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Cláudio Alcântara

claudioalcantaravr@hotmail.com

Entre o Que se Joga Fora e o Que Fica

Tudo Que Não Jogamos Fora, de Tom Seraphim, estreia no Teatro Dell´Art

Espetáculo leva para o palco o encontro de dois jovens em meio às lixeiras de um edifício, usando humor, afeto e nostalgia dos anos 2000

Teatro  –  19/08/2026 18:18

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(Foto: Divulgação)

Peça livremente inspirada no conto “O Lixo”, de Luis Fernando Verissimo, fala sobre solidão, vulnerabilidade e a necessidade de conexão; ingressos aqui

 

Há coisas que vão para o lixo. Outras ficam por ali, escondidas entre sacolas, caixas e objetos que perderam a utilidade. E há aquelas que ninguém consegue simplesmente descartar. É nesse território entre o que se joga fora e o que permanece que se encontra “Tudo Que Não Jogamos Fora”, peça de Tom Seraphim que estreia em setembro. O espetáculo será apresentado de 3 a 25, às quintas e sextas-feiras, sempre às 20h30, no Teatro Dell´Art, no Barra Point Shopping Center, na Avenida Armando Lombardi, 350, Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. A classificação é livre.

Livremente inspirada no conto “O Lixo”, de Luis Fernando Verissimo, a montagem acompanha o encontro entre dois jovens adultos e transforma a área comum das lixeiras de um edifício residencial em cenário para uma relação que nasce aos poucos. Em encontros breves e aparentemente banais, Gabriela e Vicente deixam escapar histórias, inseguranças, desejos e sentimentos que normalmente permanecem longe dos olhos dos outros.

A estética dos anos 2000 ajuda a construir o ambiente da montagem e também funciona como uma ponte afetiva com uma época que voltou a despertar interesse, especialmente entre as gerações mais jovens. O período aparece não apenas como referência visual, mas como elemento de memória e identificação.

No palco, o lixo deixa de ser apenas parte do cenário e ganha função dramatúrgica. A ideia de “jogar fora” passa a representar também aquilo que as pessoas tentam esconder, sentimentos, fragilidades e partes de si mesmas que não são facilmente percebidas.

- A peça utiliza o lixo como metáfora para aquilo que as pessoas tentam esconder, sua parte mais vulnerável, que não é possível enxergar a olho nu - explica Tom Seraphim.

Segundo o dramaturgo, a montagem também procura provocar uma reflexão sobre a importância dos encontros cotidianos e da socialização em um mundo em que grande parte das relações acontece no ambiente virtual.

A dramaturgia parte da obra de Verissimo para ampliar a discussão e aproximá-la das questões do presente.

- A dramaturgia, inspirada pela obra de Verissimo, busca reconhecer a importância da obra e ampliar sua discussão, atrelada aos dias de hoje - afirma Seraphim.

A escolha do teatro também faz parte dessa proposta. Para o autor, uma das funções da linguagem teatral é estimular o pensamento crítico a partir de temas sociais e cotidianos.

- O teatro é uma das expressões artísticas mais antigas do mundo, que tem como objetivo exercitar o pensamento crítico ligado a temas sociais e cotidianos - diz.

A ambientação nos anos 2000 completa esse diálogo com o público.

- A peça, ambientada nos anos 2000, traz consigo a nostalgia da época, que ganhou grande força nos últimos anos, se conectando afetivamente com a geração Z e Millennials - afirma.

Dois desconhecidos e muita coisa para contar

Gabriela tem 23 anos. Tagarela, extrovertida e espontânea, fala o que pensa, embora carregue algumas inseguranças. Bailarina e estudante de moda, é uma personagem sentimental e encantadora, que identifica nos encontros cotidianos uma possibilidade de dividir aquilo que normalmente guarda para si.

Vicente tem 26 anos e foi criado pelo avô. Agora morando sozinho, é apaixonado por filmes, estuda jornalismo e trabalha em uma locadora. O personagem transita entre o deboche e as piadas, mas por trás desse comportamento existe um rapaz carinhoso e charmoso.

É justamente desse contraste que a relação entre os dois se constrói. Sem grandes acontecimentos externos, a peça encontra o conflito na intimidade. Cada encontro revela um pouco mais dos personagens e transforma uma situação corriqueira em espaço de aproximação.
A vulnerabilidade aparece acompanhada pelo humor sensível, enquanto a solidão urbana se torna parte da história de duas pessoas que, apesar de viverem cercadas por outras, precisam encontrar um espaço de escuta e pertencimento.

No palco e atrás das câmeras

A protagonista Gabriela é interpretada por Letícia Braga, que tem 21 anos e mais de uma década de carreira. Ela começou profissionalmente aos 8 anos, quando protagonizou o longa-metragem “A Menina Índigo”. Letícia ganhou projeção nacional ao interpretar a detetive Sol na franquia “D.P.A. - Detetives do Prédio Azul”. A personagem foi defendida por ela na série de televisão e em três longas-metragens que tiveram grande público nos cinemas. Também ficou conhecida pelo trabalho em “Meninas Não Choram”, drama da Netflix no qual interpretou a protagonista Pipa. Bacharel em Artes Cênicas pela Casa das Artes de Laranjeiras, a atriz construiu uma trajetória que inclui trabalhos na televisão, como “A Regra do Jogo” e “Os Dias Eram Assim”, da TV Globo. No cinema, seu currículo reúne produções como “Nosso Lar 2”, “Advogado de Deus” e “Kardec”.

Tom Seraphim, além de dramaturgo, assume o papel de Vicente. Ator e cineasta, começou no teatro há 18 anos e acumula pelo menos 11 anos de experiência no audiovisual. Sua formação passa por escolas como a Cia. Arte em Cena, O Tablado e Cesgranrio, além de cursos livres, entre eles a oficina de roteiro de Emanuel Jacobina. Com diversos espetáculos teatrais no currículo, também trabalhou na televisão nas séries “Impuros”, “Body By Beth” e “Paulo, O Apóstolo”, além das novelas “Vai na Fé” e “Terra e Paixão”. No cinema, participou de “Caminhando Pelo Espaço” e do longa “Oh, Chuva!”. Aos 19 anos, Seraphim recebeu o Prêmio OLHO VIVO pela série “Conectados”. Hoje, aos 28, estreia seu primeiro protagonista no cinema. Paralelamente à carreira artística, atua como produtor e professor de teatro.

Supervisão artística multifacetada

A supervisão artística está a cargo de Bia Oliveira, educadora formada em Letras, Português e Literatura, mestre em Ciência da Educação, atriz, roteirista, diretora artística de cinema e teatro e produtora com 35 anos de experiência nos mercados educacional e artístico. Bia lecionou em grandes colégios do Rio de Janeiro e, paralelamente à atividade educacional, dirigiu 25 espetáculos teatrais. Sua trajetória artística é marcada também pelo trabalho na descoberta de novos talentos, muitos dos quais hoje atuam profissionalmente no mercado. Na administração pública, dirigiu o Teatro do Planetário da Gávea, o Parque Cidade das Crianças e o Teatro Gláucio Gill, equipamento da Funarj, onde atuou entre 2017 e 2023 como gestora administrativa e diretora artística.

Em 2012, Bia começou a desenvolver de forma mais efetiva sua atuação como cineasta. Foi assistente de direção de seu tio, o dramaturgo e diretor Domingos Oliveira, no longa “Infância”, protagonizado por Fernanda Montenegro e vencedor de quatro Kikitos no Festival de Gramado.  Depois, iniciou carreira solo no cinema, dirigindo quatro curtas-metragens e produzindo, pela Biarte, o longa “Temos Vagas”, lançado em 2019 e dirigido por seu ex-aluno Guga Sabatie. Em 2023, filmou “Safe”, nos Estados Unidos, a partir de seu projeto de encenação dirigida a distância. O trabalho foi exibido em 5 de novembro no The Culver Theater, em Los Angeles.

Desde 2023, coordena e dirige, por meio da Biarte, o Festival Shakespeare, no Alfacem, com a montagem de 30 espetáculos teatrais em inglês, a partir de textos adaptados de Shakespeare. Em 2024, dirigiu e produziu “Entre Nós”, espetáculo teatral inédito que estreou em 8 de março no Teatro Fashion Mall. A montagem aborda o universo feminino e as angústias e conflitos vividos pelas mulheres nos dias de hoje. No mesmo ano, Bia tornou-se integrante da Academia Brasileira de Cinema e integrou a comissão responsável por indicar o melhor filme brasileiro para o Oscar 2025. O escolhido foi “Ainda Estou Aqui”, vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional.

Em 2026, dirige um coletivo de atores brasileiros em Los Angeles, o Made in Brasil. Também coordena a produção do evento O Que Te Move?, voltado à acessibilidade e previsto para acontecer na Cidade das Artes, no Rio de Janeiro. Ela ainda atua como diretora artística do projeto internacional “Brazil For All”, programado para maio, em Santa Monica, na Califórnia.

Direção e olhar para os personagens

A direção de “Tudo Que Não Jogamos Fora” é de Jacqueline Riguetti, atriz, diretora e assistente de direção em formação, com experiência em teatro e audiovisual. Como atriz, Jacqueline participou de espetáculos de Domingos de Oliveira, de montagens infantis como “Saltimbancos” e de produções teatrais como “Entre Nós”, “Brainstorming Anônimos” e “Eu, Você e Ela”, entre outras. Sua formação complementar inclui estudos na Casa das Artes de Laranjeiras e cursos livres com profissionais como Bia Oliveira, Marina Rigueira, Hamilton Oliveira e Guilhermo Marcondes. Jacqueline também viveu durante dois anos nos Estados Unidos, onde trabalhou e estudou na New York Film Academy, em Los Angeles, e nos estúdios Ivana Chubbuck.

A estética dos anos 2000

A direção de arte é assinada por Julia Dessaune, designer, figurinista e profissional de direção de arte formada em Desenho Industrial pela PUC-Rio. Sua trajetória passa pelo audiovisual, moda, música e marketing, com trabalhos em produções de televisão, publicidade e entretenimento. Julia integrou equipes de figurino e cenografia de projetos como a campanha do Bondinho do Pão de Açúcar e o especial de Natal da Globo em parceria com a Coca-Cola, “Juntos a Magia Acontece”. No audiovisual, trabalhou como assistente de produção de arte no curta-metragem “Remendo o Filme”. Em 2025, integrou a equipe de produção de arte da novela “Dona de Mim”, da Globo, participando do desenvolvimento visual e da construção estética da produção.

Na música, assinou figurinos para nomes da cena brasileira como Julia Mestre, Ana Frango Elétrico, Bala Desejo, Felipe Papi, Lili Am e Mac Julia. O trabalho inclui conceitos visuais para videoclipes e ensaios fotográficos. Sua criação combina pesquisa estética, narrativa visual e identidade artística, contribuindo para a construção da imagem dos artistas com os quais trabalha.

Produção em forma de arte

A produção fica sob responsabilidade de Andressa Peixoto, bacharel em Produção Cultural e especialista, com MBA em Gestão e Marketing do Entretenimento e Eventos. Sua trajetória combina gestão cultural, produção e a rotina de bastidores de grandes eventos. Atualmente, atua como assessora na Coordenação de Artes Cênicas e Música da Funarj, acompanhando a gestão de 11 equipamentos culturais e liderando processos e contratações artísticas na instituição.

No mercado independente e em grandes eventos, já integrou a equipe de produção executiva de desfiles do Rio Fashion Week, atuou como produtora do Teatro Eletroacústica na Expo Favela 2025 e foi assistente de produção do espetáculo “Gil: Sobre Todas as Coisas”, com o grupo Nós do Morro. Com experiência em organização, direção de palco e execução de projetos, Andressa integra a equipe responsável por fazer com que a montagem aconteça do primeiro movimento nos bastidores até o encontro dos personagens com o público.

“Tudo que Não Jogamos Fora” parte, assim, de uma situação banal para falar de algo que está longe de ser simples. Entre uma ida ao lixo e outra, Gabriela e Vicente descobrem que algumas coisas podem até ser descartadas. Outras, quando encontram alguém disposto a ouvir, começam justamente ali a ganhar uma nova chance.

Tom Seraphim no OLHO VIVO

Tom Seraphim começou no teatro com 8/9 anos, na Cia de Teatro  Arte em Cena - foram mais de dez anos nas artes cênicas. Rodou com peças, participou de festivais e foi para o Rio de Janeiro focar na carreira. Foi finalista do Prêmio OLHO VIVO 2020 - Categoria Ator (quando assinava artisticamente Tom Emeraltt; trocou de nome artítico: Tom Seraphim). Fez uma participação na quarta temporada da série "Impuros" e protagonizou o longa-metragem “Oh, Chuva!” (Clique aqui para ler a entrevista com o ator sobre esse filme). Pôde ser visto, em junho, na novela “Terra e Paixão(Rede Globo), de Walcyr Carrasco - ele interpretou um jovem trabalhador de Nova Primavera, no Galeto do Cerrado. Também trabalhou em “Vai na Fé”, da mesma emissora, na pele de Gerson. Está na série "Body by Beth". E dirigiu o seu primeiro filme "Caminhando Pelo Espaço" (matéria aqui). Agora está mergulhando mais e mais no audiovisual. Mora no Rio já há alguns anos.  

. Tudo Que Não Jogamos Fora - De 3 a 25 de setembro. Quintas e sextas-feiras, às 20h30. Teatro Dell´Art, Barra Point Shopping Center, Avenida Armando Lombardi, 350, Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. Classificação livre. Clique aqui para comprar ingressos.

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Por Cláudio Alcântara  –  claudioalcantaravr@hotmail.com

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