(Foto Ilustrativa/Sunday Cooks)
Desejo de dirigir vence o medo do trânsito
pesado da hora do rush e atropela dificuldades
André Aquino
Ajeite o banco. Arrume os três retrovisores, mesmo que não precise. Coloque o cinto. Chave na ignição, seta pra cima, engate a ré. Não esqueça o freio de mão, perde dois pontos. Não tire o pé da embreagem. Olha as marcações nos vidros laterais e traseiro, mas não deixe examinador ver. É um teatro. Vira o volante todo para a esquerda, vai com calma. Desfaz. Isso, isso. Muito bem. Tem que ir com calma, mantém o equilíbrio. Você consegue. Estacione. Agora pode tirar o carro da vaga.
Dirigir é uma arte. Manter o carro parado numa ladeira requer equilíbrio emocional, ainda mais quando há um motorista de coletivo mal amado atrás (todos os condutores de ônibus deveriam fazer sexo antes de ir trabalhar; isso tem que ser obrigatório por decreto presidenciável). Conciliar embreagem, acelerador e freio requer raciocínio rápido, até que isso vire um ato automático como dar sinal para embarcar em um táxi. Andar cem metros sem esbarrar em nenhum obstáculo é triunfo só para os vencedores.
Eu sei, eu sei... É o velho chavão: "nunca é tarde para começar", "a vida é feita de novos desafios". Mas eu tô gostando desse negócio de tirar carteira de motorista depois dos 30. Me sinto um garoto de 18 querendo logo pegar o carro do papai para passar na saída do colégio só para "tirar uma onda" com as menininhas. Mas, no meu caso, balzaquiano de carteirinha, habitação deixa de ser mimo de adolescência e passa ser uma necessidade motivada pelo sentimento "não posso ficar pra trás". Pura vaidade, admito.
O maior desafio será encarar os homens de colete do Detran. Já passei por isso, alguns anos atrás, foi tão traumático ouvir: "Pare, pode descer do carro". O desejo de dirigir vence o medo do trânsito pesado da hora do rush e atropela inconvenientes e dificuldades.
A habilitação não será a segunda via de minha carteira de identidade. Vou usá-la. Primeiro ato como mais novo motorista da praça: procurar uma blitz da lei seca. Soprar o bafômetro e tirar um selfie, claro. Alguém deixa ser o motorista da rodada?
> André Aquino é jornalista
