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O historiador que costurou plenamente o
marxismo com a história nova foi Michel Vovelle
Os historiadores Ciro Flamarion Cardoso, Héctor Pérez Brignoli e Jacques Le Goff produziram instigantes obras sobre os métodos evolutivos do estudo da História e da formação da nova história. Os historiadores percorreram a evolução da ciência histórica, dos fatos singulares e da estrutura histórica, saindo entre os séculos XIX e XX da história erudita e intelectual para a história social, pautada no estruturalismo antropológico e social, rompendo com a história positivista, nada imparcial na definição de François Furet: "...como o acontecimento - irrupção súdita do único e do novo na cadeia do tempo - não pode ser comparado com nenhum antecedente, o único modo de integrá-lo à História consiste em atribuir-lhe um sentido teleológico: se ele não tem um passado terá um futuro. E como a História se desenvolveu, desde o século XIX, como um modo de interiorização e conceitualização do sentimento de progresso, o acontecimento indica, quase sempre, a etapa de um advento político ou filosófico: república, liberdade, democracia, razão".
Os historiadores dos Annales Lucien Febvre e Marc Bloch transformaram a revista como espaço de interação entre historiadores e cientistas sociais, com estudos demográficos, sociais e econômicos, antes mesmo do desenvolvimento antropológico de Claude-Lévi Strauss, com o marxismo usando a estrutura social como objeto de estudo e parâmetro para o entendimento da antropologia - história, sinconia - diacronia e estrutura - acontecimento. Segundo os historiadores e autores, a história encontra-se em três expressões: "história serial", "história quantitativa" e a "new economic history". A história serial é devidamente exercida por historiadores preocupados em não cometer anacronismos, as diferenças das sociedades em épocas distintas, respeitando a heterogeneidade, os aspectos culturais e econômicos desde o século XIX.
A história quantitativa surgiu nos EUA e desenvolveu-se com o historiador francês Jean Marczewski com materiais estatísticos e equações para o entendimento da evolução econômica. A new economic history é uma escola voltada para a metodologia econômica, com hipóteses para explicações hipotético-dedutivo com uma teoria econômica, tentando provar sua evolução através da lógica e do empirismo. Não poderia deixar de fora a concepção evolucionista da História sem o marxismo. Após a Revolução Bolchevique (1917), a escola de pensamento marxista tinha como leitmotiv o materialismo histórico, com poucos historiadores profissionais, tendo como um dos pioneiros Pokrovski, estudioso das classes e dos seus movimentos, do Partido Comunista Soviético e da Revolução Russa, porém a repressão e o dogmatismo estalinista implicou na limitação da liberdade da pesquisa científica.
Os historiadores franceses Jacques Le Goff e Guy Bois refutam a extensão da esclerose científica, comprometendo a própria historiografia marxista no Leste e Oeste da Europa, fruto dos discursos estereotipados, manipulação escolástica e discursos superficiais dos conceitos. Fora da Cortina de Ferro, o exercício da metafísica e estudos na linha marxista foram possíveis com os renomados e ótimos teóricos do marxismo Antonio Gramsci e Georg Lukács, que estudavam as superestruturas e a consolidação da historiografia marxista, compreendendo o processo evolutivo do socialismo. Estágios de sucessão ou como Karl Marx definiu de "épocas progressivas", porém as características do desenvolvimento histórico: comunidade primitiva, escravismo, feudalismo, capitalismo e socialismo caem por terra quando nos deparamos com o estudo das sociedades antigas do Ocidente e Oriente. O Japão feudal não conheceu o escravismo no estágio anterior ao feudal, e não seguindo este esquema metódico- evolutivo de continuidade geográfica.
O historiador que costurou plenamente o marxismo com a história nova foi Michel Vovelle através da história das mentalidades e a compreensão da sensibilidade coletiva no mundo medieval. A produção historiográfica mostra a sua pluralidade e riqueza para a evolução da própria ciência histórica.
> Djalma Augusto é professor de literatura, historiador cultural, crítico literário, blogueiro e integrante da AVL
