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"Amor": um filme sem nenhum romantismo e sentimentalismo

Michael Haneke pega o sentimento mais grandioso do ser humano e vira às avessas; concorre ao Oscar nas categorias de melhor filme, filme estrangeiro, roteiro, direção e atriz

Cinema  –  11/02/2013 16:03

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(Foto: Divulgação)

Belo e triste: Emmanuelle Riva concorre ao Oscar de melhor atriz por seu desempenho em "Amor"

Quando fiquei sabendo que o próximo filme do diretor Michael Haneke iria se chamar "Amor", muita coisa passou pela minha cabeça e meus pensamentos ansiosos foram em muitos lugares. Fui ao cinema esperando mais um grande filme de um dos meus diretores favoritos da atualidade. "Amor" não foi para mim só mais um grande filme do diretor. Eu vivi uma das experiências mais fortes dentro de uma sala de cinema da minha vida. Justamente por ter escrito no meu último artigo aqui no OLHO VIVO que uma crítica nunca irá se aproximar tanto de uma obra de arte como o espectador da obra se aproxima dela, que decidi escolher "Amor" para ser o meu primeiro filme analisado aqui na coluna.

O filme conta a história do casal Georges (Jean-Loius Trintignant) e Anne (Emmanuelle Riva), professores de música erudita aposentados, que devem ter por volta dos seus 80 anos. Eles moram em um apartamento de Paris, local onde o filme se passa na sua íntegra, exceto o primeiro plano do filme que é o da plateia de um teatro, onde o casal de idosos está sentado assistindo a um concerto. No apartamento vivem suas rotinas até o momento que Anne tem um problema de saúde e a partir desse momento seguimos acompanhando sua degeneração física e mental. Georges, a partir de então, se destina a cuidar da saúde de sua companheira.

O sentimento mais nobre

Não paro de pensar na potencialidade e a simplicidade do título desse filme. Haneke intitula de "Amor" um filme sem nenhum romantismo e sentimentalismo da relação amorosa. É como se ele pegasse o sentimento mais grandioso do ser humano e virasse às avessas, se comparado a forma como o amor é normalmente retratado na ficção e em geral no nosso cotidiano. "Vira às avessas" potencializando a grandiosidade e a complexidade humana no amor. Haneke confronta, com inteligência e maturidade, o espectador diante do sentimento mais nobre do ser humano. Confronta justamente a imaturidade e a má consciência de seu espectador para com o mundo em que vive. Me perguntei ao longo do filme e continuo a me perguntar se minha geração chegará aos 80 anos com muitos casais tendo tido uma relação amorosa forte e madura até o fim de suas vidas. Não sei.

O espectador nos filmes de Haneke não têm trégua, nunca teve. É confrontado diretamente com o mundo em que vive, o cinema de Haneke confronta o próprio cinema, não faz isso de uma forma rasa e só metalinguística. Faz isso sem ingenuidade e artificialidade, com uma dramaturgia simples e complexa à frente de tudo.

Obra máxima da carreira

Em "Amor" Haneke alcança sua obra máxima da carreira, faz isso de forma tão madura e não coloca a crueldade de forma tão evidente e escrachada, características presentes em seus outros filmes, como a incrível cena de abertura de "O vídeo de Benny" (1992) - o filme começa com uma cena filmada em VHS da execução de um porco, a cena é reprisada várias vezes - ou a cena clássica do controle remoto de "Violência gratuita" (1997). Haneke subverte a violência também, também coloca "às avessas". Mas em "Amor", como o próprio título sugere, ele faz isso a partir de uma relação amorosa, e nos surpreende. Como na cena que Georges mata Anne sufocada pelo travesseiro, mas antes disso canta uma canção de ninar. Amor dói mais.

Veja o filme "O vídeo de Benny" na íntegra

Haneke chega a "brincar" com seu próprio cinema quando faz uma cena que ao fim dela percebemos que é um sonho de George, mas antes de descobrimos que é um sonho, o espectador que já conhece o cinema de Haneke chega facilmente a pensar que algo tenebroso e violento vai acontecer e ele não vai nos poupar de mostrar nada. É um alívio quando percebemos que era sonho. Haneke chegou em um grau de genialidade e de bagagem cinematográfica que o permite fazer isso de forma inteligente e forte.

Prêmios na bagagem

Já era um desejo de Haneke (e imagino eu que para todo artista) conseguir que suas obras alcancem o maior número de público possível. Com "Amor" ganha mais admiradores para seu trabalho. O filme levou o prêmio máximo em Cannes (no ano anterior já tinha levado a palma com "A fita branca"), foi vencedor do prêmio de melhor filme estrangeiro no Globo de Ouro, e com indicações ao Oscar nas categorias de melhor filme, filme estrangeiro, roteiro, direção e atriz.

Não foi à toa que alguns anos atrás ele rodou o "Violência gratuita" (filme já filmado em 1997) com os mesmos planos, só que nos Estados Unidos e com atores americanos. Alegou que optou por isso, pois o filme não tinha atingido o público que ele gostaria que de fato atingisse. Gênio.

Atuações fabulosas

Com atuações fabulosas de Jean-Loius Trintignant e Emmanuelle Riva (diva de "Hirochima monamour" - 1959), ambos conseguem fazer o espectador realmente experenciar de muito perto essa relação. Saí do filme com a sensação de que conheci e acompanhei o cotidiano e a morte desses personagens. Posso dizer que conheci aquele apartamento de fato.

"Nada disso merece ser mostrado", diz Georges, ao impedir que sua filha Eva veja a mãe doente no quarto, e antes do filme terminar ficamos sozinhos (nós espectadores) naquele apartamento vazio, que vivenciamos durante o filme aquele espaço ocupado por aquele casal. Esses planos do apartamento vazio são de uma sutileza e de uma crueldade tamanha, que não conseguia me conter na cadeira de cinema. Melhor do que isso é quando entra a filha no apartamento pela primeira vez sem a presença de seus pais mais. Será que estamos cuidando dos nosso velhos? Um dia vai chegar a hora que vamos entrar na casa dos nossos pais e eles não estarão mais lá.

Saí do filme como quem sai de um enterro.

Quem é quem no filme

. Dirigido por: Michael Haneke
. Com: Jean-Louis Trintignant, Emmanuelle Riva, Isabelle Huppert
. Gênero: Drama
. Nacionalidade: França, Alemanha, Áustria
. Duração: 2h6min

Por Renan Brandão  –  brandao.renan@gmail.com

2 Comentários

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  • Renan Brandão

    Obrigado Bárbara! A filmografia do Haneke é imperdível, não deixe de assistir. é o um dos mais importantes cineastas da atualidade.

  • Bárbara

    ótimo texto; traduziu em palavras tudo o que senti, e acho que a maioria das pessoas também, ao assistir o filme. deu vontade de ver os outros agora...