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"Uma noite na lua": um homem em cima do palco p-e-n-s-a-n-d-o

Gregório Duvivier mostra sua maturidade e talento representativo ao interpretar um homem quase enlouquecido após ver-se sem seu amor

Artigos  –  18/09/2013 17:43

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(Foto: Divulgação)

iluminação cenográfica centrada apenas no personagem, deixando
o restante do palco às escuras, explora a ideia de que deve-se iluminar
o que está dentro da cena, a reflexão, o pensamento, o eu profundo

Renato Barozzi 

Fui ao teatro assistir à peça "Uma noite na lua". Um monólogo com Gregório Duvivier, cujo texto e direção são de João Falcão. Impressionou-me, pois, desde "O estrangeiro" de Camus, não vejo uma inteligência austera que oferece certa "imobilidade que pudesse dar maior ênfase à palavra, para que a palavra se tornasse física, concreta".

Gregório é enfático na afirmativa: "um homem em cima do palco pensando". Ele a repete como premissa. Ele a exalta como fundamental. De fato, (P)pensar - no momento histórico em que tão poucos pensam e, ao contrário disso, buscam o refrigério na solução imediata, nas frivolidades interconectadas e no entretenimento nauseabundo - "é privilégio de maduros". E para sê-lo não importa a idade.

O jovem Gregório mostra sua maturidade e talento representativo ao interpretar um homem quase enlouquecido após ver-se sem seu amor e impedido psicologicamente, dada sua submersão emocional, de trabalhar. Sua cabeça é invadida por tentativas de explicar o que de fato aconteceu, esboça pretextos, se agarra a esperanças, faz devaneios silogísticos e experimenta novas molduras estéticas. Tudo no intuito de encontrar uma resposta.

Sua aflição se assemelha a uma broca autopenetrante. Um inseto a zumbir em seu ouvido por toda noite enquanto suas mãos estão amarradas sem poder detê-lo. Sua inquietude revela o quão importante é o exercício de se auto conhecer. Pensar, pensar e pensar; tudo em prol da ciência e da consciência de si mesmo.

Gregório não sucumbe à verossimilhança. Em alguns momentos ele até rejeita a culpa e experimenta um falso alento, pois joga no colo de Berenice toda a responsabilidade pelo fracasso. Mas no instante seguinte ele volta a se olhar no espelho. A própria iluminação cenográfica centrada apenas no personagem, deixando o restante do palco às escuras, explora a ideia de que deve-se iluminar o que está dentro da cena, a reflexão, o pensamento, o eu profundo, "o homem em cima do palco pensando".

Isto me lembra Arnaldo Antunes:

Em volta de um assunto
Uma lente
Depois de cada luz
Um poente
Para cada ponto
Um olhar
Rente

E a montanha insiste em ficar lá
Parada
A montanha insiste em ficar lá
Para lá
Parada
Parada.

Cada um de nós tem seu próprio palco, púlpito, pedestal ou estrada onde nos despimos e nos despojamos numa autoimolação psicológica atrás de respostas e entendimentos. É claro que uns mais e outros menos. Para ilustrar a variação do grau de compromisso que as pessoas têm consigo mesmas, cito o próprio espetáculo. Enquanto alguns tentavam captar o sentimento daquele homem aflito em cima do palco, emulando uma fruição que permitiria aos nossos sentimentos se aproximarem da perfeição, muitos faziam tilintar seus saquinhos de biscoitos chulezentos. Outros comiam pipoca como se estivessem a assistir um blockbuster, se entretendo e consumindo. Houve um incauto cidadão que se engasgou com aquela casquinha do milho da pipoca e tossiu a peça inteira. Havia também algumas "gregoretes" que foram somente para fazer ecoar risinhos nervosos e flashes de seus equipamentos lotados de megapixels de alta resolução.

Não ser o "homem em cima do palco pensando" é fácil, leve e divertido, ao mesmo tempo em que é degradante, irracional e anti-humano não imiscuir-se nos recônditos da alma e do pensamento. O natural para a humanidade é a busca de soluções. A vida pode passar, mas nós não devemos ser seus passageiros.

Parafraseando Mário Quintana, numa citação adaptada, eu diria: todos que estão aí, atravancando o pensamento. Eles passarão. Eu passarinho. 

> Renato Barozzi é administrador, professor, historiador, bancário, cronista e integrante da Academia Voltarredondense de Letras

Por Redação do OLHO VIVO  –  contato@olhovivoca.com.br

1 Comentário

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  • Cristiane Filgueiras

    Muito bom este texto! Realmente fiquei impressionada com a profundidade da peça e a capacidade do autor de expressar a complexidade da mente humana diante de profunda aflição. Vale a pena assistir. IMagino como não deve ter sido melhor ainda quando encenada pelo Marco Nanini>