(Foto Ilustrativa)
Muitas pessoas entopem a rede
com falta de educação, falta de bom
senso, falta de percepção
Renato Barozzi
Geralmente em temas conceituais eu me dedico a aplicar método e formalidade típicos de um pesquisador, mas o rigor aqui será sensitivo. Para assuntos menos táteis e tão voláteis como o do título, acredito que buscar subsídios na intuição e no empirismo seja, “teoricamente”, suficiente para esta “destruição criativa” quase fosfórica na qual me lanço.
O comportamento social em rede pode parecer algo novo, mas na realidade é uma questão que precede a internet. As conexões e comunicações ora feitas ao alcance de um teclado de telefone celular apenas satisfazem de maneira mais intensa necessidades inerentes à humanidade que não quis só comida. As necessidades de fazer-se conhecer, interagir, influenciar, ter voz ativa e persuadir, pulsam com o mesmo desejo de saciedade de uma barriga a roncar.
No mundo em que vivemos, onde se compra de tudo em qualquer esquina, estamos sujeitos a comer porcaria e ter indigestão, tornando-nos, do almoço para o jantar, “humanidade líquida”, quando buscávamos somente saciar nossa elementar necessidade, a fisiológica.
Usando este mesmo princípio e metaforizando-o numa variável explicativa do fenômeno “rede social”, diria que: quando o sujeito sai pelo ciberespaço autorrealizando - ex-po-nen-ci-al-men-te - os sentimentos que citei acima, a ponto de ver-se diariamente como protagonista de um espetáculo, a indigestão passa a ser coletiva e o hospedeiro da mazela crê que as milhares de micro-hecatombes da flatuosidade geral são flashes para a verborragia que ele acaba de escrever na internet ou fogos de artifício para a logorreia que ele acabou de postar no Facebook.
Não se enganem. Esse comportamento pode ser verificado no dia a dia das relações em carne e osso, sendo o meio eletrônico apenas a extrapolação deste ritual, numa abstração absurda da nossa histórica memória genética em prol da agregação e do convívio em grupo.
Eu, que uso transporte público e frequento regularmente supermercados, açougues, shopping centers, Saaras, feiras livres, igreja, campos de futebol, botecos e outros centros de excelência mais, percebo a necessidade que as pessoas têm de falar de suas vidas, de contar seus problemas, de proclamar com emoção seus anseios e dificuldades e, claro, de exaltar vantagens não percebidas a olho nu.
Querem exemplos?
O cara chega numa clínica para pegar o resultado de um exame e a atendente só para ser educada lhe diz:
- Está pronto desde ontem!
Aí o sujeito começa a ladainha denunciante do motivo de ele não ter podido retirá-lo no dia anterior. Um gesto singelo da moça foi profundamente incompreendido pelo boçal que fez a fila crescer uns 20 metros.
Quer outro?
Só vou para a fila do caixa eletrônico armado com um livro ou uma revista, já que a maioria que ali está se comporta como um badalo de relógio de corda. Movimentam-se de um lado para o outro olhando para trás e esperando a primeira oportunidade para falar mal do banco, da fila ou fazer comentários climáticos desatualizados.
Tem mais!
Você entra no ônibus e vê um passageiro que ocupa dois lugares e não está nem aí. Somos obrigados a sentar com meia banda pra fora do assento. Mais atrás estão três “guaravitonzinhos” - pra que pintar o cabelo daquele jeito - cada um ouvindo uma música diferente no seu celular e disputando quem possui o aparelho mais potente ou o que emita o som no volume mais alto. Ao lado, uma senhora amarrada ao meio parecendo uma linguiça de churrasco reclamando do motorista e de sua nora preguiçosa. À frente, um rapaz fala impropérios a sua namorada ao telefone e todo mundo fica sabendo o que ele fez nos últimos três dias.
Pensa que acabou?
Você está na fila do elevador e quando a porta abre uma manada te atropela e entra na sua frente. Você anda na rua tendo que desviar das pessoas que ignoram a física e querem ocupar o mesmo espaço que você. O cara no cafezinho quando te vê insiste em fazer comentários de economia e, eventualmente, comparar o Brasil com a China só porque você trabalha no banco, mas definitivamente ninguém aprende nada com o que ele diz.
O que isso tudo tem a ver com rede social?
Novamente a lógica é a mesma: entopem a rede com falta de educação, falta de bom senso, falta de percepção, fotos e palavras que afrontam a inteligência, deseducam, fazem a gente perder tempo, não ensinam nada, mostram o que não são, dizem o que não sabem, mas alimentam seu ego a ponto de renovar diariamente a indigestão, a azia e a flatulência crônica. Esta última, um sintoma típico de quem fica sentado de frente a um aparelhinho eletrônico colocando caca na internet.
> Renato Barozzi não tem Facebook, Twitter, Orkut e Linkedin. Possui apenas um smartphone com android para rodar seus aplicativos de corrida
