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Ideias Fantasiosas

Paris é uma festa! Mesmo para os que não foram convidados

Os políticos brasileiros acham-se ilustrados por lá, mas o que proferem se compara "às notas do subterrâneo"; são autodestrutivos

Artigos  –  06/01/2013 20:30

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(Foto Ilustrativa)

Paris é como comprar uma roupa de grife;

ela não resolverá os seus problemas, mas

fará você se sentir muito melhor

 

Renato Barozzi 

Paris é uma festa, como já dizia Hemingway; e deve mesmo ser uma cidade encantadora. Lá as pessoas ficam eufóricas, loquazes e realizadoras. É como se uma brisa constante enchesse de ar os pulmões dos visitantes a ponto de terem fôlego para saírem falando, falando e falando. Propagam ideias fantasiosas, inspirados talvez nos áureos anos 20 do século passado. 

Paris provoca nos marmanjos o mesmo efeito arrebatador que os parques temáticos da Flórida provocam nos mais jovens. Em Paris, assim como em Orlando, as pessoas se pensam super-heróis, potentes, revitalizados e capazes de conquistar o mundo. 

Às vezes até chego a pensar que aquilo que Woody Allen retratou em seu filme “Meia noite em Paris” possa mesmo acontecer com os visitantes da Cidade Luz. Inebriados que ficam com a atmosfera vibrante, a sensação de pertencer ao mundo, a modernidade impregnada de história, arte e liberdade. Funciona mais ou menos assim: só pelo fato de estar em Paris a pessoa se torna uma celebridade. 

Não vivi isto na pele ainda, mas a percepção que tenho desses "sintomas parisienses" se fundamenta no comportamento de alguns conterrâneos nossos que, quando por lá estão, viram notícias. 

Em 2005 foi de lá que Lula, num rompante doutrinário jurídico, como se estivesse a escrever uma peça, lançou a versão do caixa dois para o mensalão. Além de safar-se, ele colocou todos os partidos no mesmo saco. A mensagem foi apreendida pela maioria a ponto de verem ele próprio e o PT como vítimas de um sistema corrompido. Foi tão criativo quanto os maiores ficcionistas do passado que tiveram em Paris seus momentos de maior inspiração. 

As pessoas ficam tão felizes em Paris que se esgotam em festas como se fossem a última. Lembram dos secretários do Cabral? Até mesmo Dom Pedro I desfilou por Paris entre 1831 e 1832, figurando nas primeiras páginas dos jornais e frequentando nobres mesas de bilhar. 

Mais recentemente, nossa “presidenta” Dilma esteve por lá. O arroubo foi imediato. Em meio ao caos intermitente do nosso sistema aéreo, Dilma descolou-se da realidade e; tomada pela mão por fantasmas clássicos que rondam os becos de Paris, tais como Fitzgerald, Hemingway, Pound, entre outros, deu asas ao seu enrustido realismo fantástico dizendo que faria 800 aeroportos regionais no Brasil. Isso mesmo, oi-to-cen-tos. Uma mulher tida até então como símbolo do racionalismo e austeridade, de repente, se deixa levar pela aura criativa, literária e sonhadora de Paris. 

Pode ter sido até mesmo um engodo. Outra característica da atmosfera parisiense. Por ser tão sedutora, a cidade potencializa nas pessoas a sensação de poder. Isso as deixa automotivadas, eufóricas e afoitas, a ponto de atropelarem a razão e a coerência com palavras e pensamentos grandiosos. 

Para reforçar minha tese sobre a "alma encantadora das ruas" de Paris, tomo emprestado uma definição do "grande" cronista João do Rio, na qual ele diz: "Essas qualidades nós as conhecemos vagamente. Para compreender a psicologia da rua não basta gozar-lhe as delícias como se goza o calor do sol e o lirismo do luar. É preciso ter espírito vagabundo, cheio de curiosidades malsãs e os nervos com um perpétuo desejo incompreensível, é preciso ser aquele que chamamos flâneur e praticar o mais interessante dos esportes - a arte de flanar". 

Definitivamente, "espírito vagabundo cheio de curiosidades malsãs" não falta aos políticos brasileiros que vivem a flanar por Paris. Fazem do lugar palco para o mundo e desandam a falar de coisas que não existem. Pensam que estar longe dos holofotes e em liberdade é o suficiente. Na Cidade Luz, eles são trevas. Kant os chamaria pelo nome e os desmascararia com a sentença: "nas trevas, a imaginação trabalha mais ativamente do que em plena luz". Os políticos brasileiros acham-se ilustrados em Paris, mas o que proferem se compara "às notas do subterrâneo". São autodestrutivos. 

A fim de concluir, li na coluna do Ancelmo Gois que o ex-senador Demóstenes Torres foi visto jantando num dos restaurantes mais caros de Paris, muito bem acompanhado. Seria sua redenção? Perante os eleitores é claro que não, mas para sua própria consciência, este flanar o revigora e ele se sente o mesmo poderoso de sempre. É como se ainda desse as cartas no submundo dos corredores escuros do Congresso brasileiro. 

Enfim, Paris é como comprar uma roupa de grife. Ela não resolverá os seus problemas, mas fará você se sentir muito melhor. 

> Renato Barozzi não conhece Paris, mas também gosta de flanar por aí

Por Redação do OLHO VIVO  –  contato@olhovivoca.com.br

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