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Imagina a Festa!

Copa do Mundo no Brasil não passa de um "espetáculo ilusionista"

Aguardarei o evento de 2014 como um repórter de guerra que fica sempre entrincheirado, olhando por detrás das colunas esperando o cessar fogo para então caminhar pelo front e registrar os estragos

Artigos  –  15/04/2013 15:37

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(Foto Ilustrativa)

Conduzem algo tão sério com tão pouca

interlocução com a sociedade e tão ínfima

eficácia administrativa

 

Renato Barozzi

Tudo vale a pena quando a alma não é pequena, dizia o poeta. Muito bem dito por sinal. O problema é somente com a interpretação. Como somos um povo "superlativo" na essência, tomamos a expressão ipsis litteris e a engolfamos numa megalomaníaca catarse a fim de nos livrarmos do nosso famigerado "complexo de vira-lata". Adjetivo esse que foi proferido por outro sábio. Aliás, um grande cronista e observador do quotidiano que cunhou em nossa recalcada personalidade a decifração mais honesta que já vi.

Nosso problema é que, mesmo estando nu e famintos, olhamos para cima e proclamamos de braços abertos: "imagina a festa". Chegamos a acreditar que até mesmo a "lua merencória", que insistiu em nos iluminar por séculos, hoje exulta no céu como se fosse a própria bola aguardando o pontapé inicial da Copa do Mundo de futebol da Fifa, evento este que se fará por aqui em 2014. Se fora eu tal astro, fecharia as cortinas e deixaria todos no escuro, sairia feito um cometa e exibiria meu brilho cósmico por outras bandas ou galáxias, pois o que vem por aí é um "espetáculo ilusionista", cujo infortúnio ecoará num "brado retumbante" de proporção interplanetária.

Todos comemoram como se já estivéssemos adornados para o baile. Desde o gari com seu samba no pé até a publicidade que exalta em suas campanhas o entusiasmo de marcas nacionais e estrangeiras, calcado, é claro, no morro acima dos gráficos de vendas e visibilidade institucional que pululam internamente nas planilhas e slides requintados. Agem impelidos por um êxtase e parecem não perceber a roleta russa em que se meteram.

Eu, particularmente, e para variar um pouco, manifesto aqui meu ceticismo com tudo isso.

Aguardarei a Copa do Mundo e as Olimpíadas como um repórter de guerra que fica sempre entrincheirado, olhando por detrás das colunas esperando o cessar fogo para então caminhar pelo front e registrar os estragos. Não que eu torça contra, não é isso, mas o que me incomoda é ver um governador fanfarrão e uma caricatura efeminada de Mao Tsé-Tung conduzirem algo tão sério com tão pouca interlocução com a sociedade e tão ínfima eficácia administrativa.

Ora bolas. As obras caminham a passos de cágado; já tomamos puxões de orelha de órgãos internacionais; nossa seleção está "em formação"; não temos infraestrutura rodo e aeroportuária; não temos gente suficiente nem para se comunicar com os visitantes; comprar ingressos será como ganhar na loteria; o abuso de preços já começou em quase todas as capitais, contribuindo com o aumento da inflação; não temos sequer h-o-t-é-i-s dignos de uma noite bem dormida ou com chuveiros honestos.

Não digo isso porque simplesmente ouço falar na televisão ou leio nos jornais, mas porque sofro na pele todos os dias com a precária rede de serviços mal prestados que toma conta deste país.

Mas, como somos os senhores do jeitinho, autossuficientes e "raçudos", um povo que não desiste nunca, alto astral, hospitaleiro, tropical, exótico e criativo: imagina a superação.

Imagina também o RDC (1). Imagina o trânsito. Imagina a criminalidade não registrada, já que um turista a caminho do estádio não vai enfrentar fila na delegacia para registrar o roubo do seu celular. Imagina o preço da cerveja. Imagina o lixo na rua. Imagina Brasília deserta. Imagina o abuso de autoridade das "carteiradas". Imagina o que o serviço de bordo da Gol vai oferecer. Imagina o Galvão Bueno gomalinado. Imagina o absenteísmo.

Agora, o que eu imagino mesmo é a ressaca dos dirigentes da Fifa depois de findado o evento. Todos sentados na piscina do Copacabana Palace com uma puta dor de cabeça, blasfemando contra a vida, contra a sorte e contra aqueles FDP que foram lá na Suíça e empreenderam uma campanha de marketing fabulosa.

Nossos distintos representantes, quando por lá aportaram há alguns anos, levavam na mala mais do que a nossa típica cachaça a fim de confundir a razão dos gringos. Eles lhes apresentaram as belezas deslumbrantes do nosso país, colocaram uma sadia mulata a requebrar diante de olhos esbulhados e pescoços vermelhos, apresentaram um povo que sorri nas adversidades e comemora como ninguém suas conquistas. Mas, agora, depois de não cumprirem com o prometido, despedem-se dos arrependidos cavalheiros, que aguardam seu voo de três conexões, com dois tapinhas nas costas e uma frase de consolo: "Tamo junto".

Não vou somente ficar pensando no pior, pois isso pode atrair coisas ruins e eu ainda posso ser acusado de fomentar o mau agouro, tornando-me um inimigo nacional. Portanto, aí vão algumas sugestões de quem quer ver a coisa dar certo, ou seja, passo a: "imaginar a festa".

Nos estádios, não se preocupem com louças, pias ou assentos sanitários. Façam um buraco no chão e pronto. Ah, não coloquem lixeira também, pois ninguém usa mesmo. Não precisa construir ou reformar hotéis. Coloquem barracas no entorno dos estádios, assim mataremos dois coelhos com um flato só, pois não haverá trânsito nem engarrafamentos. Se mesmo assim as vias ficarem congestionadas, deem férias coletivas ou estimulem as pessoas a assistirem aos jogos de casa. Para isso, criem o "bolsa Copa", que consiste em dois quilos de carne e seis "latão" para quem resolver ficar na própria laje.

Não precisa construir novos acessos, apenas pintem uma faixa nas vias por onde passarão as delegações e autoridades e o resto que se dane. Nas cidades onde houverem jogos, implementem o toque de recolher para quem não tem ingresso. Cancelem expedientes de qualquer natureza. Quatro horas antes do jogo todos deverão estar em casa ou, no máximo, na do vizinho ao lado. Coloquem a delegação argentina num puxadinho ao lado da quadra da Mangueira e promovam ensaios abertos para os turistas todas as noites na escola. Deem um Laptop com um modem de acesso à internet, destes das operadoras de celular, para cada jogador das delegações estrangeiras. Teremos então muitos jogadores entrando em campo irritados a ponto de serem expulsos. Assim todos jogarão desfalcados contra o Brasil. Coloquem a Regina Casé como a mestre de cerimônia oficial e peçam ao Zeca Pagodinho para organizar a festa de recepção das seleções no sítio dele em Xerém.

Essas são apenas algumas sugestões no intuito de obtermos relativo sucesso com o evento. Mandem ao editor suas propostas. Quem sabe não façamos também uma enquete para escolher as mais factíveis.

No mais, aguardarei ansioso o encerramento do evento, e deixo ainda registrada aqui a minha torcida para que seja possível escutarmos da boca de quem fizer o discurso final: "Sem saber que era impossível, fomos lá e fizemos".

(1) Regime Diferenciado de Contratação. Trata-se de simplificação dos procedimentos de licitação na contratação das empresas que executarão as obras diretamente ligadas aos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos de 2016, da Copa das Confederações Fifa 2013 e da Copa do Mundo Fifa de 2014. 

> Renato Barozzi já jogou futebol e acredita que tem uma vaguinha na seleção do Felipão

Por Redação do OLHO VIVO  –  contato@olhovivoca.com.br

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