por justiça social, é denúncia do que nos desumaniza e construção do que nos dignifica. Como mulher afro-indígena, aprendi com meus ancestrais que paz verdadeira só existe onde há equidade, respeito à terra e valorização da vida em todas as suas formas.
Cultura de paz é plantar árvores para que outros tenham sombra. É escrever para que outros encontrem voz. É cuidar da terra como quem cuida de um filho. É entender que minha liberdade está intrinsecamente ligada à liberdade do outro.

. Como podemos difundir de forma coerente a paz neste vasto campo de transformação mental, intelectual e filosófica?

A difusão coerente da paz exige exemplos vivos, não apenas discursos bonitos. Não adianta falar de paz se perpetuamos violências sutis no preconceito velado, na exclusão social, na exploração ambiental, na invisibilidade de grupos marginalizados.
Aprendi algumas formas concretas de difundir a paz:

- Pela educação antirracista e decolonial, que ensine nossas crianças a valorizar todas as culturas, não apenas a europeia; que mostre a história completa, não há versão editada pelos vencedores.
- Pela arte e pela literatura, que sensibilizam, que fazem o outro se enxergar no espelho da palavra, que humanizam o que foi desumanizado.
- Pela escuta ativa e pelo diálogo respeitoso, mesmo (e principalmente) com quem discordamos. Paz não é concordância; é respeito à divergência.
- Pelo cuidado com a natureza, porque não há paz quando destruímos a casa que nos abriga. Ativismo ambiental é ativismo pela paz.
- Pela valorização das práticas ancestrais, indígenas, africanas, quilombolas que sempre souberam viver em harmonia com a terra e com o coletivo.

A transformação começa em cada um de nós. Quando escolho palavras que constroem ao invés de destruir, quando respeito o tempo da natureza, quando valorizo a diversidade ao meu redor, estou difundindo paz de forma coerente, em palavras e ações.

. Como você descreve a cultura de paz e sua influência ao longo da formação da sociedade brasileira/humanidade?

A cultura de paz sempre existiu principalmente nos povos originários e nas comunidades tradicionais. Mas foi sistematicamente silenciada pela colonização, pela escravidão, pelo capitalismo predatório.
No Brasil, nossa sociedade foi fundada, e ainda existe a prática sobre três pilares violentos: genocídio indígena, escravização africana e exploração ambiental. Como construir paz sobre estes alicerces? A resposta é: não construímos ainda. Vivemos em uma sociedade que reproduz violências estruturais, racismo, machismo, feminicídio, classismo, LGBTfobia, intolerância religiosa, destruição ambiental, bullying, dentre outros.
Mas há resistência. Há quilombos contemporâneos, aldeias que preservam suas tradições, movimentos sociais que lutam por justiça, artistas e escritores que resgatam narrativas apagadas. Há mulheres como eu, que usam a palavra e ações como ferramenta de transformação.
A cultura de paz, ao longo da história da humanidade, sempre foi construída por aqueles que ousaram sonhar com um mundo diferente, Gandhi, Martin Luther King, Nelson Mandela, Chico Mendes, Lélia Gonzales, Davi Kopenawa, Paulo Freire, Madre Tereza de Calcutá, Marielle Franco, Ailton Krenak, Angela Davis, Daniel Munduruku, Ariano Suassuna, e tantos outros que não entraram nos livros de história, mas estão nas memórias de seus povos.

“A paz se constrói na resistência cotidiana de quem não se cala diante da injustiça, que luta sem violência, exige Direitos, derrama suor e lágrimas, perde entes queridos, outros até sua própria Vida.”

. A cultura e a educação libertam ou aprisionam os indivíduos?

Depende de quem detém o poder sobre elas.
Uma educação bancária, como dizia Paulo Freire, aquela que apenas deposita informações na cabeça do aluno, que não o ensina a pensar criticamente, que reproduz preconceitos e apaga histórias, essa educação aprisiona, é fato comprovado.
Uma cultura colonizada, que nos ensina a valorizar apenas o que vem de fora, que folcloriza nossas raízes, que nos faz ter vergonha de nossas origens, essa cultura, oprime, aprisiona, apaga.
Uma educação libertadora, que ensina a questionar, pesquisar a refletir, a se reconhecer como sujeito histórico, essa liberta.
Uma cultura que celebra diversidades, que resgata memórias apagadas, que valoriza saberes ancestrais, essa liberta.
Eu sou prova viva disso. A educação me libertou da invisibilidade. A escrita me libertou do silêncio. A arte me libertou da dor que não sabia nomear. E hoje, uso essas ferramentas para libertar outras pessoas, sem distinção, sem exceção.
Cultura e educação são armas. Cabe a nós decidir se vamos usá-las para oprimir ou para libertar.

. Comente sobre o espaço digital, destacando sua importância na difusão do despertar da humanidade.

O espaço digital é, ao mesmo tempo, campo de batalha e território de liberdade.
Por um lado, vemos fake news, discursos de ódio, algoritmos que polarizam, bolhas que nos aprisionam em nossas próprias certezas. Por outro, vemos democratização da voz, pessoas que antes não tinham acesso aos meios de comunicação tradicionais agora podem falar, escrever, denunciar, criar.
Eu, que comecei escrevendo em folhas de papel de pão, hoje sou colunista em plataformas internacionais, tenho voz em mais de 30 veículos de comunicação, alcance leitores no Brasil, numa grande proporção do Mundo. Isso não seria possível sem o digital.
O espaço digital amplifica vozes que a sociedade predadora as enxerga marginalizadas, conecta lutas globais, dissemina conhecimento, constrói redes de apoio e resistência. Ele permite que uma mulher afro originária brasileira dialogue com escritores da Grécia, da Colômbia, de Miami, Itália, França, Oriente Médio, China, Japão, Índia, Coreia, Dinamarca, África… Ele permite que projetos de educação ambiental ganhem visibilidade. Ele permite que a literatura chegue onde antes não chegava.
Mas é preciso usar o digital com responsabilidade. Não basta ter voz, é preciso ter consciência do que se fala. Não basta ter alcance, é preciso ter compromisso com a verdade. Não basta ter seguidores, é preciso ter Humanidade e coerência, que não sejamos juízes sem toga, para condenar o erro alheio.
O digital pode ser ferramenta de despertar da humanidade se for usado para informar, para conectar, para transformar. Mas pode ser arma de manipulação, pólvora para um lixamento se for usado para desinformar, dividir e oprimir.
Cabe a nós escolher que tipo de presença queremos ter nesses espaços.

. Qual mensagem você deixa para a humanidade?

Minha mensagem é simples, para ontem, hoje e amanhã.
Acorde. Olhe ao seu redor. Reconheça sua humanidade e a humanidade do outro.
Não há tempo para indiferença. Não há espaço para ódio. Não há futuro sem amor, sem justiça, sem respeito à terra, ao próximo.
Cuide da natureza como quem cuida da própria vida, porque ela é.
Valorize suas raízes, suas ancestralidades, suas histórias, porque são elas que te sustentam, elas são sua bússola.
Use sua voz, sua arte, sua escrita, seu trabalho para transformar, porque o mundo precisa de você.
E lembre-se: Ninguém se salvará sozinho, quando faltar a água, faltar o ar. Ou nos salvamos juntos, ou perecemos juntos.
Que possamos ser a geração que escolheu a paz. Que escolheu a justiça. Que escolheu a vida.
Gratidão, Dhiogo, por esse espaço de reflexão. Que nossas palavras sejam sementes de transformação.
Axé. Paz e luz. 

Clique e confira todas as entrevistas da série sobre Cultura "Opinando e Transformando"  

.....................................................................................    

Apoie o jornalismo cultural independente 

Como apoiar

Para contribuir: Chave Pix 88836843700
O processo é simples e seguro.   

A cultura agradece. O jornalismo independente também.  

Há cerca de 15 anos, este portal acompanha, registra e divulga a cena de arte, lazer e cultura da região. Shows, espetáculos, exposições, eventos, artistas e movimentos culturais fazem parte de uma cobertura construída com regularidade, critério jornalístico e compromisso com o público.
Desde a criação, o projeto não conta com patrocínio fixo nem financiamento institucional. A manutenção do portal envolve custos permanentes de produção de conteúdo, fotografia, vídeo, hospedagem, domínio, equipamentos, deslocamentos e atualização técnica. Todo esse trabalho é realizado com recursos próprios, o que torna a continuidade cada vez mais desafiadora. 

Apoiar este portal é uma forma direta de fortalecer o jornalismo cultural independente e garantir que a cobertura continue sendo feita com liberdade editorial, acesso gratuito e foco na cultura local.

A contribuição é voluntária e pode ser feita de acordo com a possibilidade de cada leitor. Todo apoio é destinado exclusivamente à manutenção do portal e à produção de conteúdo jornalístico.  

Se você acompanha, confia e considera importante a existência de um espaço dedicado à cultura, sua contribuição ajuda a manter esse trabalho ativo. 

 

Por Dhiogo José Caetano  –  dhiogocaetano@hotmail.com

Seja o primeiro a comentar

×

×

×