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Viver Bem

Os benefícios do tênis para sua saúde física e mental

Um exercício tão ou mais eficaz como andar de bicicleta, nadar ou correr

Esportes  –  08/03/2020 21:33

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(Foto Ilustrativa)

“O brincar é necessário para a vida humana”

(Tomás de Aquino)

 

Rafael Clemente e Luciano Moura 

Em seu pensamento filosófico, Aristóteles diferenciou os homens em civilização dos animais em convivência a partir da capacidade do riso. O ato de brincar é comum às espécies animais. Porém, o animal ridens é o próprio homem. Diferenciado em seus arranjos sociais, para o grego, a partir do ato de se expressar e se emocionar, através do riso, na diversão. 

Desde as civilizações antes da escrita até as sociedades contemporâneas - pós-escrita, onde reina a digitação - os relatos de competição social são aparentes nos rastros deixados pelos viventes de uma determinada época. As civilizações transformaram a luta pela sobrevivência em formas violentas e pacíficas de disputa, criando assim um “princípio lúdico”, catalisador daquilo que concebemos como humanidade. Dos enfrentamentos de guerra ao futebol de domingo, o jogo está presente, mas ele nem sempre é sinal de diversão. Para a organização pacífica - mas não passiva - do jogo, as sociedades criaram os esportes e na atualidade os esportes foram redimensionados à categoria de bem-estar físico e mental. Não há novidade nesse modus operandi. Os gregos já haviam dado uma boa dimensão da importância de um corpo saudável alinhado à sanidade mental. Mas talvez, pelo modus vivendi das sociedades tecnológicas contemporâneas tivemos a necessidade de revisitar o legado helenístico.

Na modernidade, o tênis tornou-se um dos mais importantes fenômenos esportivos e atualmente vem sofrendo uma positiva prática de popularização nas mais diversas classes. Seja por academias e campeonatos em clubes, seja por projetos sociais que atendem tamanhas demandas de localidades com baixa renda e pouco acesso a bens culturais. Marco dessa ascensão tenística na história nacional recente é Gustavo Kuerten, o Guga. De Florianópolis para conquistar Paris (Roland Garros) arrastou a médio e longo prazo uma considerável remessa de apreciadores do esporte. Ainda hoje é nome corrente de homens e mulheres, adultos e crianças que iniciam recreativamente ou com intensões profissionais a prática do esporte.

Geralmente não comparamos as benesses para a saúde ao se jogar tênis em relação a outros esportes como a natação, ciclismo e a corrida. Tão pouco mensuramos que a perda aproximada em uma hora de prática desta modalidade esportiva é da ordem de seiscentas calorias. Portanto, o tênis é um exercício tão ou mais eficaz como andar de bicicleta, nadar ou correr. Neste artigo mostraremos, resumidamente, os diversos benefícios do tênis para aqueles e aquelas que já praticam esse esporte ou por ele se interessam e desejam iniciar seus treinos.

Os estudos de gastos calóricos feitos pelo Dr. Joan Finn, ex-professor titular de Ciências do Exercício, no Laboratório de Performance Humana da Southern Connecticut State University, juntamente a seus pares, concluiu que o Tênis em nível de competição queima mais calorias que patinação, ciclismo ou fazer outros exercícios aeróbicos. Jogar tênis equivale a prática de inúmeras pequenas corridas e envolve também movimentos anaeróbicos que podem ajudar na queima de gordura, caso esse seja um dos seus objetivos. Também proporciona um aumento da frequência cardíaca e dos níveis de energia corpórea. Sem falar na cadência vital de uma boa respiração a fim de que a cada ponto a fadiga, o estresse físico e a recuperação mental sejam controladas. O oxigênio, bombeado por todo corpo a cada pausa, também é parte do jogo e da prática de um bom tênis. O médico estadunidense Ralf Paffenbarger, ao estudar cerca de dez mil pessoas ao longo de 20 anos de pesquisa, concluiu que a prática do tênis por três horas semanais reduz o risco de mal súbito à metade. Mas além de ser uma atividade muito desafiadora para o seu corpo ela também o é para sua cabeça.

O aspecto tático do jogo deixa sua mente e pensamento ocupados por um grande período enquanto seu físico também está trabalhando a todo vapor. O objetivo primeiro, bater na bolinha amarela com sua raquete, vem acompanhado de uma série de recompensas imediatas: quando se ganha um ponto ou se realiza uma jogada de grau elevado de dificuldade. Desafios ilimitados durante a partida-treino: superar-se e vencer são verbos imperativos no jogo. E muitas satisfações ao final dela: mesmo na derrota é possível sair contente com seu grau de comprometimento consigo e com o seu jogo.

O tênis é um esporte baseado na Física e na Geometria e pode ajudar um jogador a aumentar seu pensamento tático e seu raciocínio lógico tanto quanto uma partida de xadrez. Deslocar uma bola por um espaço aumentando e diminuindo o tempo percorrido - ou vice-versa -, no qual ela se move no ar e bate no chão não é meramente uma atitude emocional; embora ao leigo possa assim parecer, dependendo da técnica apurada que um tenista é capaz de demonstrar em quadra. Aquilo que parece instinto, é “tão simplesmente” (sic) resultado de treino, onde a apuração da técnica corporal e o pensamento estratégico se uniram em prol de um objetivo: fazer um ponto no jogo!  O imperativo físico-matemático e sua relação com o tempo-espaço influencia o poder de reação do seu oponente. Por sinal, ele também busca o mesmo objetivo que você e pode neste exato momento estar com os olhos grudados nessas linhas.

Embora haja um padrão técnico para cada golpe no tênis (como devolver um saque recebido na esquerda, cruzar uma bola que vem na sua paralela, fazer um saque “no corpo” do adversário e etc.), as situações que você vivencia em quadra são novas a cada instante e as jogadas padrões devem ser ajustadas a cada movimento num milésimo de segundo. Uma verdadeira “musculação cerebral”. Assim, esse esporte o ajudará a intensificar as conexões neurais, já que as situações são modificadas a cada instante e embora uma jogada seja parecida com outra, ela de forma alguma será a mesma da passada ou da seguinte. Cada uma delas, feita por você ou seu oponente, é única e seu corpo sente isso ao estar em quadra. Seu cérebro estará em constante movimento e adaptação. A estrutura conjuntural alterada, também altera a forma com que suas conexões neurológicas respondem a cada estímulo, seja ele bom ou ruim. E esse antagonismo é mais do que vivido em um jogo de tênis. Você sentirá isso pelo corpo – um arrepio, o “frio na barriga”, as sensações de ansiedade. Sua atividade cerebral será intensa pelo período em que estiver com sua atenção voltada aos objetos da quadra. Ou seja, concentração é primordial! Caso você já pratique tênis por alguns anos, com certeza nota que o seu desenvolvimento cerebral melhorou. Tendo começado agora, em pouco tempo sentirá a diferença. Continuando, terá os benefícios até a “melhor idade”.

Quanto mais você joga tênis maior a chance de desenvolver habilidades motoras finas, necessárias para medir distância de objetos e a coordenação pessoal. Os golpes passam a ser mais apurados com o tempo e a sintonia entre o que o seu cérebro comanda e o que seu corpo faz se reflete em jogadas exitosas. Na verdade, jogar Tênis testará sua velocidade, equilíbrio, mobilidade de pernas e pés e ajustes do seu campo de visão - a noção de profundidade, por exemplo, é essencial. Isso ocorre porque é um esporte dos mais completos, que requer uma apurada confluência entre os vários movimentos e técnicas de todo o corpo, além da mente. Ao melhorar o seu desempenho dentro da quadra você provavelmente melhorará o desempenho em vários aspectos da sua vida. E por sinal, vale o vice-versa!

Além dos benefícios cardiovasculares do tênis, ele combina um rigoroso treinamento de força tanto nos membros inferiores quanto nos superiores. Pernas e braços ágeis solicitam panturrilhas, antebraços, bíceps e tríceps - além de uma imensa gama de grupos musculares indiretos -, fortes e preparados para a intensidade do esporte. Já que em uma partida a movimentação do jogador é constante, em diferentes direções e múltiplas intensidades. Ora rápido, ora mais lento. Ora cadenciado, ora explosivo; o que configura um teste exponencial para os diferentes músculos e fibras das pernas, das costas, dos braços e etc. O núcleo corpóreo é esculpido com poder e força.

Em testes específicos do estudo da Universidade de Connecticut, citado acima, praticantes de Tênis comparados a atletas de outras modalidades e também a não atletas, tiveram alta pontuação em otimismo, autoestima, vigor físico e psicológico e baixas taxas incidentes quando os testes os confrontavam com situações de ansiedade, tensão, raiva difusa, confusão mental e depressão. De fato, se você joga tênis constantemente ele pode ser um fator de motivação diária, concentração e foco nos seus objetivos além das quadras. Um importante componente na superação de desafios os quais nos deparamos todos os dias.

Contudo, aqui ressaltamos que esse texto visa esportistas amadores, que mesmo em competições de alto nível, não estão relacionados com o circuito profissional do esporte. Os estudos aqui apresentados também dizem respeito a essa parcela de tenistas. O esporte de alto rendimento é antes de tudo um trabalho para o atleta e sua equipe, onde as relações laborais são estabelecidas através de metas e resultados traçados, por vezes não cumpridos, o que gera uma segunda interpretação do impacto que o esporte tem sobre a vida daquelas e daqueles que se submetem a suas regras rígidas. Entretanto, o atleta profissional não é uma máquina programável. Sente as mesmas angustias, anseios e êxitos de um atleta amador e por isso, respeitadas as devidas proporções de intensidades de treino e investimentos financeiros na carreira, os problemas entre os dois universos são bem próximos. A psicologia esportiva, uma ciência que vem se estabelecendo entre três grandes áreas - neurologia, desporto e o comportamento social -, indica por exemplo, o “auto diálogo” como uma poderosa forma do atleta não sucumbir à ansiedade e ao estresse durante uma partida. Em estudos preliminares recentes (ver Barahona-Fuentes), grupos de alta performance e atletas amadores foram submetidos a situações similares de alcance de meta. Ambos os grupos se aproximaram no comportamento perante o que deveria ser cumprido e obtiveram resultados semelhantes quando da utilização do auto diálogo. Falar consigo mesmo, tendo frases e pensamentos positivos verdadeiros e também programados a cada situação, faz com que o corpo responda a esses comandos de forma positiva e verdadeira. Quanto menor a ansiedade, maior o rendimento. Seja um atleta ocasional ou um profissional da atividade física.

Todos os esportes oferecem diferentes níveis de benefícios à saúde. Por exemplo, a natação é uma ótima aliada para o desenvolvimento do tronco, ombros e braços além da prevenção e tratamento de doenças respiratórias. Correr aumenta o poder das pernas e também a resistência física, o futebol é um ótimo amálgama de raciocínio tático e pertencimento de grupo. Mas nenhum deles pode oferecer um pacote tão eficiente, completo e eficaz quanto o Tênis. Impossível não se apaixonar e uma vez apaixonado os benefícios ao equilíbrio físico e mental serão constantes e crescentes. Por isso, procure um professor e veja que os escritos acima não são apenas teoria. Play! 

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Este artigo é uma adaptação de Health benefits of tennis. A ele foram acrescidas as experiências dos autores em sua realidade como esportistas amadores, professores e pesquisadores. Também enxertamos referências bibliográficas e citações - ausentes no original.

(Aristóteles apud Huizinga. 2012, p.8)
(2013, p.114)

Embora, nem tudo seja “jogo”, como defende Huizinga, a título de simplificação iremos considerar conforme nossos interesses nesse breve escrito.

(Finn apud Bruce. 2010, p.97)
Idem
Ibdem. 

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Bibliografia 

Aristóteles. Os Pensadores 2v. São Paulo: Abril Cultural, 1979. 

Barahona-Fuentes, Guillermo D. et al. Influencia del autodiálogo sobre los niveles de ansiedad y estrés en jugadores de tenis: una revisión sistemática. RBCE: CBCE, n. 41, p.135-141. 2019. 

Gastaldo, Édison. Homo ludens e o futebol espetáculo. Revista Colombiana de Sociologia: Bogotá, n. 1, v. 36, p. 111-122. 2013. 

Huizinga, Johan. Homo Ludens. São Paulo: Perspectiva, 2012. 

Miller, Bruce. 7 Keys to arrest & prevent life threatening pre-diabetes. Selangor Darul Ehsan: Oak Publications, 2010. 

Tenisnerd. Health benefits of tennis. Malta, 20 fev. 2020.

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> Rafael Clemente é tenista amador, integrante do coletivo “Sou + Tênis” (Volta Redonda), doutorando em Ciências Sociais (UFRRJ), integrante do Observatório Fluminense onde se dedica a pesquisa das Sociologias do Corpo e do Esporte e Sociologia Urbana.

> Luciano Moura é instrutor de tênis, docente da rede pública de ensino (SEEDUC-RJ/SME-VR), preparador físico e especialista em Educação. 

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Por Redação do OLHO VIVO  –  contato@olhovivoca.com.br

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