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Cláudio Alcântara

claudioalcantaravr@hotmail.com

Disco Sai Este Ano

Ubandão lança lyric vídeo em forma de arte

Single - Broto de flor - ganha clipe que mistura duas técnicas: caneta no papel e animação computadorizada

Música  –  15/05/2019 12:57

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(Fotos: Divulgação)

“Em um lyric vídeo a letra passa a compor a obra audiovisual, ela faz parte direta de todo o conjunto e isso foi uma novidade para nós” 

(Hugo Cunha, voz e guitarra)

 

Um lyric vídeo para uma canção de amor em seu sentido amplo. Ubandão acaba de disponibilizar o clipe do single “Broto de flor”. Um processo híbrido de técnicas: caneta no papel e animação computadorizada. O resultado não poderia ser outro: arte.  

A banda foi formada em 2013. Raí Freitas (vocal e violão) conta que tudo começou na gravação de “O andarilho” (que ganhou o Prêmio OLHO VIVO 2014 - Categoria CD/EP), quando ele, Hugo Cunha (voz e guitarra) e Jeffei (bateria) se reuniram e começaram a preparar as suas primeiras canções, que resultaram no EP do Raí. Após o lançamento, foi necessário compor a banda com mais integrantes para executar o disco ao vivo e, em 2015, essa banda consolidou-se e foi batizada. O conjunto passou a se chamar Raí Freitas & U Bandão, incluindo o baixista Rafael Clemente.  

- Em paralelo à gravação do novo disco que sairá este ano, o Hugo nos chamou para gravar o single “Broto de flor”, e a banda decidiu ser chamada apenas de Ubandão porque agora, além das minhas composições, também foram incluídas no repertório músicas de Jeffei e Hugo - explica Raí. 

“Broto de flor” tem letra e música de Hugo Cunha. Produzido por Ubandão e Jorge Almeida. Gravado no estúdio Caos&Vitrola, em 2018. Mix/Master: Jorge Almeida. Criação e roteiro: Hugo Cunha e Jorge Almeida. Motion: Jorge Almeida.  

Confira a entrevista com Raí Freitas e Hugo Cunha 

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“Broto de flor” é single de um EP ou CD? Existe previsão para o lançamento do disco? Hoje em dia muitos artistas preferem lançar singles, divulgá-los e não lançar um disco completo. O que a banda pensa sobre isso? 

Raí Freitas - É single! Lançaremos também um disco este ano, mas “Broto de flor” é single. Sobre a estratégia de utilizar mais singles do que álbuns pensamos que há diversos fatores a serem considerados. Alguns dizem que é uma tendência do mercado que se trabalhe singles até o esgotamento. No nosso caso a estratégia é econômica. É mais barato lançar singles. É uma boa opção pra não criar um longo hiato sem lançar novidades. Nós tendemos a fazer mais isso. 

Quando e como nasceu “Broto de flor”? Como foi esse processo criativo? 

Hugo Cunha - Broto de Flor foi uma canção que comecei a compor logo após a conclusão do EP “Magicicada”, trabalho solo que lancei em 2016. Eu pensava em um próximo EP. Então, além de “Broto de flor”, trabalhei em algumas outras músicas. Mais adiante entendi que a canção deveria ser gravada pelo Ubandão e não por outros músicos como no Magicicada, mas ainda sendo parte de um trabalho solo. No entanto, quando foi se aproximando do lançamento, o Raí sugeriu a mudança do nome da banda e chegamos à conclusão de que “Broto de flor” era uma música do Ubandão.

Como era pra ser uma canção de um trabalho solo, eu havia desenvolvido grande parte dela sozinho e achava que a música deveria ser tocada “assim e assim”. Só que quando eu levei pro grupo tudo foi ganhando uma nova abordagem. O Jeffei criou uma levada de batera pro refrão, em cima dos toques de maracatu e firmou o groove das estrofes, o Clemente compôs uma introdução de baixo pra música muito especial e desenvolveu um contrabaixo muito presente e que por consequência disso pude retirar algumas guitarras que estavam em excesso, e o Raí dobrou comigo as vozes nos refrões e colocou o violão em diálogo com a guitarra, dando outro aspecto pra coisa. No final a canção ganhou ideia de todos, tornando o processo criativo da canção muito rico. 

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"Deve ficar claro pra nós artistas o lado da moeda que vamos priorizar: entrar na disputa por espaço dentro da grande indústria cultural ou produzir o que queremos".

(Raí Freitas, vocal e violão)

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“Broto de flor” é uma canção de amor. O que a canção fala sobre o esse tipo de amor? Qual a mensagem específica a banda quer passar? 

Hugo Cunha - Sim, é uma canção de amor, em seu sentido amplo, embora tenha essa aparência de se esgotar numa relação amorosa de um casal. Sem dúvida que é sobre um casal também, mas o que quero dizer é que, não é somente sobre um casal, existem outros afetos que a canção quer produzir. O “outro” da letra pode ser nós mesmos por exemplo, daí o indivíduo entendido como “dois” pelo menos. Mas também a letra não descarta o entendimento do “outro” dentro de uma relação política ou a paixão por uma ideia ou por uma regra moral, enfim, é uma música de amor em um sentido amplo.

O importante da canção é sua vontade de produzir Liberdade. Amor e liberdade têm uma estranhíssima afinidade, estranha porque o homem ligou Amor à Prisão, mas nós nunca esquecemos a afinidade que o amor tem com a liberdade e sabemos no fundo que é necessário criar um outro amor, um novo amor, pra que essa afinidade de fato aconteça. Então há uma luta, uma resistência nisso daí, afastar as paixões tristes requer luta, saber se desviar de determinados hábitos e se reconstruir noutro lugar. “Broto de flor” é uma canção que disputa o futuro com os diversos Poderes, esses nos querem os mesmos, querem que continuemos a associar Amor à Prisão, mas a canção não para de perseguir as conexões entre Amor e Liberdade, porque em última instância “Broto de flor” é uma canção que quer ver a vida passar, quer vê-la seguindo seu curso, viva! 

Como foi casar letra e instrumental? “Broto de flor” foge do que se convencionou definir como “comercial” em ambos os casos. Isso acontece naturalmente? 

Hugo Cunha - Sem dúvida que queremos que as pessoas ouçam a canção e que quanto mais almas ouvirem, mais alegre a gente fica. Mas fazer uma canção “comercial” é outra coisa, você precisa estar associado a outras forças. Eu acho até que o compositor, neste caso, deva abrir mão do seu desejo pra buscar fora, no mercado, as vontades de um suposto “consumidor modelo” pra saber quais são os produtos que estão vendendo mais. Esse tipo de composição nasce de forças que vêm de fora.

Isso em nada nos anima, pelo contrário, lutamos muito pra compor canções que nasçam de forças que vêm de dentro, onde não abrimos mão do desejo. Isso é o que temos, sem isso a banda acaba. É a partir daí que sonhamos encontrar ouvidos e almas. “Broto de flor” nasceu assim, buscando maior clareza com o desejo e não há dúvidas de que isso não é comercial. Ubandão é uma banda muito atenta à construção de um trabalho verdadeiro, então esse modo de pensar a música acontece naturalmente, mas isso significa muito trabalho, esforço e cuidado.

Eu costumo compor primeiro a música; as melodias e a harmonia, até já avanço para alguns pontos do arranjo; penso em como as guitarras vão ser, como podem casar com o violão, baixo e bateria. Fico maturando essas coisas e num determinado momento a melodia da voz vai ganhando maior definição e já aparece com algumas palavras e ideias que vão sendo depois construídas com a caneta e papel. Quando fica pronta, nesta versão preliminar, costumo gravar no telefone a música em voz e violão. “Broto de flor” foi assim, trabalhamos em cima dessa gravação e depois, nos ensaios, a música foi ganhando outras abordagens de cada um da banda, definindo a sua forma final.

 

O clipe é uma animação. De quem foi a ideia de seguir por esse caminho? E como ele foi desenvolvido? Quanto levou para ficar pronto? Qual a técnica utilizada? 

Hugo Cunha - Havia uma vontade nossa de produzir um material audiovisual, mas foi do Jorge Almeida (produtor da canção junto conosco) a ideia de fazer um lyric vídeo, uma animação com a letra escrita da música. Escrevemos a letra da canção em folhas de papel e criamos algumas linhas para as partes instrumentais também desenhadas a mão em folha de papel A4. Depois disso, escaneamos e enviamos ao Jorge, ele levava para o computador e fazia a animação. Conversávamos sobre as partes e sobre como cada risco deveria acontecer, daí ele seguia o desenvolvimento do vídeo. A gente estava achando bonito fazer a mão com caneta, mas era através do computador que a animação se tornava possível, então foi um processo híbrido de técnicas: caneta no papel e animação através do computador.

Em um lyric vídeo a letra da canção passa a ter também um efeito visual. É verdade que, em um clipe, se quisermos ler a letra enquanto ouvimos e assistimos, podemos fazer, mas em um lyric vídeo a letra passa a compor a obra audiovisual, ela faz parte direta de todo o conjunto e isso foi uma novidade para nós.

Em “Broto de flor”, além da letra escrita há também linhas sinuosas que vão se desdobrando em vários movimentos. Em alguns momentos elas estão em menor número e podemos apreender melhor seus movimentos, e há momentos onde uma espécie de trama complexa de variados tipos e velocidades vão tornando os movimentos mais difíceis de apreender.

O Jorge acrescentou também algumas manchas de pincel que seguem os “ataques” do instrumental da música. Esse arranjo visual entre letra escrita/animada, linhas sinuosas e manchas mais arranjo sonoro, compõe todo o conjunto audiovisual que se tornou “Broto de flor”. 

Seguindo por um caminho autoral, é difícil conseguir espaço para se apresentar aqui na região. Isso é um fato. Que análise a banda faz dessa situação e qual seria um caminho para alterar essa realidade? 

Raí Freitas - Aqui na região é difícil conseguir espaço para se apresentar com qualquer tipo de música. O autoral é prejudicado, mas não podemos dizer que quem faz cover vive bem por aqui. O trabalho do músico é árduo, tanto no interior, quanto nas capitais. Seja autoral ou cover.

Tivemos uma fase em que as coisas pareciam começar a querer mudar em Volta Redonda. Com o ECFA a pleno vapor, casas como a Toca de Arigó abrindo portas e expandindo uma cultura do autoral, a Roda de Rima iniciando um processo bonito e até algumas outras atividades ocorrendo na cidade... Mas com o tempo o incentivo à cultura foi minado e hoje vivemos o maior ataque à cultura e ao pensamento crítico dos últimos tempos.

É impossível não associar a dificuldade de se produzir arte com as questões políticas do país. É verdade que nunca foi fácil, mas é ingênuo não assumirmos que nunca foi tão difícil (com exceção do período de ditadura militar).

Imaginamos que a resolução dos problemas passa pela organização dos artistas. Precisamos nos entender como trabalhadores, enquanto produtores, para que então possamos nos organizar com todas as nossas bandeiras (nunca proibindo estas) para compor um coletivo forte como é, em Volta Redonda, a Associação de Skatistas - que, inegavelmente, conquistou muito para Volta Redonda. 

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"Só publicar as canções na internet não é garantia de que as pessoas ouvirão. Tem muito mais coisa no meio do caminho e nem sempre o bom artista conseguirá atingir seu público".

(Raí Freitas)

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A maioria das pessoas diz que há espaço para todo tipo de arte, mas na prática não é exatamente isso que se vê. Sempre houve o predomínio disso ou daquilo, e a quase total exclusão do que não se encaixa no perfil do momento. Trabalhar no esquema faça-você-mesmo, sem um apoio macro (seja da iniciativa pública ou privada), é uma questão de sobrevivência? Ou é possível viver assim? 

Raí Freitas - Deve ficar claro pra nós artistas o lado da moeda que vamos priorizar: entrar na disputa por espaço dentro da grande indústria cultural ou produzir o que queremos.

Alguns artistas têm a sorte de coadunar os dois processos, outros se contorcem pra se integrar à indústria (muitos fracassam e poucos obtém sucesso), enquanto alguns, como nós do Ubandão, se dedicam a produzir algo que, antes de mais nada, os agrada (muitos têm dificuldade de se manter economicamente, mas ao mesmo tempo muitos são gratificados no próprio processo porque, no fim das contas, o objetivo não é outro senão produzir como se quer, sem se preocupar com ingresso na mídia de massa).

Vivemos esse processo diariamente, alguns membros da banda em mais intensidade do que outros, mas no fundo gostaríamos sim de nos dedicar exclusivamente ao Ubandão e com isso conseguir pagar as contas. O que, no momento, é inviável, e precisamos lidar com os fatos. É uma questão de sobrevivência botar comida dentro de casa e também é uma questão de sobrevivência sã continuar produzindo arte. O arranjo pra balançar as demandas deve ser feito por cada artista no seu tempo da forma com que cada um deles achar adequado. 

E o papel da internet nisso tudo? Mudou de alguma forma essa questão? 

Raí Freitas - A internet democratizou a publicação das músicas em plataformas digitais voltadas exclusivamente para a música e as destinadas à publicação de vídeos, mas isso não coloca estes produtos num patamar de igualdade na disputa por espaço. Ainda estão em vantagem aqueles artistas que têm mais condição de investimento. Os que podem pagar uma boa distribuidora são colocados em listas, os que têm mais contato, os que podem pagar impulsionamento...

É importante que isso fique claro para que os artistas não achem que só publicar as canções na internet é garantia de que as pessoas ouvirão. Tem muito mais coisa no meio do caminho e nem sempre o bom artista conseguirá atingir seu público. 

Projetos. O que vem por aí? 

Raí Freitas - Vem um EP novo, produzido inteiramente em Volta Redonda. Gravação e mixagem no amado Quarto da Vó Penga e masterização no Estúdio Setor. Com um EP virá um novo show e esperamos tocar bastante por aqui. Faremos o possível dentro dos nossos limites para que este novo show se espalhe pelo Brasil para que façamos o que mais gostamos de fazer com muita dedicação: Arte! 

> Contatos com a banda: ubandaobr@gmail.com / (11) 993767865 

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Por Cláudio Alcântara  –  claudioalcantaravr@hotmail.com

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