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As "Histórias Musicais" de Aloísio de Abreu

Ator, autor e diretor de teatro e televisão é o primeiro a falar sobre uma música, banda ou gênero que mudou a sua maneira de ver a vida

Música  –  16/09/2012 17:50

Aloisio

(Fotos: Divulgação)

Aloísio de Abreu prepara espetáculo para o fim do ano, no qual, além de autor, é ator também

Todo mundo tem uma história com música, um momento, uma lembrança que ela traz. Querendo ou não, simplesmente vem e nos remete àquele instante, e somos até capazes de sentir o perfume. Uns gostam de rock outros de jazz, blues, MPB, tango, funk, R&B e por aí vai. Deixando de lado a questão do gosto, que é muito pessoal, se você gosta mesmo de um gênero musical é até capaz de entrar numa acirrada troca de gentilezas, se alguém falar mal dele ou de um cantor ou banda que você acha o máximo, certo!

Pensando nisso, convidei algumas pessoas a falarem do assunto, seja de uma música, banda ou gênero que de alguma forma tenha mudado a sua maneira de ver a vida ou a de ouvir música. 

Meu primeiro convidado é Aloísio de Abreu, ator, autor e diretor de teatro e televisão, que prepara um espetáculo para o fim do ano, ainda sem título, no qual, além de autor, é ator também.

Com bem mais de 30

> Universo particular - A música sempre fez parte da minha vida. Minhas lembranças mais remotas estão ligadas à música, aos discos de Ray Conniff de minha mãe, às óperas que meu pai ouvia e regia imaginariamente, às musiquinhas de discos infantis que eu colecionava. Mais do que um hábito, era um mundo que coloria meu espírito de emoções diversas. Emoções circunscritas apenas ao meu universo particular. Ela - a música - alimentava, sem saber, um outro eu que estava aparecendo: o eu-no-mundo.

> A descoberta do rádio - Porque, de repente, muito molequinho, eu descobri o rádio. E o rádio é o mundo. Ou não é? Com suas ondas, frequências moduladas e alcance infinito, o que é o rádio senão o mundo falando e cantando para mim e para todos? O rádio tocava todas as músicas, todos os gêneros, todas as formas que eu cultuava em casa, no meu universo particular, que, naquele momento, descobria não ser tão particular.

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"Quando ouvi minha própria voz saindo de dentro de uma caixinha,
aumentei o volume e comemorei dançando e cantando"

> A cantora Claudia - Aos 11 anos de idade, eu virei fã da Radio Clube, de São José dos Campos, onde eu morava. Era uma rádio bem popular, com programas de entrevista, jornalismo e “paradas de sucesso”, que eram as músicas mais executadas durante a semana. Lá tocava uma música chamada “Com mais de 30”, cantada pela Claudia, uma cantora loirinha que aparecia muito na revista “Amiga” - a “Caras” da época -, mas que só falava de artista. Eu, sei lá porquê, simplesmente amava essa música. Adorava essa levadinha pop que desancava quem tinha mais de 30 anos. Pra quem tinha 11 anos, 30 anos de idade já era quase o final da existência - cruz credo chegar naquela idade.

> Tomando coragem - Descobri, ainda, que a parada de sucessos era definida pelo número de ouvintes que ligava para a rádio. Mas o que mais me animou foi o fato de que o telefonema ia ao ar com a voz do ouvinte e tudo. Era o eu-no-mundo dando sinais de vida. Todos os dias, na volta do colégio, eu ouvia a parada de sucessos com a Diana, empregada calada e contida, que trabalhava sem parar e que gostava muito de mim. Um dia eu disse a ela que queria falar no rádio, ouvir minha voz no mundo e escutar minha canção preferida. Ela disse apenas: “Só vai ouvir se ligar e pedir”. Grande Diana. A música e ela me empurravam para a vida. Tomei coragem e fui.

> Minha voz no rádio - Disquei a manhã inteira para a Radio Clube até conseguir pedir minha música. E quando ouvi minha própria voz saindo de dentro de uma caixinha colocada na beira do fogão e Claudia começou a cantar “Com mais de 30”, aumentei o volume e comemorei dançando e cantando com Diana, a empregada calada e contida, mas que, naquele dia, riu alto e cantou junto comigo.

Por Márcia Tunes  –  marciatunes@gmail.com

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