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Meu Melhor Amigo

Quando estou fraco então sou forte

O problema da morte é que ela enseja questões outrora ignoradas; emergem, como borbulhas na água fervida, perguntas que nunca foram feitas

Artigos  –  26/04/2015 10:33

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(Foto Ilustrativa/Vagalume)

Não quero morrer levemente pensando no que

não foi dito, quero sorrir toda manhã lembrando

de no ssas brincadeiras

 

Publicada em: 11/04/2015 (14:52:15)
Atualizada em: 26/04/2015 (10:33:47) 

Renato Barozzi Cassimiro 

Estive ausente por um período. Levei uma rasteira da vida que me lançou ao chão e me quebrou as duas pernas. Não pude me levantar. Não podia andar. Fiquei estacionado.

Eu, que sempre usei de ironia para abrandar o turbilhão diário de acontecimentos que nos afastam do cerne e da alma, acabei sendo vítima da ironia mais insossa que poderia ser reservada a mim. A ironia de ganhar um concurso de poemas tendo escrito versos sobre a amizade, justamente no momento em que o destino, sem senso de humor, me tirou meu melhor amigo.

Não queria escrever, não me concentrava para ler, perdi a vontade de falar. Momentos de silêncio e reflexão, os quais eu sempre cultivei, transformaram-se em tortura. Me agarrei no que tenho de melhor para não sucumbir, minha esposa e meus filhos.

Hoje já estou andando novamente. Correr a toda velocidade será questão de tempo também. Preciso assumir responsabilidades. Preciso desenterrar os talentos. Preciso encarar o mundo lá fora sem temer as lufadas que tentam me derrubar. Preciso enraizar meus pés, abrir o peito e dizer: "quando estou fraco então sou forte".

O problema da morte é que ela enseja questões outrora ignoradas. Emergem, como borbulhas na água fervida, perguntas que nunca foram feitas. Reconstruímos mentalmente momentos que já achávamos compreendidos e consolidados. O que era certo torna-se dúvida e o que era dúvida torna-se certeza.

A morte podia permitir uma "visita íntima", ou um diálogo derradeiro, pois ficamos sem bússola, sem GPS, sem referência, o interlocutor se foi e já não será possível obter respostas para perguntas que nunca foram frequentes, mas que sempre fervilharam no recôndito de uma alma perambulante. Ouvir a sua voz e poder conversar contigo mais uma vez seria um bálsamo que me ungiria de paz para todo o sempre.

As vias para o aprendizado, o amadurecimento e a evolução humana às vezes parecem tão insanas e desproporcionais ao que podemos suportar. É como estar num labirinto tortuoso e incompreendido, mas que, mesmo na aflição de estarmos presos, sabemos que encontraremos a saída.

Esse: "eu não quero entrar ali, mas tenho que entrar, pois do outro lado está a recompensa", é tão infantil.

O problema é que não somos mais crianças. Não há ingenuidade. Os compêndios de educação infantil que delimitam a ação dos pais e as prováveis reações dos filhos não se aplicam a nós. Já nos tornamos complexos demais para isso. Já nos endurecemos, ficamos egoístas, premeditamos, cometemos maldades, perdemos a maleabilidade do barro. Somos um bibelô de cerâmica exposto na sala, lutando pelo lugar de maior status na estante e empurrando para o canto qualquer peça de decoração que insista em tomar o lugar ao lado.

Enquanto escrevo, escuto "Killing me softly" na voz de Frank Sinatra. Música que me afaga e maltrata. Vejam parte da tradução: 

Me matando levemente
Apertando minha dor com os dedos dele
Cantando minha vida com as palavras dele
Me matando levemente com a canção dele
Me matando levemente com a canção dele
Contando toda minha vida com as palavras dele
Me matando levemente, com a canção dele.

Não quero morrer levemente pensando no que não foi dito, quero sorrir toda manhã lembrando de nossas brincadeiras. Quero abraçar minhas crianças e repetir em seus ouvidos as mesmas piadas. Quero inventar apelidos carinhosos. E quando a dor apertar o meu peito, quero sentir o afago de sua mão sobre minha cabeça e ouvir o sussurro quente de seus lábios a dizer:

Te amo.

Levanta filho, pois...

...lá fora há uma cidade a ser conquistada, há um país clamando por justiça e precisando de homens bons, há amizades que precisam ser regadas. Na estante há muitos livros para serem lidos, quilômetros e quilômetros de estrada de asfalto e de terra esperando por sua passagem com pés bem calçados e pernas fortes. Há alguns giga bytes no cartão de memória do telefone móvel querendo ficar cheios de fotos dos melhores momentos dos amores da sua vida. E, lembre-se: este ano você faz 40, a partir de agora a margem de erro diminui, já que o tempo para o perdão e a reconciliação fica mais curto. Portanto, viva bem, viva em paz. "Use protetor solar". Beba com moderação. Durma bem. E quando a saudade quiser te entristecer, compre um presente pra sua esposa e para as crianças e deixe sobre suas camas. Assim você voltará a sorrir.

> Renato Barozzi Cassimiro é administrador, professor, historiador, bancário, cronista e integrante da Academia Voltarredondense de Letras

Por Redação do OLHO VIVO  –  contato@olhovivoca.com.br

1 Comentário

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  • Cristiane Filgueiras Machareth Cassimiro

    Lindo texto! Fico muito feliz e vê-lo escrever novamente!