
(Fotos: Divulgação)
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Banda produziu “Segura” de forma remota e agora a faixa ganhou uma roupagem dub, com tempero jamaicano-psicodélico que na versão original não era tão explícito
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De um momento triste, desesperador, nasceu uma canção que evoca a vibração dos velhos, dos ancestrais, das bruxas e dos magos, como forma de buscar alguma força, através da fé. Transformando tristeza e dor em combustível artístico, a Amplexos (de Volta Redonda) viu a energia de “Segura” ganhar ainda mais força no remix que conta com o vocal de Lenine. O feat., que ainda tem as assinaturas de Digitaldubs e Leão Etíope do Méier, pode ser conferido nas plataformas digitais.
A banda (Guga, Mestre André, Leandro Vilela, Polito, Leandro Tolentino e Martché) carrega na bagagem 15 anos de história, já lançou quatro álbuns de estúdio e alguns singles. Amplexos tocou nas ruas de Volta Redonda, Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. Os integrantes do grupo estão por trás da produção de boa parte dos artistas autorais da região. Tocaram com Marechal, Oghene Kologno, Síntese, Marcelo Yuka e tantos outros.
- Amplexos é muito mais que uma banda, mas uma família. É um coletivo que se reinventou artisticamente inúmeras vezes, de artistas que se transformaram pessoalmente ao longo dos anos. Continuam relevantes, ampliando cada vez mais sua pesquisa na música regional brasileira, no dub jamaicano e afrobeat - diz Guga.
Confira a entrevista com Guga (Amplexos - Vocal)

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"A canção ‘Segura’ foi composta nesse contexto de um país governado por militares e milicianos, maus, sádicos, cristãos equivocados, enrustidos. Neste contexto de desmonte da cultura, pandemia e total falta de perspectivas para o povo, para o trabalhador brasileiro, o artista, o professor".
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Quando e como surgiu a ideia do feat. versão remix de “Segura” (Amplexos + Lenine + Digitaldubs + Leão Etíope do Méier)?
A música “Segura” em sua versão original foi lançada no ano passado, em um daqueles auges da pandemia (novo coronavíris/Covid-19). A composição é conjunta, foi produzida toda de forma remota, cada integrante criou e gravou suas partes em suas casas, a gente não se encontrou em nenhum momento durante a produção da faixa - o que torna a história da música muito particular em nossa carreira, que foi construída com músicas que surgiam a partir de longas jams, com muitos ensaios, encontros e trocas físicas.
O que diferencia, artisticamente falando, além da participação do Lenine, é claro, a nova roupagem de “Segura” da música original?
Algum tempo depois de lançada, o Pedro Rajão - produtor cultural do Rio de Janeiro, amigo e fã nosso de longa data, que já produziu algumas apresentações nossas na capital - chegou com essa ideia maluca de juntar Lenine e Amplexos em uma nova versão da faixa. O Rajão, junto de outro produtor, o Riko Viana, estavam com o projeto de lançar um selo musical, o Leão Etíope Discos, e queriam essa faixa collab para ser o primeiro lançamento do selo.
Leão Etíope Discos é um braço do coletivo Leão Etíope do Méier, que realiza ações culturais de rua na cidade do Rio, em especial na Praça Agripino Grieco, no Méier.
Acontece que fizeram o contato com o Lenine, que topou e gravou a faixa lindamente, e ainda buscaram o tempero do Digital Dubs, pioneiro do Sound System carioca, que deu toda uma roupagem dub pra faixa, com tempero jamaicano-psicodélico, que na versão original não era tão explícito quanto nesse remix.
Em que situação “Segura” foi composta? O que inspirou a composição?
Foi composta nesse contexto de um país governado por militares e milicianos, maus, sádicos, cristãos equivocados, enrustidos. Neste contexto de desmonte da cultura, pandemia e total falta de perspectivas para o povo, para o trabalhador brasileiro, o artista, o professor.
Naquele momento, lembro que estava bem latente a morte do gigante Aldir Blanc, precisando de ajuda financeira pra ser transferido de hospital; a morte do lendário Flávio Migliaccio, dois grandes artistas brasileiros que, na minha opinião, naquele momento, simbolizaram a covardia com nossos idosos, já muito abalados e judiados com a questão da Covid. Também teve a morte do Moraes Moreira ali, figura que simboliza um Brasil rico, diverso, livre, com toda a história dos Novos Baianos, dos trios elétricos. Cada um que partia parecia nos afundar mais ainda naquela lama - além da dor com os familiares que partiram, os amigos, o medo com a situação toda. Desesperador, apesar de que, pro artista, isso sempre pode ser combustível.
Ouça a versão remix de "Segura"
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"O Lenine ter gravado uma composição nossa é importante para que outras pessoas cheguem na nossa obra e escutem os discos, nos acompanhem. Um artista do porte do Lenine, com a visibilidade que tem, tem esse enorme poder".
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“Segura” fala sobre o quê? Qual a mensagem da canção? A inspiração e a proposta inicial se mantêm na versão remix?
A música naquele momento evocava a vibração dos velhos, dos ancestrais, das bruxas e dos magos, como forma de buscar alguma força, através da fé, naquele momento triste, triste.
Na nova versão acho essa energia ainda mais evidente, por ter o Lenine, um dinossauro da nossa música, um cara de outra geração, que viveu muita coisa, uma dessas figuras-resistência que evocamos na letra. Chamamos tanto que ele veio.
Mais do que uma participação luxuosa, o que representa dividir uma canção com Lenine?
Representa que nada do que fizemos foi em vão. Que, apesar de estarmos no interior do Rio, há 15 anos trabalhando de forma consciente na música, mesmo que não tenhamos uma grande visibilidade nacional ou, ainda, muitos seguidores e curtidas nas redes sociais, nosso trabalho é consistente, temos uma obra que fala por si, e que sobrevive ao tempo. Outras gerações poderão ouvi-la, poderão revisitá-la. De alguma forma o Lenine ter gravado uma composição nossa é um atestado disso tudo, mesmo que não precisássemos disso. E, claro, é um trabalho importante para que outras pessoas cheguem na nossa obra e escutem os discos, nos acompanhem. Um artista do porte do Lenine, com a visibilidade que tem, tem esse enorme poder.
A proposta do selo que lançou a música é dar maior visibilidade a artistas não tão conhecidos nacionalmente, certo? Um projeto que merece toda aprovação possível. Aqui na região, falta esse tipo de iniciativa? Ou seja, quem já tem uma visibilidade maior abraçar os artistas não tão conhecidos em projetos/parceiros?
Não sei se falta, talvez. Posso falar pelo Amplexos. Sempre estamos buscando formas de estender as mãos pras novas gerações, seja produzindo o trabalho de algum artista novo, seja com os eventos, convidando novos artistas pra abrir os shows (quando existiam). Acho que nosso movimento é sempre mais em direção a isso do que homenagear ou pagar tributo a artistas que vieram antes da gente, que já têm todo o suporte e história. Acho maravilhoso quem faz, mas não é o nosso movimento. O que o Lenine fez com a gente a gente precisa fazer com as novas gerações - porque temos total consciência que somos para muitos artistas novos exatamente o que o Lenine é pra gente.
Embora a pandemia do novo coronavírus (Covid-19) ainda não tenha acabado, vejo que na maioria dos casos os artistas da área musical, pelo menos aqui na região, especificamente em Volta Redonda, já voltaram a trabalhar em seus shows normalmente. A Amplexos já fez uma avaliação sobre isso? Qual a posição da banda, quando volta aos palcos?
Vamos voltar no momento certo, com responsabilidade. Só agora é que estamos nos encontrando periodicamente, ainda vamos voltar a ensaiar e a gravar. Temos consciência também do exemplo que somos, então tudo tem que ser medido. Porque ao mesmo tempo vivemos de música, é inevitável que precisemos voltar aos trabalhos presenciais, talvez de uma forma diferente, mais controlada. Acaba que, pra quem vive de tocar na noite, em bar, é diferente. Temos o mesmo trabalho, mas transitamos por lugares distintos, os shows autorais ainda não voltaram a acontecer nessa pegada, ainda é raro esse movimento. Mas, é claro, vamos avaliar qualquer convite que recebermos com todo carinho, com responsabilidade, porque queremos voltar a tocar logo.
Ainda sobre o período pandêmico... De que forma o isolamento social afetou artisticamente a Amplexos? A banda conseguiu algum apoio financeiro durante a pandemia (Lei Aldir Blanc, por exemplo)?
Afetou completamente, como eu disse lá atrás, nosso trabalho foi todo construído a partir dos encontros. É muito coletivo, físico, nossa música depende desses encontros, de um encostando no outro, dos abraços e das trocas olho no olho. Os encontros virtuais são muito mais raros, mas acontecem, porque em nenhum momento estivemos parados. Individualmente mexeu com cada um de formas diferentes também - alguns ficaram mais quietos e reclusos, outros surtaram, outros tiveram picos produtivos. Acho que nada diferente de qualquer pessoa normal, todo mundo passou por uma montanha-russa de sentimentos.
Conseguimos apoio da Lei Aldir Blanc para um festival online (“Tudo Nosso”) que está acontecendo neste momento. E, individualmente, também conseguimos para projetos pessoais.

> Segura - Com Amplexos (Guga, Mestre André, Leandro Vilela, Polito, Leandro Tolentino e Martché), Lenine, Digitaldubs e Leão Etíope do Méier. Voz, violão e guitarra: Guga. Voz: Lenine. Guitarra e viola caipira: Leandro Vilela. Acordeon e teclados: Martché. Baixo: Polito. Percussão: Tolen. Bateria/beat: Mestre André. Efeitos e mixagem: Digitaldubs. Masterização: Tomas Patagoniadub. Clique aqui para ouvir no Spotift. Contatos profissionais da Amplexos: Instagram @amplexosvr | Email amplexosnet@gmail.com | WhatsApp (24) 99909-5485.

