(Foto Ilustrativa)
Mesmo sem querer, uma hora ou outra a gente
perde a aposta, como nesses jogos de azar
Hugo Dalmon
Se eu quero me apaixonar? Você pergunta. Claro que eu sempre vou dizer que não! Eu não quero, porque um dia a paixão vai virar amor e o amor é algo que só gente nobre deve sentir. Eu sei que pareço desesperançoso, talvez, melancólico, mas o amor é pra quem merece, mas não digo merecer no sentido de ser uma alma cristã e bondosa que conquista uma recompensa. Digo merecer de conseguir no cotidiano se ajeitar entre as dores. E eu não sou merecedor, pois não sei me ajeitar entre dores, me incomodo fácil com qualquer espinho numa rosa linda. Assim, me apaixonar já me deixa triste! O frio na barriga que a paixão provoca é o mesmo que uma adrenalina quando corremos perigo.
Já não tenho mais forças pra imaginar uma paixão, jantares divertidos, piadas íntimas forçosas e vontades extremas e inexplicáveis de estar e ser presente ao ponto de provocarmos anulações cotidianas. Você pode perguntar quantas vezes você quiser: "Você quer se apaixonar?" e eu sempre vou responder com o peito cheio de ar que não. Não quero tentar me ajeitar entre dores, não quero passar horas trocando mensagens no celular, não quero ligar cinco vezes ao dia pra falar qualquer bobagem, não quero dividir lençóis, não quero bebida barata, nem carinhos maliciosos em meio à madrugada! Porque pra tudo isso devemos estar dispostos a entrar na etapa do amor e o amor é apenas para os nobres! E pessoas nobres não escrevem, porque ninguém gosta de ler sobre amores felizes, tanto que toda história de amor acaba quando estão todos felizes, e eu gosto de escrever.
Eu, realmente, não quero me apaixonar. Embora eu saiba que o perigo seduz o ser humano ao ponto de aprendermos a andar. Eu não quero me apaixonar, porque cansei do ciclo vicioso, porque cansei... Mas, no fundo, bem lá no fundo, eu sei que, mesmo sem querer, uma hora ou outra a gente perde a aposta, como nesses jogos de azar!
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