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"E agora aonde vamos?": nem sempre o alternativo é a melhor opção

Filme apresenta seus personagens de forma rápida e rasa, sempre com muita falação e tentativas forçadas de trazer humor às cenas

Cinema  –  20/02/2013 19:59

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(Foto: Divulgação)

Frustração: Primeira cena do filme é

uma impactante procissão das mulheres

 

Conforme escrevi no meu primeiro texto aqui na coluna de cinema do OLHO VIVO - "Antenado com o circuito alternativo de exibição". Vou escrever sobre um dos filmes que está em cartaz no Gacemss (Grêmio Artístico e Cultural Edmundo de Macedo Soares e Silva), local que vivi grandes experiências cinematográficas em minha vida. O filme "E agora aonde vamos?" conta a história de muçulmanos e católicos que vivem em uma pequena comunidade no Líbano, cujo único elo com o mundo exterior é uma velha ponte, cercada por antigas minas terrestres que jamais foram removidas. O sinal de TV pega muito mal, o que faz com que não tenham muitas notícias sobre o que acontece no mundo. Apesar de a comunidade ser dividida religiosamente, ela vive em paz. Até mesmo a igreja e a mesquita dividem espaço em uma mesma casa. Até que, um dia, os homens da comunidade começam a brigar entre si. É quando as mulheres entram em ação, procurando meios de mantê-los ocupados, de forma que não possam entrar em conflito.

A primeira cena do filme é uma impactante procissão das mulheres dessa comunidade, todas vestidas de preto, algumas cobertas de véus. Carregam fotos dos homens que perderam nessa guerra fútil e seguem numa dança interessante pelo espaço desértico da região, levantando poeira do chão e carregando no rosto a dor e a esperança proveniente da guerra, seguem com essa dança simples, fazem pequenos movimentos conjuntos enquanto batem no peito as fotos dos homens da comunidade. A trilha acompanha bem, dando o peso que a cena se propõe. Teremos um filme interessante com essas mulheres fortes à frente dele, pensei eu.

Trailer legendado de "E agora aonde vamos?"

Maior fraqueza do filme o acompanha até o fim

Mas logo depois dessa cena, o filme já demonstra sua maior fraqueza que o acompanha até o fim. Apresenta seus personagens de forma rápida e rasa, sempre com muita falação e tentativas forçadas de trazer humor às cenas. No início vemos o prefeito da comunidade desengonçado e atrapalhado querendo forçar o riso do espectador. Uma sequência de cenas rápidas do cotidiano daquele vilarejo, mas sem nenhuma profundidade na relação dos personagens, parecem marionetes à margem do que gostariam de ser. Tudo é falado muito rápido e com uma artificialidade que impede o espectador de se aproximar do vilarejo e em consequência dos seus personagens. Querem mostrar a grande confusão e o caos que é aquele lugar, mas não fazem isso de forma que o caos se incorpore de fato ao filme, o caos apresentado é gratuito, simplesmente querendo ser uma grande confusão retratada com bom humor naquele local sofrido.

Depois de mostradas todas as confusões e desordem do vilarejo, temos uma cena da personagem Amal (Nadine Labaki, diretora do filme) com Rabih nos apresentado como o possível casal do filme. Rabih está fazendo obra no café de Amal. Ficam se olhando e em seguida os vemos cantando um para o outro na tentativa de uma cena "musical", como se o "musical" fosse o "pensamento" deles. Uma tentativa de mau gosto e muito rápida para o espectador criar relação com esses dois personagens logo no início do filme.

Ações interrompidas pelos personagens

O filme se movimenta através de ações interrompidas pelos personagens, seja por um esporro, uma brincadeira de mau gosto, ou por um mal entendido besta. Mas aí a confusão está armada e as brigas entre os homens da aldeia começa a ser revelada. Mas sempre partindo dessas besteiras, que não acreditamos e nem achamos graça.

Certas ações dos personagens já são reveladas antes de acontecerem, como na cena em que todos estão reunidos ao redor da TV e os homens querem ver o noticiário e as mulheres, percebendo que isso pode ser um problema, pois ficariam sabendo com mais detalhes da guerra, começam a armar uma confusão entre elas mesmas, um falatório para impedir que eles assistam ao noticiário. Mas antes do falatório delas começar, elas já se olham com olhares previsíveis e em seguida dão continuidade ao plano previamente revelado. Além de tirar a força da cena seguinte, a cena é também enfraquecida pelas atuações exageradas e estereotipadas dessas mulheres. Ao longo do filme, outras tentativas como essa vão ser feitas, mas sempre a partir de uma necessidade de colocar humor nessas mulheres, mas nem sempre funcionam.

Faltam boas atuações

Lembrei de "O Auto da compadecida" (Guel Arraes - 2000) e as peripécias de João Grilo e Chicó por aquele vilarejo. No "Auto" o humor está ali colocado de forma convincente com atuações grandiosas de Matheus Natchergaele e Selton Mello, no caso de "E agora aonde vamos?" são muitos personagens para o filme dar conta e faltam boas atuações para fazer o filme e suas cenas brilharem. Uma atuação que merece destaque em "E agora para onde vamos?" é Claude Baz Moussawbaa, que faz a personagem Takla, que perde o filho Nassim. A morte de Nassim é um bom momento no filme, mas que perde força devido à falta de unidade de direção de Nadine Labaki, que faz uma grande mistura cinematográfica que acaba por afastar o espectador de se relacionar com aquele lugar e seus personagens.

Trailer de "O auto da compadecida"

O filme foi selecionado para a Mostra Un Certain Regard em Cannes. Apesar de não ter gostado, vale a pena para o leitor conferi-lo e tirar suas próprias conclusões, e é assim que vamos mantendo a coluna "viva".

Estou na torcida para "Amor" (Michael Haneke - 2012) entrar em cartaz na região.

Quem é quem no filme

. Dirigido por: Nadine Labaki
. Com: Nadine Labaki, Yvonne Maalouf, Claude Baz Moussawbaa
. Gênero: Comédia dramática
. Nacionalidade: França, Líbano
. Duração: 1h50min

Por Renan Brandão  –  brandao.renan@gmail.com

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