(Foto Ilustrativa/Aquarela em Cores)
Marchinha ufanista repetia à exaustão
nas rádios tentando ocupar
"geopoliticamente" ouvidos e mentes
Leonor Vieira-Motta
O ano era o de 1970, o futebol daquele domingo, de Copa do Mundo, Brasil versus Inglaterra. Vitória brasileira difícil aquela, sofrida, um tento a zero!
O único gol, o decisivo da partida surgiu de uma jogada com leveza de brisa atingindo a meta com energia avassaladora de furacão. Depois de driblar três jogadores ingleses, Tostão passou a bola para Pelé que num passe genial a lançou para Jairzinho chutá-la zunindo no canto esquerdo da rede adversária.
Diante dos televisores, famílias inteiras não só assistiram a esse e aos outros jogos até a conquista do tricampeonato mundial pela seleção brasileira no México, como viveram naquele período ditatorial uma clandestina esperança de liberdade.
Na final, enquanto eu me encantava com a invasão afetuosa das centenas de sombreros coloridos no gramado do estádio, peguei carona num comentário de gente grande e registrei na minha memória de adolescente principiante o que diziam: Pelo menos essa alegria não é um milagre da economia! Ou é?!
Desde aquele outono nebuloso com um inverno cor de chumbo à espreita (a decisão da Copa se deu em 21 de junho) fiquei atenta ao disse me disse, ouvido e lido, aqui e ali, sobre atos institucionais, movimentos estudantis, presos políticos, pessoas torturadas, desaparecidas e mortas.
Não obstante a marchinha ufanista repetida à exaustão nas rádios tentando ocupar "geopoliticamente" ouvidos e mentes, a partir de 1964, muito coração verde, amarelo, branco e azul anil sangrou aqui e no exílio.
> Leonor Vieira-Motta é integrante da Academia Voltarredondense de Letras (sementesdolacio@hotmail.com)
