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Ensino

Sagrada aula

Qual será o valor de uma aula presencial? O valor de um tesouro obviamente. Ele está enterrado e só o vemos quando não há mais a passagem do conhecimento de forma real.

Artigos  –  17/09/2020 20:22

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(Foto Ilustrativa)

As aulas virtuais poderiam se parecer como a de um telejornal apresentado por um âncora, onde as pessoas assistem na forma de figuras de uma foto 3x4, ao lado da figura principal, na visão de uma foto de formandos sem o serem ainda

 

Ricardo Yabrudi

Estamos acostumados a que todos estejam atraídos e fascinados por nossa presença. É apenas o ser que acolhe os pesares e aconselha. É uma sina de todos os que querem companhia e tocar com sua sabedoria o interesse dos que querem entender o mundo. A fascinante analogia é o de pensar que somos ímãs e atraímos olhares pelo que somos. Mas algum acontecimento inesperado poderia desligar a realidade e nos transportar a um mundo virtual. Na condição de um eletroímã, a energia elétrica que o alimenta um dia poderia faltar e as peças que se pretendiam a ele se soltariam em fuga.

Mestres podem analogicamente ser essa espécie de eletroímã, onde a energia de atração é variável pelo seu tamanho. Tudo dependerá de uma força eletromotriz, que depende de uma quantidade de energia que os alimenta; suas aulas serão melhores, proporcionalmente, à força dessa energia e seu consumo provocando a atração, o interesse pelo que se é dito. Os alunos e discípulos, também numa analogia ilusória, poderiam ser como limalhas de ferro, pequenos e aderentes, se conformando de acordo com o campo magnético que emana de seu mestre. Nesse campo estariam desenhadas as linhas do saber - como uma “estrutura” em que o aprendizado se dá.

Se houver um apagão, numa história fantástica e ilusória, que poderia durar meses, uma hecatombe faria faltar energia para os eletroímãs. As aulas seriam suspensas e o campo magnético desfeito. O “valor” de uma aula se mede pelo seu campo de força que está ativo. As aulas virtuais que poderiam ser usadas como substitutas dispersariam os alunos porque estão fora de alcance do campo magnético real; não mais um campo de força real. No entanto, baterias seriam usadas para alimentação dos computadores. A energia elétrica move o mundo, como o sagrado move a humanidade.

Qual será o valor de uma aula presencial? O valor de um tesouro obviamente. Ele está enterrado e só o vemos quando não há mais a passagem do conhecimento de forma real. Por que só nos damos conta desse valor após sua perda? Justamente porque não notamos mais a presença viva e real de pessoas à nossa volta - é o sagrado em comunhão que não mais existe. Em uma aula real, um campo magnético está conformado. Existem os passos, o andar, a cor da realidade fulgurante, o azul do céu como fundo de uma silhueta e um mestre que anda pra lá e pra cá - é uma realidade insubstituível, um movimento peripatético aristotélico.

As aulas virtuais poderiam se parecer como a de um telejornal apresentado por um âncora, onde as pessoas assistem na forma de figuras de uma foto 3x4, ao lado da figura principal, na visão de uma foto de formandos sem o serem ainda. A hilariante visão virtual que se apequena, na mão de um celular, ou no computador, é um kitsch. Nessa ilusão, nessa fantástica história, os grandes ímãs foram desligados. O campus está vazio, as flores e as árvores resmungam porque não são mais apreciadas, a natureza na sua quietude ouve o córrego borbulhar se queixando da presença humana. Os corredores agora estão vazios, frios, são paredes brancas minimalistas; um infinito corredor de portas como numa sala de espelhos; pura fantasia. A arquitetura grita em desespero; reclama:

- Por que fui construída?

As galerias do saber estão desertas. A saudade aperta mais. Contudo, mais do que a sede do saber e ouvir de viva voz, é a sede da realidade, aquela que aperta a boca, que espera a sua vez de beber o vinho numa comunhão. Os discípulos estão presentes, cochicham, lembram-se da última aula, da última ceia em que o mestre deu seu sangue em forma de sabedoria e foi-se embora. A última ceia de Leonardo Da Vinci, que está no antigo convento dominicano, conjunto à igreja Santa Maria delle Grazie, se desmancha em seu afresco, sua novidade como nova técnica de pintura se apaga a cada ano. Todavia, porque está se apagando aos olhos, todos a copiam e a reproduzem num kitsch que não se apaga e a colocam em casa, na sala, na parede; o signo de uma saudade. Embaixo, jaz um computador aberto como companhia a esta. Como a imagem do último encontro, símbolo de uma comunhão de ensinamentos, a última ceia de Leonardo consola os discípulos. O valor de uma aula sagrada se simboliza nesta imagem, na ceia que tornará a acontecer quando reunir os discípulos novamente com seu mestre numa sala de aula, para beber de novo o sangue de uma real aliança. 

> Ricardo Yabrudi é músico, arquiteto e assina a coluna de Música do OLHO VIVO

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Por Redação do OLHO VIVO  –  contato@olhovivoca.com.br

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