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Premio

Poeta Alternativo

Um marginal das artes chamado Giglio

Ativista social e cultural, artista das artes cênicas, palhaço, poeta e dramaturgo é o entrevistado da semana

Livros  –  19/12/2012 19:08

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(Fotos: Divulgação)

"Minha maior dificuldade é ganhar dinheiro"

 

Ele é ativista social e cultural, artista das artes cênicas, palhaço, poeta, dramaturgo. Um marginal das artes. "Não me apresento, me imponho. Conheça-me você! Ou decifra-me!", diz, e completa: "Não quero mudar meu tipo de escrita, até porque transito bem por todas as formas e estilos. Quero mesmo é mudar o mundo com minha escrita". "Sala de Leitura" bateu um papo com Giglio. Confira:

• Qual seu tipo de escrita?

- Não costumo classificar minhas poesias e escritos, mas gosto de me intitular "Poeta Marginal". Creio que meus micro-contos podem ser classificados como de realismo fantástico-marginal.

• Quais seus escritores favoritos?

- Minhas parceiras da Poesia em Volta, Regina Vilarinhos e Anielli Carraro, Déia Pereira, Ziraldo, Machado de Assis, Pessoa, Saramago, Gabriel Garcia Marques, Charles Bukowsky, Brecht, Shakespeare... A lista é enorme!

• Com que frequência escreve e o que te inspira?

- Todos os dias escrevo ao menos cinco poesias. Tenho escrito também artigos de Opinião, e quando não escrevo meus textos pode ter certeza de que eles saem durante o dia oralmente! O que me inspira é qualquer coisa que me toque. Mesmo que seja coco de passarinho que caiu na cabeça!

• Há alguém na sua família que também escreve, ou envolvida com a arte de alguma forma?

- Fui incrivelmente influenciado por minha avó materna, com seu artesanato e crochê. Via cores, formas e texturas, e isso ficou na minha alma e hoje está no meu palhaço, na minha poesia, no meu teatro, na minha relação com crianças... A boa e velha Avó Cubana me inspirou até nas histórias que contava, como a que aprendeu a ler vendo as marcas dos pés de passarinhos que dançavam para ela na roça!

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"Todos os dias escrevo ao menos cinco poesias;
o que me inspira é qualquer coisa que me toque"

• Quando começou a escrever e quando decidiu mostrar seu trabalho?

- Escrevo desde que aprendi. Mostro desde que um professor leu o que escrevi para as outras turmas de quinta série. Mas só adulto resolvi mostrar mais profissionalmente, escrevendo peças teatrais e postando no Facebook, Orkut e em meu blog, que está perdendo terreno para as redes sociais.

• Sabemos de seus projetos culturais, o resultado deles é positivo? 

- Pouco dos projetos. Se olharmos sob a ótica de transformação da realidade, de intervenção na realidade e sociedade, ou até mesmo como ativismo cultural, não tenho dúvidas de que tem feito diferença sim. Ma sob a ótica do capital... Fracasso total. Ando até pensando em cortar uma orelha! (Van Gogh tá me xingando agora)

• Volta Redonda é uma miscelânea incrível de cultura alternativa que tem de ser escancarada com as próprias mãos, por que esse tipo de arte não é sustentada e nem apoiada pela prefeitura. O que você, falando em nome de seus colegas de trabalho, acha dessa oposição?

- Volta Redonda graças a Jah é uma cidade de guerreiros. Somos e seremos alternativos e guerrilheiros (minha produtora tem o nome de Guerrilha não é à toa!) combatendo o bom combate em favor da arte e da cultura e contra os e-ventos da gestão pública, que só servem para mandar nossas divisas para a capital e para ganhar votos. A gestão reeleita só pensa em números votos e dinheiro. Não é à toa que o secretário de Cultura (Moacir de Carvalho Castro Filho, o Moa) anda sendo tão denunciado por falcatruas, como no caso dos RPAs.

• A cada trabalho cumprido, qual a sua sensação?

- Orgasmos múltiplos e insegurança. Não sei se quem leu também gozou, mas eu geralmente enlouqueço de prazer. E às vezes dor!

• A qual autor se acha parecido, ou o acham?

- Um maluquinho aí (Natália Elisa) me falou que pareço o Bukowsky. Uma professora de Juiz de Fora, que lê e compartilha minhas poesias no Facebook, me comparou a Cesário Verde. Alguns amigos de política falam de Brecht e Beckett, mas aí acho que é só pelas referências em minha vida. Mas Beckett e Brecht vão sempre influenciar minha dramaturgia e minhas montagens teatrais.

• Defina a vida que leva em relação a toda arte e cultura em uma palavra.

- Impossível: sexo, amor, companheirismo... A arte para mim tem mil nomes.

• Qual a sua maior dificuldade?

- Ganhar dinheiro.

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"Quero usar minha poesia para defender o oprimido,
para questionar a ordem, para lutar por liberdade"

• Sei que você escreve muito sobre a Volta Redonda em seu ponto de vista. Relacionamentos, mulheres, suas performances artísticas e até sobre sexo. Desses assuntos, qual mais gosta, por que escreve sobre eles e sobre cada um, quais as principais inspirações?

- Nossa cidade linda e louca me inspira o tempo todo. Gosto de todos os assuntos que escrevo e cada um a seu tempo tem uma mensagem, um segredo, uma palavra de ordem, um gancho para se fazer a luta de classes, para louvar a Jah e a vida, para cantar a beleza e o tesão da mulher de Volta Redonda, para falar de tantas questões sociais que me tocam e me são caras. Quero usar minha poesia para defender o oprimido, para questionar a ordem, para lutar por liberdade, para falar da legalização da maconha, pra criticar a homofobia e o racismo e o sexismo. Isso tudo me toca e me tocando quero escrever e colocar para fora.

• Em seus textos, Volta Redonda é por diversas vezes criticada, em que se baseia sua revolta?

- Minhas críticas não são à cidade, mas sim aos seus governantes por tantos anos. Minha poesia é minha arma. Atiro com palavras e me defendo com retórica. Não tenho as armas compradas com o papel da Babilônia, mas meu papel tem poder e Jah ajuda nisso!

> Frente & Verso

. Giglio - Blog, Facebook 1 e 2. E-mail: guerrilhaproducoesteatrais@yahoo.com.br 

"O sonho de Alice"

acordar é chato Alice
o mundo real destrói a esperança
consumindo sua existência
barulhento e assustador como assombração
espalhando devagar sobre a babilônia
seu veneno e fel
se fingindo de aurora
querendo levar embora
você não é daqui
você é apenas Alice
sem pais sem maravilhas
mais uma mulher massacrada na babilônia
lavando o chão
as roupas
as louças
as cuecas
e aquele anel que ele deu
era vidro e se quebrou
fuja Alice
fuja das palavras vazias
das palavras fúteis
dos amores mentirosos
onde seu homem
se veste de cordeiro
para com a mão pesada de lobo
lhe dar porradas
onde ele fica a minar suas forças
onde tudo são campos de flores
pra ele caçar borboletas
vá Alice
vá mesmo que seja para o inferno
ou para onde quer que seja
mas vá
fuja
vá para a mata ou pro mar
fuja e acabe com o sofrimento
vá Alice
fuja para o sonho
deixe que o mundo real
desperte depois
não aceite essa solidão
seja mulher de verdade
seus olhos cegarão
porque o sonho é luz
pra onde deve caminhar
e largar tudo para trás
não pense em voltar para casa
já devia ter saído voando
deixando seus trapos
feito monumento de despedida
alice o tapa que levou dói
e o que dói
faz a gente ter coragem
de acreditar que é capaz
não em si a própria dor
mas o que vem junto
nos faz ver quando o amor é curto
foge Alice
de verdade
depois de tanto apanhar
linda Alice
é hora de sonhar
acreditar que é possível lutar
voar
sobreviver
amar outra vez
e viver

Por Elisa Marques  –  nataliasouzamarques@outlook.com

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  • Léo Cárfrei

    Grande amigo, ator, poeta e principalmente entusiasta de uma arte livre e sem censuras. Salve grande Giglio!