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O Problema dos Mesmos Padrões

A força da literatura infanto-juvenil

Livros infantis não estão impulsionando o caráter lúdico das crianças e jovens; literatura tem que levar à reflexão e isso deve surgir desde a infância

Artigos  –  05/11/2016 12:56

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(Foto: Divulgação)

“A lei do mercado é a literatura fácil, cheia de

obviedades; a literatura tem de problematizar”

 

Alexandra Vieira de Almeida 

Um livro destinado às crianças jamais deve demonstrar fraqueza, falta de poeticidade e riqueza literárias. Infelizmente, observamos um filão de livros infanto-juvenis que não impulsionam o caráter lúdico das crianças e jovens. 

A literatura para os pequenos acabou seguindo os mesmos padrões da literatura adulta, ou seja, a lei do mercado, da literatura fácil, cheia de obviedades. A literatura tem de problematizar, levar a reflexões e isto deve surgir desde a infância. Os pequenos têm de desenvolver suas potencialidades imaginativas sendo aceleradas à medida que eles crescem. 

Quando jovens, encontramos a fase de transição para a vida adulta e à literatura cabe o papel de transformação, de indagação face aos problemas do mundo. Deve revelar a beleza, a magia, mas também as doses de ironia juntamente com a leveza do poético. Porque a poesia não está só nos versos, também está na prosa. Ambos se misturam. Esta é uma visão tradicionalista, ver o texto somente por uma face. E a outra, a do enigma? 

Podemos nos reportar ao texto “Pausa”, de Mário Quintana em que este revela que o escritor tem de lançar desafios ao leitor, provocar enigmas. E o que temos? Uma enxurrada de clichês e lugares comuns que não satisfazem a potencialidade do literário, este sim criador das imagens vibrantes, ricas e impactantes. 

Aprendi com um professor de filosofia que para o texto literário demonstrar sua riqueza deve revelar imagens inusitadas e não esperadas, sugerir e não esclarecer. Após suas palavras, mudei o jeito de escrever não seguindo as linhas mais básicas da vida como vestir uma simples camiseta. Preferi optar por costurar os véus da admiração filosófica, o espanto e a surpresa de que tantos filósofos falaram, o “thauma” dos pensadores.

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Do simples, do corriqueiro, do cotidiano, o escritor pode construir o sublime, o grandioso, o monstruoso, que é a própria força do literário unido ao dom de “enigmar”, pois a literatura não pode estar separada da filosofia, sua prima em indagações.

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É preciso construir uma geração de pequenos questionadores. Cabe ao escritor tirar do mais simples o original, novo e enigmático. Portanto, a literatura infanto-juvenil tem de tirar esta fraqueza dos pequenos, seus mimos, seus doces facilitadores e incutir neles a força da inventividade poética para saírem de sua fase de sonolência para o acordar das questões e das criações, sendo eles mesmos uns inventores de mundos possíveis e impossíveis. 

> Alexandra Vieira de Almeida é escritora e doutora em literatura comparada (Uerj)

Por Assessoria de Comunicação  –  contato@olhovivoca.com.br

1 Comentário

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  • José Huguenin

    Esta é uma discussão importante e concordo com com os principais pontos levantados pela Dra Alexandra. Contudo, talvez, a solução não seja escritores mudarem seu jeito de escrever. Será que a questão não é o que as editoras escolhem para publicar? Será que todos os escritores produzem clichês ou somente clichês são escolhidos para serem publicados? Outra questão a ser feita é que uma editora vai priorizar o mercado. Creio que se o "mercado" para tais obras é o que funciona economicamente, não devemos esperar que as Editoras se movimentem para amadurecer os leitores publicando a qualidade desejável. Tal amadurecimento deve vir da educação. Mas como mostrar o que está escondido? É uma equação de difícil solução. Não há que se desistir, contudo, da busca pela solução.