
(Foto Ilustrativa)
Criada em 1904 na França com sede em Zurique,
a Fifa detém os poderes da administração do futebol
Rafael Clemente
Vem aí 2014. Ano de Copa do Mundo no Brasil. Teríamos muito o que comemorar. Podem perguntar: Por que o verbo "teríamos"? Não seremos o país da festa futebolística? Nossas ruas não serão tomadas por trios elétricos? A Copa não será um tremendo Carnaval fora de época? A resposta é simples, caro leitor. Não.
Muitas são as notícias em torno desse evento. Jogadores convocados, resultados negativos da seleção, a montagem do time, a melhor defesa, o melhor ataque e etc. Ao meu ver, e por isso escrevo aqui, esses temas são os menos relevantes, embora o futebol seja uma das prioridades nacionais e para mim não seja diferente. Menos relevantes pois, na verdade, uma vitória ou uma derrota de um time altera muito pouco, ou quase nada, a nossa vida particular, afora uma euforia aqui ou uma fossa acolá. Contudo, quero me ater aos preparativos desse evento que trará ao Brasil os olhos do mundo.
A rainha Fifa
Criada em 1904 na França com sede em Zurique, a Fifa (Federação Internacional de Futebol Associado) detém os poderes da administração do futebol. Dentre suas funções está a providência de filiação de países-membros - mediante suas confederações nacionais -, determinar as regras para o esporte, formar quadros administrativos e gerências do futebol e
organizar os campeonatos mundiais. Logo a entidade que possui mais membros do que a ONU (Organização das Nações Unidas) - são 208 contra 193 - possui em suas mãos o monopólio do esporte mais popular do mundo. Hegemonia que tem se mostrado em terras tupiniquins por ocasião da próxima Copa, mas também por meio da Copa da Confederações, evento "teste" de 2014, que se iniciará no dia 15 de junho.
Constantemente a alta direção da entidade se reporta à mídia dando explicações sobre possíveis casos de corrupção em seus quadros, como por exemplo o último acontecimento que proporcionou a renúncia do presidente de honra João Havelange - de 1974 a 1998 presidiu a instituição - para que o mesmo não respondesse a inquéritos sobre propina e este resultasse em sua expulsão. Há quem diga, portanto, que os cartolas da Fifa são os donos da bola. Determinam onde um evento acontece, como deve ser realizado, o que tem que ser escondido, quais empresas participam, enfim, ditam tanto o modus operandi como o operatus. Por aqui isso já começou.
O "aqui pode" e o "aqui não pode"
Caso você tenha em mente visitar Salvador durante a Copa, tirar fotos com as baianas, comer um acarajé feito por elas e depois ir ao estádio Fonte Nova assistir a um jogo, esqueça. Isso porque, até o momento, o famoso acarajé baiano está proibido, assim como a presença das baianas, nos arredores do estádio. Difícil de acreditar, não? Mas é isso mesmo. Por determinação da Fifa as baianas estão proibidas de trabalhar vendendo seus quitutes. A venda de produtos alimentícios só será autorizada nas cantinas dentro do estádio e realizada por empresas - pessoas jurídicas - credenciadas. A ABA (Associação de Baianas de Acarajé), responsáveis pela venda se encontram em estado de pânico, visto que seu faturamento vem do seu trabalho e este do acarajé. No entanto, durante a Copa, evento que poderia render um dinheirinho extra, elas terão que arrumar um outro canto. O Comitê Organizador Local promete se reunir com representantes da ABA ainda no início desse mês para chegar a um acordo.
A pouco mais de 1.350 Km de Salvador, outra capital, Belo Horizonte, passa pelas proibições e imposições de Jerome Valcke - secretário geral da Fifa - e Joseph Blatter - seu atual presidente. A última foi a famosa "Festa da Itália". Tradicionalmente realizada nos primeiros dias de junho na região da Savassi - uma das áreas noturnas mais movimentadas de BH -, a festa só aconteceu após uma autorização dos gestores da Fifa, já que a instituição não permite festas locais próximas a seus eventos.
Outro problema ainda maior, agora esquecido, foi o da remoção de famílias em locais próximos a estádios da Copa. São Paulo, Porto Alegre, Natal, Belo Horizonte, dentre outras, desalojaram milhares de pessoas em prol da modernização e construção de vias expressas e outras obras que visavam a melhoria do trânsito. Entretanto, muitas delas ainda não foram concluídas - caso do BRT, também conhecidos como corredores para ônibus, em BH - e muitas famílias ainda não receberam a indenização do estado por terem perdido seus lares. No Rio de Janeiro cerca de 2,4 mil famílias haviam sido removidas, em São Paulo outras 200 viveram por seis meses entre os escombros de suas residências demolidas. Um estudo produzido por professores do IPPUR/UFRJ (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano Regional ) menciona que no Rio a transferência de pessoas está ligada não somente a liberação de áreas para obras esportivas e afins, assim como melhorias de favorecimento coletivo, mas "tem como um componente importante a expulsão dos pobres das áreas valorizadas, como o bairro da Barra da Tijuca e do Recreio, ou que serão contempladas com investimentos públicos, como os bairros de Vargem Grande, Jacarepaguá, Curicica, Centro e Maracanã". Ou seja, interesses de terceiros, muitos deles imobiliários, regem as escolhas políticas sobre os eventos esportivos no Brasil. Outro apontamento interessante que aparece no relatório diz sobre o local para onde as famílias são levadas. Neles não há qualquer benefício ocasionado pelos futuros eventos.
Por que não nos rebelamos?
Tempos atrás lendo a tese de doutorado de um nobre amigo e mestre, o professor Victor Leandro, me deparei ainda no começo da obra como uma frase reveladora. Reproduzi a mesma no início do texto*. Vemos, portanto, tudo acontecer à nossa frente. Os jornais noticiam, as falcatruas aparecem e nós continuamos nossa vida, já que o calo não apertou no nosso pé e a pimenta não ardeu em nossos olhos. Entretanto, é comum a indignação quando sabemos de tais atos, contudo, ela se resume ao papo da mesa de bar ou a uma nota de indignação em nosso perfil do Facebook.
Ora, então por que não nos rebelamos junto às Baianas do Acarajé ou aos moradores sem teto? De repente é porque estamos mais preocupados com o último 2 x 2 contra a Inglaterra ou porque o Felipão não levou o Ronaldinho Gaúcho. Talvez porque estamos na fase do relativismo de galocha: Ah! Sempre foi assim. Sempre vai ser. Nada adianta, todo mundo que está lá é corrupto. Ou pelo momento razoável de estabilidade financeira pelo qual passam os brasileiros, cada qual com seu carro e sua televisão de LCD. Penso que tudo isso contribui para nossa temperança, mas ainda acredito que existem muitos indignados adormecidos. Esperando o momento para lutar por um Brasil mais justo e mais igual onde o garoto peladeiro tenha escola de qualidade, comida e acarajé em abundância, um teto digno para morar e sonhar. E por que não? Um bom futebol para torcer e jogar.
* Obra citada: Gomes, Victor L. C. Modus Vivendi: a era da aquiescência no capitalismo tardio. 2008. 211 f. Tese (Doutorado em Ciência Política) - IUPERJ, Rio de Janeiro, 2008.
> Rafael Clemente é historiador e cientista social, tem estudado o futebol e as torcidas organizadas
