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Os 100 dias sem éter

Meu éter é substancialmente distinto daquele da política; o éter da política tenta ocultar odores putrefatos, enquanto meu éter literário e prosador busca a essência de uma vida livre, musical e sonhadora

Artigos  –  21/04/2013 19:41

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(Foto Ilustrativa) 

Aquilo que não me destrói, me fortalece

 

Renato Barozzi 

O título deste comentário pode parecer manchete de alguma matéria que dê conta do estado de colapso do serviço de saúde pública no Brasil, mas não é. Na verdade, minha intenção inicial era escrever um texto sobre os 100 dias de governo do prefeito Antônio Francisco Neto (PMDB). Comentei até mesmo com o editor que o faria. Seria algo como: "Após 100 dias, restam 1.360 para o ostracismo". Já tinha reunido elementos para contestar, tintim por tintim, a entrevista dele na televisão. Estava munido de dados fidedignos sobre a administração municipal. Recorri às minhas fontes no intuito de não escrever coisas infundadas ou fazer da minha crítica uma peça de ficção, ou seja, não fazer como na entrevista. 

Mas a noite já corria velozmente e eu tinha que acordar cedo para trabalhar, já que não vivo de escrever. Apenas o faço por uma necessidade "fisiológica". Deitei-me. A cabeça, todavia, fervilhava. Então, recorri logo ao lado da cama uma coletânea de crônicas que reúne textos de Drummond, Clarice, Sabino, Paulo Mendes Campos, Rachel de Queiroz e Rubem Braga. Um livro delicioso e cheio de ótimas surpresas. Pensei em ler umas três crônicas antes de dormir. Só que, logo na primeira, "Caso de canário", do Drummond, fui tomado por um estado de relaxamento quase hipnótico. Foi como se meu coração se assentasse numa daquelas poltronas do Arteplex, esperando para assistir a um bom filme de amor. 

Eu, que ao escrever de política só pensava em ir dormir, agora já não queria mais adormecer. Queria sentir aquele texto. Queria refletir no silêncio das horas. Virava-me de lado e transformava aquelas simples e bem posicionadas palavras em alimento para a minha alma. Queria chorar baixinho. Senti um nó górdio a pulsar na garganta. Sorri sozinho como quem descobre um tesouro. Enfim, quis levantar e registrar tudo isso também em palavras. 

O texto do Drummond falava de um rapaz que se viu obrigado a sacrificar um canário, pois o veterinário o havia condenado. Contra sua vontade, o rapaz fez uso de um algodão embebido em éter a fim de dar cabo do pobre pássaro. Após concluir o ato, ele o atira à lata de lixo e sai. Na manhã seguinte, a cozinheira foi ajeitar a lata de lixo e recebeu "uma voraz bicada no dedo". Após regozijo generalizado, "o estrangulador, que se sentiu ressuscitar", concluiu que o bichinho precisava mesmo era de éter. 

Depois de se sentir o pior homem do mundo por ter feito mal a um passarinho, o rapaz o vê vivo e cheio de energia. O éter o fez muito bem, concluiu o incauto. "Aquilo que não me destrói, me fortalece", concluo eu. Fiquei bastante envolvido pela atmosfera do texto. Sentia-me na pele do sujeito, já que vivia situação analogamente semelhante. 

Eu estava muito mal naquela noite por ter exagerado no "éter" com os meus "passarinhos". No instante da exortação, quando eu erro na dose, logo depois, no instante imediatamente seguinte, sinto uma faca a cortar-me. Perco por um dia o que tanto amo. Isso me faz uma falta incomensurável. Sinto a reprovação da esposa, que é bem mais tolerante e sábia para lidar com os nossos "passarinhos". Um dia para mim sem agir corretamente, sendo carinhoso, justo, produtivo e afável com minha família certamente me faz mais falta do que 100 dias para qualquer governo soberbo, que diz preparar o lugar onde todos sonham viver, mas se esquece de que vivemos o presente e não num futuro imaginário. 

Enfim, na manhã seguinte, quando meus canarinhos despertam cantando, agradeço logo e saio louco para abraçá-los e trazê-los para o ninho. 

Enquanto para muitos o éter é a própria morte, para mim, para o personagem pseudoassassino e para o canário de Drummond, o éter é o renascimento. E mais, meu éter é reflexão, autocrítica, a humildade em reconhecer meus erros, a pró-atividade em mudar de atitude e a brandura com que rasgo "minhas vestes" e me reconstruo internamente. Meu éter é atemporal, durará para sempre, pois tem por princípio ativo, não substâncias químicas sintéticas e manipuláveis em laboratório, mas o amor, a singeleza e a predisposição em transformar-se num composto melhor e de odor mais suave e agradável. 

Meu éter é substancialmente distinto daquele da política. O éter da política tenta ocultar odores putrefatos, enquanto meu éter literário e prosador busca a essência de uma vida livre, musical e sonhadora, que se manifesta nas asas de um canário que descobriu que é possível voar novamente. 

> Renato Barozzi prefere a definição do éter dada pela física ("Hipotético fluido cósmico extremamente sutil, que enche os espaços, penetra os corpos e é considerado, pela teoria ondulatória, o agente de transmissão da luz, do calor, da eletricidade etc.") do que a oferecida pela química ("Líquido aromático, incolor, extremamente volátil e inflamável, que se produz pela destilação de álcool com ácido sulfúrico")

Por Redação do OLHO VIVO  –  contato@olhovivoca.com.br

1 Comentário

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  • Djalma Augusto dos Santos Mello

    Um belíssimo texto socrático do meu amigo Renato. Também compartilho desse delicioso éter que flui sobre mim. Parabéns!