Publicada: 11/12/2015 (08:56:35) . Atualizada: 03/04/2016 (08:18:13)

(Fotos: Divulgação)
Elenco principal “Portaria 243”: Filme de Loureiros rodado no Polo de Cinema de Barra do Pirai
Desde o momento em que assistiu ao longa "Mente brilhante", o cineasta paraense Pablo Loureiros se identificou tanto com o personagem principal, que passou a pesquisar sobre transtornos mentais, acabando num mergulho profundo sobre assunto. E nesse processo de criação e entrega, Loureiros, que viveu 18 meses nos Estados Unidos, onde estudou artes e chegou a expor num café nova-iorquino, e ainda ganhou prêmios em festivais de cinema, resolveu não só voltar para o Rio, mas também estudar psicologia. Tudo para realizar o sonho de rodar seu primeiro longa: “Portaria 243”.
Determinado, contou com a apoio da sua mulher, que concordou em gastar o dinheiro recebido de uma herança de família, para rodar o filme, ao invés de comprar um imóvel próprio. Além dela, embarcaram no projeto de baixo orçamento o elenco formado pelos atores: Renan Monteiro (teve uma rápida passagem na novela “Regra do jogo”; atuou no premiado “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles; “O maior amor do mundo”, de Cacá Diegues; “Chamada a cobrar”, de Ana Muylaert, entre outros); Júlia Fajardo (ficou conhecida do grande público, na pele de Helena, na novela “Império”, da TV Globo); Gabriel Faria (“Caras e bocas”, “Malhação” e, atualmente, na série “Mister Brau” da TV Globo); Ana Preola ( viveu Jéssica, da série “Surbubia”, da TV Globo); Roberto Rrowntree (“Zorra total”, onde viveu “Jone Brabo”, entre outros, por mais de dez anos, além de participações em “Salve Jorge”, “Pé na cova”); Roberto Monzo (vários curtas-metragens, como “Bodas, eu acredito”, “Lembranças de Verlaine”, além de sucessos no teatro, como “Transparência”, “Interlúdio de amor”, “Resgates e glórias”); Daniel Bauerfeldt (atualmente em “Pé na cova”, da TV Globo); e o produtor de elenco, Edson Branco.
Segundo Loureiros, o filme, que foi rodado em menos de 20 dias, na cidade de Barra do Piraí, contou com o apoio do Polo de Cinema de lá e exigiu muito empenho e amor à arte, tanto dos atores, como da equipe técnica.
- Chegamos a trabalhar 18 horas por dia - relembra o cineasta, que também explica que pelo cronograma, a finalização está prevista para meados de 2016.
Após essa fase, o filme será inscrito em festivais, para só depois chegar ao grande público. Ou seja: a estreia deve acontecer no próximo verão. Vale aguardar.
Confira a entrevista com o cineasta Pablo Loureiros

Ação: O cineasta Pablo Loureiros orientando a atriz Ana Preola antes de entrar em cena
Como foi o processo de criação? Quando começou a fazer as primeiras anotações? É muito comum o cineasta pegar um caderninho, conversar com amigos e pessoas...
Eu escrevo desde os 14 anos. Tive diversas modificações ao longo desses anos, mas sempre mantive a mesma intensidade, que é a busca da verdade nos personagens que crio. Eu busco “viajar” na história ao escrevê-la. Como se eu fosse uma terceira pessoa, o próprio telespectador, sempre procuro me colocar desta forma.
Quanto ao processo de criação, ele o foi baseado com o objetivo de elaborar algo que não custasse tanto dinheiro, mas ao mesmo tempo eu contasse um boa história. A ideia surgiu quando eu comecei a observar o zelador do prédio onde eu morava em NY, pois ele fazia todos os serviços do prédio, como por exemplo: de recolher lixo a cuidar dos apartamentos que estavam pra alugar.
Eu escrevo com o Andre Dias, ele é o cara que organiza minhas ideias. Pois sou dislexo, assim tenho dificuldade em organizar os meus pensamentos. O Andre consegue fazer isso brilhantemente.
A esquizofrenia é discriminatória, geralmente é associada a conflitos familiares, rupturas e sofrimento. No entanto, pelo que você me disse ao citar como inspiração "Mente brilhante", percebi que, apesar do tema, o filme não parece ser um drama que nos arranca lágrimas. Qual a sua intenção ao abordar o tema "loucura"? Você quer provocar a reflexão sobre o assunto? Quebrar tabus? Ou mostrar que todo mundo tem um pouco de loucura? A antropóloga Miryam Goldenberg escreveu um livro chamado "De perto ninguém é normal", onde trata dos nossos medos internos que nos levam a ter manias, doenças psicossomáticas. O fato de você estudar psicologia tem a ver também com a escolha do tema? Se sim, por quê?
Acredito que seria um pouco de tudo que você citou. Mas, provavelmente, a ideia de ser "louco" beira uma normalidade, pois normal e loucura, na sociedade atual, se misturam como se fossem algo muito parecido.
O personagem Paulo, apesar da dificuldade de se expressar e se posicionar perante a sociedade, percebemos que sua mente é muito criativa a ponto de criar pontos de fuga da sua realidade.
O fato de eu estudar psicologia não influenciou na escolha do tema. Psicologia sempre foi uma opção antes mesmo de eu escolher minha primeira graduação. Mas por algum motivo escolhi outro curso, mas sempre tive o pensamento/vontade de cursar psicologia. Quando retornei dos EUA, decidi ingressar novamente na faculdade, pois acredito que o curso irá me acrescentar muito, tanto como pessoa, como diretor.

Camila Forjado na pele da personagem Isabela, namorada de Caio, um cantor “pop” de sucesso
Fale sobre o processo de escolha de elenco. Como se deu, você já conhecia os atores?
Sobre os atores, eu já tinha em mente algumas pessoas. Outros foram surgindo ao longo do processo, tive a ajuda do produtor de elenco Edson Branco. Em uma das conversas que tive com ele, percebi que ele poderia fazer um dos personagens do filme.
Como foi rodar um filme de baixo orçamento? Quais foram as maiores dificuldades? O que deu mais prazer?
Sobre o rodar, acredito que foi uma espécie de "esquizofrenia boa", pois tempo e dinheiro me faltaram ao longo do filme inteiro, mas tive uma ótima equipe, onde, apesar das dificuldades, todos compraram a ideia e me proporcionaram com a conclusão do filme. O que me deu mais prazer foi conseguir chegar ao fim!

Renan Monteiro na pele do cantor pop Caio em cena com Ana Preola,
que faz uma garota de programa em longa-metragem “Portaria 243”
Como é o Pablo cineasta? O que te motiva a ir atrás dos seus sonhos?
Vivemos em um mundo tão estranho, sem sentido. E com a arte consigo entender melhor, me colocar de forma diferente, o que me faz ver um pouco de sentido no mundo atual.
Você concorda com a máxima de que um roteirista sofre de um agudo transtorno dissociativo, que pouco a pouco o faz perder contato com sua personalidade e ter sensações de irrealidade e estranheza. A rara desordem mental chamada despersonalização? O que dizer sobre isso?
Concordo em partes. Como escritor sempre me coloco em terceira pessoa, escrevendo a própria história e sendo absorvida por ela. Isso poderia ser considerado um pouco de “transtorno dissociativo”. Mas acredito que isso é simplesmente uma possibilidade de se ver ou se posicionar em diferentes corpos e formas, bem como em diferentes realidades. Pois somente a escrita/arte possibilita você criar novos universos construtivos ao olhar de uma “outra” pessoa, não só nossa. A arte é feita primeiramente para si e depois para o outro. Sem um nem outro, não há arte.
