
(Foto: Reprodução)
Não se gasta R$ 695 milhões para deixar um estádio com a história do Mineirão como está agora
Rafael Clemente
"Ai meu deus, essa copa do mundo
É uma puta falta de sacanagem!
Beagá não sai ganhando
Nem se for pra repescagem"
(Trecho da marchinha "Imagina na Copa" - Daniel Iglesias, Matheus Rocha, Guto Borges)
Começo o texto com esse "chavão" criado pelas agências de publicidade do mega evento midiático-futebolístico para causar a impressão nos populares que durante a Copa do Mundo de Futebol no Brasil tudo será maravilhoso. Será?
Vamos então à narrativa da pequena saga do amistoso Brasil x Chile, realizado em 24 de abril na capital mineira, Belo Horizonte. A compra de ingressos para o jogo pela internet era razoavelmente satisfatória, não fosse por dois motivos, o valor dos ingressos e a surpresa maior: ao realizar a compra, o cliente-torcedor deveria comparecer a alguma bilheteria dentre quatro locais para retirar seu ingresso. Ou seja, quem procurava agilidade ao fugir das filas acabou encontrando burocracia e imaginem... filas! A retirada dos ingressos, principalmente no dia antecedente ao jogo, demorou em torno de três horas em alguns locais. Eu que estava na sede de um dos clubes mineiros de futebol em uma fila gigantesca ouvi um segurança dizer: "Também vocês deixam tudo para a última hora!" Acabei concordando em partes. Mas, ainda assim, dirigi grande culpa à organização do evento, visto que só havia dois guichês para a bendita retirada e além de que não proporcionou a tecnologia do cartão de crédito ser o ingresso direto na catraca. Valia mais, então, comprar direto nas bilheterias. Quem se voltou a essa alternativa acabou se dando bem. Ao menos que deixasse para os últimos dias e horas antecedentes à "pelada". Desculpem-me! Digo, ao clássico sul-americano. Na última hora só encontraria ingressos mais caros. Com ticket na mão era conferir o espetáculo (sic)!
No dia do jogo, para chegar ao Estádio Mineirão - agora Minas Arena (sic, outra vez!) -, foi disponibilizado "transporte especial". Alguns ônibus convencionais circulavam por pontos específicos da cidade rebocando torcedores. Outros ônibus vips também saíram de um local direto para o entorno do campo. Esses possuíam um preço módico de R$ 15 (ida e volta) e esgotaram suas passagens em poucos minutos. Para aqueles que escolheram o transporte coletivo na ida, o negócio foi de razoável para bom. Os ônibus convencionais demoravam cerca de 20 minutos e, pelo esquema de trânsito montado, não entravam em engarrafamentos, pois passavam por uma via expressa. Mas quem optou pelo carro, ou mesmo táxi, se embaraçou. Taxistas, bem espertos por sinal, tinham autorização para circular pelas mesmas vias dos coletivos, mas a fim de ganhar alguns trocados extras se embrenhavam juntos aos carros particulares e o cidadão que achou ser melhor ir no conforto do carro branquinho teve que desembolsar uns reais a mais.
A chegada a um estádio, no entanto, é sempre emocionante. Ver torcedores cantando, se agrupando, vestindo camisas das mais variadas agremiações, dentre elas a da seleção brasileira, provocando adversários pacificamente, debatendo sobre jogos recentes e clássicos antigos é sempre um espetáculo à parte desse bussiness que tem se tornado o futebol moderno. Com policiamento reforçado na região tudo corria muito bem, não fossem as quilométricas filas que aguardavam o pobre diabo torcedor. Tudo foi dividido em setores, cores, portões, fileiras alfanuméricas, lugares demarcados etc., como manda o manual da organização de um cinema que receberá uma grande plateia e consequentemente uma grande exibição. Confesso que tudo isso é parte de um processo modernizador do esporte que tira um tanto da especificidade dos torcedores e das torcidas de futebol, mas posso estar incorrendo no erro de meu romantismo, enquanto torcedor de estádio que sou. Embora confirme que a organização é uma parte importante, se não a maior, na prevenção de distúrbios, como por exemplo, os "fura-filas" que embaixo de vaias foram enxotados para o final - longínquo - da que eu me encontrava, sem ver, no entanto, a roleta de acesso efetivo às arquibancadas.
"Os espaços entre as cadeiras são muito
apertados. O chão parece de cimento alisado,
solta bastante poeira, placas de vidro no
guarda-corpo já se encontram quebradas"
Após longos 40 minutos eu acessava o meu lugar numerado e me assentava para "assistir" ao jogo daquela noite, iniciado às 22h (por determinação da detentora dos direitos de transmissão). Mas antes do apito inicial dei uma volta pelos corredores e arquibancadas, a fim de analisar a obra de modernização do estádio custeado, a partir de PPP (Parcerias Público Privadas), aos cofres de Belo Horizonte e do Brasil e seus "parceiros" R$ 695 milhões. Uma certa decepção tomou conta do meu ser. Por quê? Ora, não se gasta esse valor para deixar um estádio com a história do Mineirão como está agora.
Os espaços entre as cadeiras são muito apertados, impossibilitando o torcer em pé por longo período. O chão parece de cimento alisado, solta bastante poeira, placas de vidro no guarda-corpo já se encontram quebradas e não me pareceu que por atos de vandalismo, visto que a trinca inicial estava na ponta, mas não sou perito no assunto. Não há espaços para as torcidas organizadas torcerem de pé - costume histórico -, também não se pode entrar com bandeiras e faixas. Compreendo, embora não concorde, que tudo isso faz parte de uma modernização elitista presente não só no futebol brasileiro - que, aliás, passa por uma modernização obsoleta e atrasada -, mas é uma tendência mundial, onde o torcedor com menor poder aquisitivo é excluído de várias formas desse espaço outrora popular. Faltou água, restaurantes abertos até o fim do jogo, papel higiênico e até aquele lanche das cantinas acabou. Quem estava mediando os conflitos na fila do restaurante, como dentro de todo estádio, era a Polícia Militar, com direito a cassetete, armas de fogo, capacete, colete a prova de balas e até escudo do esquadrão de Choque. Tudo isso em um ambiente com idosos, crianças, casais e torcedores organizados. Aí começou outro problema.
Em um jogo como esse os torcedores organizados raramente conseguem ficar juntos, pois os ingressos são numerados e a menos que se compre no mesmo momento o sistema vai bloqueando os lugares já adquiridos. Um conflito a mais para a administração do evento. Sentei quase atrás do gol numa arquibancada superior, onde os ingressos tinham o valor médio, os de preços mais baixos já tinham se esgotado, embora vários lugares ficassem vazios nesses setores. Ao término dos hinos nacionais de Brasil e Chile e início da partida todos ao meu redor se sentaram. Um grupo de sete torcedores, aproximadamente, ficou de pé entre a primeira fileira de cadeiras e o guarda-corpo de vidro. Gritavam Brasil! intercalando com três palmas. Em poucos minutos aqueles que sentados estavam começaram a solicitar, de um modo não tão gentil, que eles se retirassem, posto que também têm seus lugares marcados e os sentados queriam ver a partida, pois pagaram por isso. Veio a segurança não policial e pediu que se sentassem em seus locais. Não adiantou. Veio outro e mais outro e nada deles saírem. Vaias para eles e até xingamentos. Levantou-se ao meu lado um homem e pegou sua carteira, foi até eles e conversou exaltado. O homem ainda com a carteira na mão entrou em um dos acessos ao corredor e sumiu. Quando voltou trouxe consigo cinco policiais armados. O homem se sentou novamente ao meu lado, enquanto os policiais, na base do "argumento sadio" retiraram os torcedores daquele local, ainda sob vaias e xingamentos.
"Não há espaços para as torcidas organizadas
torcerem de pé - costume histórico -, também
não se pode entrar com bandeiras e faixas"
Olhei curioso para o homem da carteira, ele notou em minha face a curiosidade de saber o que ele tinha feito, quem ele era. Ele me olhou, riso cínico e triunfante no rosto e me disse: sou promotor de justiça, uai! Continuou rindo e dali em diante trocamos uma boa prosa sobre o jogo, a situação que ocorrera e sobre os estádios de futebol. Pensei logo nos escritos do professor Roberto Damatta, quando explica sobre a síndrome brasileira do "Você sabe com quem está falando?" Sugeri a leitura desse texto ao homem, ele olhou com certo desdém, do tipo vamos falar do jogo. Continuamos então com outros temas. Localizei mais tarde os torcedores retirados pela polícia e após o jogo tentei, em vão, contatá-los. Esse fato me despertou para a questão da criação do locais específicos para os torcedores que querem torcer de pé. É um dado cultural das torcidas e torcedores que não pode ser esmagado por um estatuto moderno que não leva em consideração a cultura local. O conflito se previne com uma solução antecipada. O maior exemplo disso tem sido o futebol alemão. Na BundesLiga há setores populares, camarotes com serviço de comidas requintadas, locais para torcer em pé, sentado, ou seja, senão todos, grande parte dos torcedores alemães estão contemplados no espaço do estádio. Com isso a média de público do time de Nuremberg, o último colocado do campeonato alemão, é de 41.000 torcedores. Seu estádio tem capacidade para 50 mil. Números assombrosos para um "lanterna".
Pois bem, para encerrar com "chave de ouro" ainda tinha a volta pra casa. Não entrarei aqui na análise tática da partida, que por sinal não valeu o preço. Saída do estádio, siga a placa que vai indicar onde o ônibus estará. Aquele mesmo convencional que trouxe os torcedores. Para nossa surpresa não havia ônibus no local indicado. Parti para uma via central para tomar uma condução que me levasse ao centro da cidade a fim de pegar um outro ônibus e enfim chegar no aconchego do meu lar. O primeiro ônibus demorou 40 minutos de espera. Isso para lá de meia-noite e dez - hora que saí do Mineirão. No espírito da redução de custo a empresa de ônibus retirou o cobrador, deixando o motorista nas funções de dirigir, pegar o dinheiro, dar o troco, liberar a roleta e ainda reparar se todos já haviam descido e não fechar as portas do coletivo a espremer nenhum cidadão, fosse ele torcedor ou um trabalhador voltando pra casa após a labuta. Essa atitude fazia o tempo de permanência em cada ponto quadruplicar, pobre motorista!
No fim das contas havia vários "trocadores" dentro do ônibus. Informavam no boca a boca ao motorista em quais pontos tinham passageiros a descer, se podia ou não destravar a roleta e fechar as portas daquele ônibus soturno. Descendo próximo ao famoso Mercado Central de Belo Horizonte, no único ponto que conseguia imaginar àquela hora, esperei por mais uns longos minutos. Por fim tomei um táxi e sem poder gastar mais dinheiro torci pela bandeirada caber no bolso, mais do que por um gol do Brasil. No fim, tudo deu certo. Mas pobre de nós, mais de 53 mil torcedores pagantes que encheram o Mineirão. Apaixonaram-se pelo futebol. Esse negócio milionário, que enche os cofres das confederações e também de seus dirigentes. Pagamos caro por um simples e mesquinho amistoso no qual foram arrecadados R$ 3.255,205,00. Além de sofrermos antes e durante a partida sofremos também depois. Mas mesmo assim não deixamos de frequentar os templos sagrados do nosso país, onde a bola rola e a louvação não é mais do que um grito de gol saído da garganta.
> Rafael Clemente é historiador e cientista social, estuda as torcidas organizadas de futebol
