(Foto Ilustrativa/Gil Santos)
Olhares estão vidrados na tela do
smartphone e os dedos no ícone do WhatsApp
André Aquino
Não se paquera mais como antes: a troca de olhares na recepção de um consultório, uma piscada disfarçada na fila do banco. Ou pedido do nome da dona do cachorro no passeio matinal. Jamais. Isso é tão antigo como vinil, ficha de orelhão, Atari, Kichute e caramelo Nestlé. Nem tente. O alvo da cobiça carnal não vai te dar a mínima: os olhares estarão vidrados na tela do smartphone e os dedos no ícone do WhatsApp.
Os mais ousados hoje conseguem chegar perto e dizer: "Qual o seu nome? E me passa seu Whats". Nem o número do telefone se pede mais, perdendo a magia da ligação do dia seguinte ou o frio na barriga ao ouvir do telefone tocando logo pela manhã.
As cantadas não são mais aquelas bregas do tempo das nossas avós, cara a cara. Com direito a tapa na cara, às vezes. Hoje são à base de Ctrl C, Ctrl V de textos sagazes de Caio Fernando de Abreu e Tati Bernardi.
As cartas de despedidas não têm mais as manchas de tinta borradas por lágrimas, nem havia a ausência de vogais em frase codificadas e inelegíveis aos mais antigos: "Tmj mo".
Hoje, os raros encontros românticos de casais não há juras de amor e planos futuros dos casais, o pedido não é de casamento é para curtir, comentar e compartilhar mais uma foto. As brigas homéricas dos casais não são mais pelas olhadinhas descaradas para o bumbum da moça da mesa ao lado, mas a falta de explicação da última visualização no Whats.
Me pergunto onde foi parar a única coisa que realmente importa e é de verdade nesta vida: a tal da química? Da próxima vez que te pedirem o endereço, não fale em underline, arroba, ponto com, ponto br. Ou 9999... Escreva num guardanapo para que a pessoa desejável conheça a imperfeição natural da letra escrita a mão, sem os disfarces das fontes do Word. Ou dos teclados inteligentes dos celulares.
Escrito a mão é tão romântico quanto um buquê de flores.
> André Aquino é jornalista
