(Foto Ilustrativa)
Os discípulos que estão sendo preparados para um futuro naufrágio nunca existirão
Ricardo Yabrudi
Você é preparado, na maioria das situações, durante o seu aprendizado, a se virar sozinho nas avaliações, sem a ajuda de ninguém. Porém, os seres humanos são frágeis. Ao nascer, dependem da mãe para serem alimentados. Não caminham logo que nascem. Não são como os bezerros, que logo ao nascer se levantam.
Assim que cresce, alguém o avalia frequentemente no que deve saber. Não deve haver dúvidas sobre o que aprendeu. Mesmo que intermináveis listas, compêndios, fórmulas não sejam do seu interesse. Não possam ser armazenados integralmente, porque o cérebro rejeita o que não deseja ser armazenado naquele momento. Assim, dizem a você: o aprendizado deve ser rápido, eficaz, concluído com sucesso. Os problemas, as perguntas, devem ser respondidos como se as palavras saíssem da boca de quem perguntou. Esse é um caso sério, em que um avaliador pensa que terceiros devam pensar como ele. Outros olhares, interjeições, deverão ser recusados, mesmo que, em um breve futuro, aquele pretenso saber caia por terra como uma mentira (esse foi o caso de Hubble). Mas, aí, já passou. Sua avaliação estará consumada em algum arquivo.
Devemos ser avaliados de alguma forma? E se não houver mais cidades, um Estado, e a civilização for destruída? Se tudo desaparecer? Você irá morar numa ilha como a de Robinson Crusoe? Será que somos criados, preparados, educados para habitar uma ilha inóspita como a do romance de Daniel Defoe, de 1719? Estamos sendo preparados para um naufrágio, uma hecatombe?
Somos educados através dos saberes ancestrais, herdados por aqueles que deixaram seu legado. O egoísmo, que guarda, oculta a informação para a solução de problemas, quer para si o que deve ser enterrado. Escondido das bibliotecas, das escolas? Nunca! Tycho Brahe, o astrônomo, só revelou suas observações na noite anterior à sua morte. Disse três vezes: Ne frustra vixisse videar, “Não me deixe parecer que tenha vivido em vão”. Sua esposa, Kirsten Jørgensdatter, entregou suas anotações a Johannes Kepler, seu assistente, sem que esse revelasse integralmente suas observações. Assim deve se comportar o altruísmo na educação: revelar ao aprendiz, ao aluno, de acordo com sua necessidade, na hora em que mais precisa, para o seu aprimoramento, contribuindo para as ciências e também para sua formação. Devemos empurrá-lo adiante, e não atrasá-lo. Afinal de contas, a ciência já errou milhares de vezes. Por que penalizar um discípulo, se até a ciência já errou aos borbotões?
E, na filosofia, como foi? Não foi à toa que se sucederam as escolas filosóficas gregas: a Academia de Platão, a Escola Peripatética de Aristóteles, os estoicos. Todos se ajudaram para que o homem conhecesse o próprio homem.
A literatura começou sua atividade com os poemas, contando histórias como se fossem verdades. Inventando deuses, na Odisseia, na Ilíada. Homero era um cara legal, não guardou para si seus tesouros. Uma carta de amor? Um poema apaixonado? Ah, esse que escreveu tinha que compartilhar com seu desejo, sua paixão, para o bem do amor. Se guardasse na gaveta de seu quarto, sua alcova? Estaria só até hoje.
A solidão na educação deve ser assim: abaixe sua cabeça. Estude só. Ninguém irá ajudá-lo no futuro. Você deve se preparar para naufragar um dia. Lá, na ilha inóspita, não haverá ajuda de ninguém.
É justamente quando aparecem as dúvidas e os problemas que os discípulos devem ser ajudados. Assim deve se comportar o Mestre nos momentos em que se deve seguir adiante. Não como um egoísta que esconde a sabedoria; entretanto, como um anjo, aquele que envia a mensagem salvadora no momento da construção do saber. Naquele momento, no Evangelho de Lucas, capítulo 1, versículos 26 a 38, Maria tinha um “problema”. Foi avisada de que estava grávida e ainda “virgem”. Era uma adolescente. Não era um problema de matemática. Era exponencialmente muito mais grave; estava sendo testada, avaliada. Um problema que a ciência não poderia explicar. Uma “prova” aplicada pelo Espírito Santo. Todavia, não ficou só, sem ajuda, naquele momento. A vida devia seguir adiante, a promessa deveria ser cumprida. O mensageiro divino anunciou, soprou a “questão” da prova divina para tirar sua dúvida. Ele disse: “Ele será grande e será chamado Filho do Altíssimo”.
Somos preparados, na maioria das ocasiões, para não receber ajuda nas avaliações. Por que é preciso que seja assim? Tão tosca, tão fria, tão egoísta, na hora em que se deve seguir adiante? A educação é um tesouro volátil que não se pega com as mãos. Ela deve ser sentida como um perfume, uma fragrância, para aguçar, farejar os caminhos a serem percorridos pelo ser humano.
Você deveria ser preparado para viver em sociedade, com companheirismo. Trocando informações, onde lacunas de outros companheiros necessitam de suas preciosas informações. E a sua lacuna também preenchida por aqueles com quem você compartilhou.
Os discípulos que estão sendo preparados para um futuro naufrágio nunca existirão. Enquanto, numa sexta-feira, um mestre bom aparecerá para te dizer: “Estou aqui, você não nasceu para viver só”.
. Ricardo Yabrui: Músico profissional pela Ordem dos Músicos do Brasil. Foi aluno de Vicente Lima, Leo Soares, Fernando Moura, Abel Carlevaro, entre outros. De formação erudita e popular, integrou o Kalenda Maia (especializado em música medieval, renascentista e barroca). Tocou profissionalmente no círculo erudito na Sala Cecília Meireles, Theatro Municipal (RJ), TVE, e outros tantos concertos. É violonista e violinista erudito, bandolinista, alaudista, e guitarrista. É compositor, filósofo, escritor e professor de música. Trabalha com sonorização e iluminação profissional, estruturas de palco em shows e eventos.
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