(Foto: Reprodução/Internet)
Câmeras, sem manutenção, não funcionavam
e o GPS da viatura que o levou pra lá,
literalmente, foi pro espaço
Leonor Vieira-Motta
Das janelas de um prédio no centro de Itaboraí não se pode ver a baía de Guanabara, mas ela está ali, bem pertinho, unindo suas águas às mesmas águas vistas das janelas do Vidigal, e delas também podemos ouvir o chamado por Amarildo.
- Amarildo!
Desde que foi levado por policiais para averiguações na Unidade Policial Pacificadora da Rocinha, bairro em que mora com a mulher e os seis filhos, o pedreiro não foi mais visto. No tal posto policial, as câmeras, sem manutenção, não funcionavam e o GPS da viatura que o levou pra lá, literalmente, foi pro espaço! Sem esses dispositivos, impossível saber quando ele entrou, quando ele saiu, ou... se ele entrou ou se ele saiu!
Diante desse histórico de descasos, a pergunta que não quer calar grita, grita, grita até fazer eco para além do Leme ao Pontal e do Oiapoque ao Chuí.
- Cadê o Amarildo?
Várias são as hipóteses sobre o seu paradeiro e eu ousarei mais uma com inteira isenção de comprová-la futuramente. Tamanha ousadia se move pela mais sincera vontade de ver esse fato ultrajante elucidado - ao vivo e em alto e bom som - pelas autoridades governamentais ou quem sabe, até por ele mesmo, o Amarildo, vivinho de Souza.
Para mim, o Amarildo, no interior do contêiner, cansado daquele ambiente sem liberdade, igualdade e fraternidade, resolveu colocar a mão na massa, construiu um túnel - túnel do tempo - e voltou a Paris do ano de 1789. Afinal, coincidentemente, ele desapareceu no dia 14 de julho, na horinha em que a Bastilha estava sendo tomada e pode expressar toda a sua indignação - como se essa fosse a última obra que na vida ele pegava por empreitada!
> Leonor Vieira-Motta é integrante da Academia Voltarredondense de Letras (sementesdolacio@hotmail.com)
