(Foto Ilustrativa)
Está muito difícil competir com o saradinho
Renato Barozzi
Descobri que a minha mulher tem um amante! O pior de tudo é que eu que o apresentei a ela. Chegou de mansinho, com seu jeitão persuasivo, e dominou-a. Sinto que agora ele quer fazer o mesmo comigo. Além de ter a minha mulher, agora ele “me pede” também todas as noites e fins de semana.
Realmente não sei o que está acontecendo comigo. Num caso comum de adultério eu já estaria numa cela especial, já que tenho curso superior. Mas, neste caso, o amante até mesmo janta conosco à mesa todas as noites e eu não faço nada. Já conquistou até a minha filha, que dedica mais atenção a ele do que a mim. O bonitinho “me impede” de desfrutar da plenitude da minha família e eu, depois de tudo isto, ainda tento me tornar mais íntimo dele.
Quando vamos para a cama após o jantar, eu estranho se o danado não nos acompanha, pois me acostumei ao diálogo que desenvolvemos a três antes de dormir.
O intruso conseguiu a façanha de acompanhar minha esposa a lugares que eu nunca obtive a permissão. Ele viaja com ela a trabalho, enquanto eu fico em casa cuidando das crianças. Até mesmo no banheiro ele já entrou. Lugar até então de meditação solitária para ela. O descolado está conseguindo a façanha de conquistar até mesmo a minha sogra. Meu sogro nem se fala, se ele pudesse, dormiria com o moderninho.
Está muito difícil competir com o saradinho. Ele tem uma memória fabulosa, aborda vários assuntos ao mesmo tempo, faz rir, interage o tempo todo, é bonito, não apresenta problemas, está sempre disposto, resolve múltiplas pendências pessoais e profissionais. É o companheiro perfeito, pois além de fazer tudo isto ele não dá um pio sequer e não reclama de nada.
Penso que o único motivo de eu tolerar o sacana é a sua condição de assexuado. Fato que possui implícita uma armadilha perigosa. Como o engomado nos arrebata qual um ilusionista, corremos o sério risco de deixarmos de existir como indivíduos, e o primeiro sinal disto é nos tornarmos também assexuados como ele.
Preciso tomar uma decisão no jantar de hoje. Como pode um estrangeirinho tomar conta da minha casa deste jeito. Vou pedir a palavra e colocar limites. Não vai adiantar nada dizer ou eu ou ele, pois corro o risco de ser preterido. Vou tratá-lo como um cachorro e dizer a todos: a partir de hoje o lugar do iPad não é na cozinha, nem no quarto e nem na sala, mas no escritório.
Cumpra-se!!!
> Renato Barozzi tem restrições quanto às redes sociais, mas adora o iPad. Ele está sofrendo também com sua própria decisão arbitrária.
