(Foto Ilustrativa)
Zoinho não perdeu para o Neto, mas para
si próprio, sendo vítima de sua ignorância
Renato Barozzi
Já foi teorizado que o bater das asas de uma borboleta no mar da China provocaria uma catástrofe semelhante ao furacão “Sandy” aqui no Brasil. O famoso “efeito borboleta” foi eternizado por Hollywood numa sequencia bastante tensa. A tese se aplica aos mais diversos cenários e ocasiões de nosso cotidiano. Mas o que me interessa mesmo neste texto é usá-la num raciocínio profícuo de causas e consequências “psico-comportamentais” dos eleitores e refletir sobre o desfecho das eleições municipais recém findadas.
A priori, percebo que o efeito multiplicador a que realmente estamos expostos traz muito mais luz e a perspectiva de dias claros ao nosso horizonte do que propriamente destruição e trevas.
Essa percepção tem lastro na aula de ética, justiça e civilidade que o Supremo Tribunal Federal vem promovendo nos últimos dois meses. Os argumentos, as decisões e as interpretações do Tribunal, emanadas na pessoa do relator do processo, o meritíssimo senhor Joaquim Barbosa, são um sopro de brisa e alento que entra pelos poros da sociedade fazendo-nos ter esperança e acreditar que poderemos um dia sair do brejo de impunidade e da falta de educação no qual nos enraizamos.
O recado está dado: lugar de malandro é na cadeia. Vamos acabar com o jeitinho. O: “você sabe com quem está falando?”, terá como resposta vaias altissonantes. Respeito, honestidade e educação valem mais do que qualquer título portentoso.
É claro que sentimos essas coisas ainda como se fora uma simples libélula a nos arejar o rosto com o movimento de suas frágeis asinhas. O que eu quero crer é que o esforço do exercício constante de um comportamento honesto e polido criará um efeito multiplicador para o bem e promoverá o convívio digno e cortês a um povo que, por enquanto, só se insere no mundo moderno pela economia, já que culturalmente vai muito mal.
Joaquim é o nosso “Sandy”, em formação, é claro. No lugar de destruir a Sodoma e Gomorra em que habitamos, ele reconstrói a possibilidade de vivermos num país melhor. E aqueles que ousarem olhar para trás e flertar com o atraso, nós os transformaremos em estátuas de sal. Esse é o verdadeiro recado aos políticos daqui por diante, mas vale também para aquele sujeito que insiste em cortar pela direita.
Esta transformação já se pode sentir na melhora da autoestima do povo e no voto popular saído das urnas há pouco. Como citei no primeiro parágrafo, as eleições municipais já refletem uma mudança significativa de mentalidade. Diferente do que aconteceu há dois anos, nesta eleição alguns “palhaços”, humoristas, carroceiros e candidatos com crachá de ignorantes autênticos não tiveram vez. Esses candidatos vieram na esteira do voto de protesto da eleição de 2010 e encontraram um eleitor com menos senso de humor e mais crítico.
Haddad em São Paulo já é um exemplo de reavivamento da política e do próprio partido ao qual representa, o PT. É um político culto, experiente e distante do radicalismo, cercando-se das melhores cabeças para governar.
Em Volta Redonda, por exemplo, os eleitores sinalizaram sua insatisfação no primeiro turno, deixando claro ao atual prefeito que ele teria que se levantar da cadeira, arregaçar as mangas, desagradar alguns acólitos ineficazes e mexer no tabuleiro para continuar. O prefeito corria o risco evidente de não ser reeleito. Mas, devido ao atropelo conceitual e o atabalhoado raciocínio do opositor na reta final da campanha, acendeu-se a luz amarela e ele naufragou. Resultado: Neto foi reeleito sem complicações. Portanto, Zoinho não perdeu para o Neto, mas para si próprio, sendo vítima de sua ignorância.
Esses são apenas dois exemplos pinçados de um país que tende para o moderno. Ao político não basta apenas transpiração, como num passado recente, mas a capacidade de gestão, planejamento, execução e controle; a competência para liderar e reunir pessoas sensíveis e criativas. É menos carimbo e mais fluidez na comunicação, menos tinta e mais interlocução, menos tradição e mais interdisciplinaridade.
No Rio, o saltitante “Sambarilove”, personagem de um programa de humor, tentou e não levou uma vaga na Câmara. No interior do estado alguns folclóricos candidatos que no passado tiveram significativas votações, ficaram restritos as suas comunidades, enquanto jovens empreendedores, professores e profissionais liberais obtiveram a surpresa da eleição para suas Câmaras Municipais. Temos evoluído.
Também na esfera federal vejo um rompante de ilustração com o programa Ciência sem Fronteiras que pretende, em quatro anos, formar 100 mil jovens nas melhores escolas do exterior. Isso é desenvolvimento. Feito isso, começaremos a sair da armadilha de pensar em somente facilitar o crédito e fomentar o consumo de maneira insustentável. O povo precisa mesmo é de educação.
Portanto, meu otimismo pode parecer piegas. Logo eu, que nunca cultivei tanta euforia assim pelo Brasil. Mas, sinceramente, vejo que o que desponta logo ali ao longe não é “a” “Sandy” em cima de um trio elétrico, mas, o Chico Buarque num carro abre-alas acompanhado da Geni e da bateria da Mangueira cantando: Vai passar.
Em tempo: “Se o mundo não melhorar com mais quatro anos para o Obama, pelo menos piorar não vai. Dá-lhe Barak”.
> Renato Barozzi é administrador, professor, historiador, bancário e cronista
