Publicidade

Aguás Quentes

Quarta Revolução Tecnológica

Para superar desigualdades

O futuro parece distópico; nele nossas diferenças são objeto das mais variadas formas de discriminação, exclusão e violência; esse novo senso não compartilha nada; não preserva a vida, quiçá nossa humanidade e felicidade

Artigos  –  15/10/2018 11:36

7865

 

(Foto Ilustrativa) 

Em um mundo ditado pelo consumismo e o individualismo, tudo se esvazia, perde sentido muito rápido; vivemos uma fome insaciável de novas coisas e experiências; o tempo não cabe em si; nada é suficiente

 

 Regina Bortolini 

“Ciência para a redução das desigualdades” é o tema da 15ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, em 2018, e está relacionado aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) estipulados pelas Nações Unidas, especificamente o de número 10. É o que defende a “Redução das desigualdades”. 

Segundo Rousseau, toda desigualdade se baseia na noção de propriedade particular e na necessidade de poder, que leva seres humanos a subjugar os seus semelhantes. Ela define mesmo a passagem do estado de natureza ao estado civil do homem. A desigualdade existe desde que o ser humano deixou de ser nômade, quando nasceu a agricultura e o processo de domesticação de animais, e lhe foi possível acumular recursos. Em sua luta por poder, em sua ganância por riqueza, homens e mulheres foram escravizados. O capitalismo transformou todas as relações em relações de mercado. Estamos vivendo a quarta revolução tecnológica, mas será que ela permitirá a superação da desigualdade? 

De acordo com o Relatório sobre o Desenvolvimento Humano das Nações Unidas, “os investimentos anuais totais necessários para se assegurar acesso universal a serviços sociais básicos seria da ordem de 40 bilhões de dólares”. “Isto cobre a conta de educação básica, saúde, nutrição, saúde reprodutiva, planejamento familiar e saneamento e água segura para todos", explica o mesmo relatório. 

Para se ter uma ideia do que isso significa, basta compararmos os 13 bilhões necessários para assegurar saúde e nutrição para os pobres do planeta com os 50 bilhões que se gastam em cigarros apenas na Europa, ou os 6 bilhões necessários para assegurar educação básica para todos com os 8 bilhões gastos anualmente pelos estadunidenses apenas com cosméticos. 

Em um mundo ditado pelo consumismo e o individualismo, tudo se esvazia, perde sentido muito rápido. Vivemos uma fome insaciável de novas coisas e experiências. O tempo não cabe em si. Nada é suficiente. O futuro parece distópico. Nele nossas diferenças são objeto das mais variadas formas de discriminação, exclusão e violência. Esse novo senso não compartilha nada. Não preserva a vida, quiçá nossa humanidade e felicidade. 

Por isso, é urgente nos perguntarmos: em tempos em que novas tecnologias podem verificar ao vivo todo o funcionamento do corpo humano, é aceitável que crianças e mulheres negras pobres ainda estejam morrendo por falta de assistência pré-natal, qualidade dos serviços de saúde, saneamento básico e educação? 

Estamos promovendo a nossa 24ª Semana Científica da FMP/Fase, em Petrópolis, de 16 a 19 de outubro, para discutir como a ciência pode contribuir para reduzir as desigualdades sociais. Como construir novas formas de organização da produção e da distribuição de riqueza, de modo a promover de maneira ética e equânime o acesso a todo o potencial que a sociedade tecnológica apresenta. Como transformar as redes tecnológicas que nos enredam em redes solidárias que nos fortaleçam. 

Também vamos refletir sobre o impacto da desigualdade de acesso aos avanços tecnológicos da medicina na saúde das pessoas. Sobre o papel do Estado no fomento à pesquisa de relevância social. E ainda sobre como promover uma sociedade que tome as diferenças como um valor, respeitando-as, valorizando-as e gerando a inclusão social, econômica e política de todos, independentemente da idade, gênero, deficiência, etnia, origem, religião etc. 

Tudo isso porque é preciso falar sobre desigualdades sim! Porque é preciso lutar por uma ciência com mais consciência. E porque, afinal, não somos iguais. 

> Regina Bortolini é antropóloga, professora e presidente da comissão da 24ª Semana Científica da FMP/Fase

_______________________________________________________

Seja o primeiro a comentar

×

×

×