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Descobrindo a Música

Ricardo Yabrudi

yabrudisom@hotmail.com

Cinema

O equilíbrio entre imagem e música

Sem a música, o filme estará sem uma ação convincente, ou imagem de valor

Música  –  18/05/2020 22:32

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(Foto Ilustrativa)

Películas extraordinárias se elevam ao mais alto céu azul, quando por vezes equilibram esses irmãos

 

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O cinema, filho ilegítimo do teatro grego, é um congelamento histórico, tem muitas facetas quando representa Dioniso e Apolo (os representantes da dramaturgia grega antiga, forças divinas que dificilmente se equilibram). Nele quase nunca faz vencer Dioniso, o representante da música, nosso herói. Na maioria das vezes faz vencer Apolo, com seu longo discurso idealista socrático, dirigindo-se à plateia com imagens fantásticas numa bela fotografia e o conhecido “logos” - as palavras que mentem mais do que a realidade. No entanto, películas extraordinárias se elevam ao mais alto céu azul, com a luz do meio-dia, quando por vezes equilibram esses irmãos de tão afinidade musical - é o caso do curta-metragem “Solilóquio” (veja aqui a reportagem sobre o filme). Apolo ergue sua “Kithára”, Dioniso a envolve com seu ritmo fumegante, herança de seu pai Zeus. Com seu aulo - dança a melhor dança de Zaratustra. 

O cinema geralmente se conduz a favor das tendências pós-euripidianas, quando escraviza a música, como: uma música de fundo, ajudada pela derrocada e falência da tragédia grega antiga. “Solilóquio” é aqui apontado como uma balança justa - um equilíbrio entre imagem e música, onde também se pode bailar - uma raridade. Nietzsche já dizia: “O raro para os raros”. O raro quer bailar com a solidão! Uma dança solo, uma dança vital, sem uma plateia que o discrimine e o julgue - apenas admire o homem só. Quem assiste ao curta, não dança, pois também está só, admirando o baile. O ver de uma obra cinematográfica é o sentir do gelado, a solidão - é a única maneira de prender a atenção dos homens. O cinema te aprisiona! Sua companhia é a música que move a cena. “Solilóquio” é o só para o só. Esta obra é um ciclo fechado para a introspecção. O que move são as notas, numa sequência que te levarão a um novo conceito de vazio existencial. Esta geração ainda não experimentou o que se havia prometido: “O sinal de Jonas”... Ressuscitará ao final, assim que o templo destruído se erguer novamente - no novo homem através do seu solilóquio. 

O teatro de Ésquilo, Sófocles e Eurípedes  

Faremos referência ao teatro grego. Com esse teatro, se deu a melhor época do teatro grego - foi a mais atraente. Filosoficamente, foi a instância da maior preocupação existencial no mundo artístico grego da Antiguidade. Através dos artigos precedentes, para quem acompanha nossa coluna, representamos a imagem: como Apolo, o deus grego que se evidencia através também do “logos” e tudo o que se mostra na obra teatral antiga - esta é sua imagem, um sonho. Empresta-a à obra na função de ação, que na análise de Nietzsche é o que chamou em grego de “dran” (ação). Dioniso é a música, o outro deus, irmão de Apolo, que se desvela no coro ditirâmbico do antigo teatro grego. Este coro que cantava comentava as cenas, como um juiz, um arauto que anunciava os desejos, ambições e as determinações dos deuses, às quais o homem grego não conseguia se livrar, se envolvendo numa trama trágica e um destino imutável.

Na Antiguidade surgiu nesse teatro, já existente, representado pelo século V, nosso foco, os maiores expoentes deste período. Foram eles, respectivamente, Ésquilo, Sófocles e por fim Eurípedes. Redundantemente, lembremos que Sófocles foi o criador da tragédia: “Édipo Rei”. Sendo considerada pela maioria dos entusiastas das tragédias, esta foi a maior, inclusive por Aristóteles, em sua obra, “Poética”.

A tragédia se pautava principalmente pelo insucesso da felicidade, entretanto, com ela, entendia-se melhor a vida com seus altos e baixos, percalços inseparáveis, aqueles que não se pode evitar, todavia, lastimar e entendê-los. Nesta dramaturgia trágica, através da graça desvelava-se a desgraça, através da desgraça: a graça. A graça é o entendimento do destino. Os deuses, para os gregos, ditavam as regras da vida e conduta humana, pois se assemelhavam com os homens. Na verdade, na sua mitologia, Epimeteu e Prometeu fizeram os homens. Os fizeram à sua imagem; coincidência? Ao que muitos pensam, equivocadamente, o povo grego apesar da devassidão e luxúria, era extremamente religioso. Cumpriam-se à risca comportamentos virtuosos, ao contrário, do que dizem alguns mal informados sobre a cultura grega - vide “Ética à Nicomaco” de Aristóteles. Os gregos acreditavam piamente que tudo estava prescrito pelos deuses.

Apesar também, da devassidão também destes, com seu comportamento não virtuoso, não os eximia do castigo e perseguições. No caso dos mortais: estes eram perseguidos pelas Eríneas, no caso dos deuses, por Nêmesis, a quem os punia e os castigava. Não existia a impunidade como querem alguns desatentos da história e religião grega da Antiguidade. Enfim, queremos afirmar que: inclusive, as tragédias eram uma espécie de culto religioso, pois na própria arquitetura do teatro, no palco, o coro mascarado andava em procissão cantando as predições dos deuses e sua infabilidade.

A música, enfim, representada por Dioniso, na opinião de Nietzsche, é a que fornecia o tempero para o sentimento que brotava no espetáculo. Um êxtase provocado pela música criava o que o filósofo alemão nomeou: “Pathos”. Sem a música, a ação, o “dran” tornava-se frouxa, pálida. Sem Dioniso, seu irmão Apolo fica desarmado. O tiro que a música provoca nos ouvidos humanos é o estampido do iniciar de uma guerra, a guerra da paixão, a guerra dos sentimentos de perdas, vinganças e outros males que brotam do ensinamento trágico. A vida na dramaturgia antiga é adornada com notas musicais fumegantes. O coro dança solene, e canta a desgraça de Édipo que fura seus olhos ao ver a mãe, ao mesmo tempo esposa, dependurada, morta, porque se suicidou. É a cena que provoca dor em todos. Todavia, todos sabiam da conhecida história, do desfecho da peça, antes de se sentar na arquibancada do teatro, onde cabiam vinte mil pessoas. A história estava desbotada, velha e cansada, todos já a conheciam desde a infância com a “Paidéia” (estudo infantil da música e da ginástica). Ora, e se não houvesse a música, neste caso representado por Dioniso? Não haveria a tragédia. No entanto, não sabemos com afinco que músicas eram estas, apesar dos profundos estudos.

Hoje, como diz Nietzsche: “só possuímos o libreto”. O que é o libreto? Somente o texto escrito, o que chegou até nós. Ao comprarmos uma obra, uma tragédia numa livraria, só conheceremos o “dran”, a ação, e por palavras somente - neste caso, Apolo. Dioniso foi esquecido pelas editoras, escamoteado, escurecido pela voz do coro sem as canções. Os versos, outrora cantados que invocavam o “pathos” seriam como se declamássemos, a canção “Sampa”, de Caetano, sem a música, sem sua harmonia e melodia, num futuro distante, como apenas um libreto. Nietzsche nas suas conferências levantou essa incongruência. A música grega foi deixada de lado. Assim, Dioniso não faz parte do estudo trágico, o que é para Nietzsche o mais importante lado da tragédia grega: O “Pathos”, criado através da música.

O novo teatro e o cinema

Os registros musicais gregos foram esquecidos, as anotações musicais não foram passadas para frente, por isso o mundo musical da dramaturgia grega foi sempre mal compreendido. Só nos restou o texto das tragédias, apenas o libreto. Dioniso está esquecido, haveremos de ressuscitá-lo no cinema com toda a sua força. Aliás, foi um dos únicos deuses que ressuscitou - o mataram por inveja. Após o período clássico grego, adentramos na turbulenta, porém pacata idade média, porque num primeiro momento esta ficou estagnada em muitos quesitos, por outro foi agitada pela barbárie. O teatro nesta época não possuiu o florilégio da Grécia antiga, pelo contrário, Santo Agostinho o condenou porque entendia que a peça teatral era mais que uma obra artística, era um culto pagão e que não se coadunava com os cultos cristãos, sua igreja. Entretanto, passados os séculos, a revivescência do teatro na renascença, séculos XV, XVI, e princípios do XVII se deu principalmente na Inglaterra, com o popular Shakespeare.

O predomínio da ação, o “dran” não foi proposital, mas por omissão, uma falta de informação perdida pelo passar dos séculos. As peças shakespearianas não possuem a paixão, o “pathos”, através da música, mas é conseguida através de um Apolo que sofre - uma linguagem voltada para uma espécie de “pathos do logos”. Este fenômeno é possível porque a própria poesia usa deste forçoso artifício sem a ajuda da música. Nada melhor e mais autêntico do que fazer crescer, fomentar o sofrimento através dela. Esta é seu primeiro papel, porque não se esconde através de palavras, mas de notas que não tem nenhum análogo no real. Eduard Hanslick, musicólogo e filósofo do século XIX estava certo, para ele a música não é sinestésica, não se remete ao logos, às palavras, todavia, é pura emoção, puro desespero, não excetuando a alegria.

As óperas no século XV, XVI e XVII surgiram como resposta ao mudo teatro desencantado, porque neste último não se utilizava da música. A ópera bufa estragou em muito o conceito trágico. Só no século XIX, principalmente com a influência do romantismo é que a opera trilhou caminhos exclusivos, remetendo-a às tragédias gregas. Nietzsche aconselhou muito Richard Wagner, todavia, sem sucesso, num segundo momento. Entretanto, no final de sua vida encontrou uma obra prima trágica que tanto procurou nas óperas wagnerianas, ele a encontrou em Bizet, com sua eterna “Carmen”.

A fotografia, no século XIX, neste período da história já havia fecundado Apolo como uma novidade “sui generis”. O que importava então, era a grande novidade da imagem impressa num papel - congelando um momento histórico. Eureka! - Posso congelar a história! O cinematógrafo chegou para que o olho humano pudesse ser enganado. Com alguns “frames” contínuos, o homem de sentido oftálmico debilitado e falho, pensa que está vendo o mundo se mexer através do filme moderno. Triste verdade! São apenas imagens paradas associadas umas às outras como que fotografias sucessivas, mas nunca uma realidade contínua. Contudo, isso não importa, o que vale é que o cinema se apoderou de Apolo, congelou-o em fotografias sucessivas. A “dran” congelava-se. A essa geladeira e engano deu-se o nome de filme, película. Só mais tarde, Dioniso o irmão mais novo, ingressou ao lado da película como um agregado tímido, um irmão mais novo que se aproxima do primogênito para uma nova amizade. Sua força na antiga Grécia vociferava cantando no palco de Atenas, nas grandes dionisíacas, através do coro ditirâmbico. No cinema mudo, no começo do século XX, até que não era tão mal, pois os músicos tocavam ao vivo inspirados pela imagem apolínea, criando um conflito. Apolo era virtual e congeladamente dinâmico - o que é uma incongruência, uma debilidade paradoxal. Dioniso, contudo era uma verdade tocada ao vivo - este era o panorama do cinema mudo. Villa lobos foi músico atuante desta época no cinema, foi o representante de Dioniso.

A música de trilha ganhou terreno, o cinema adotou Dioniso desde sua nova e tenra infância. Este deus não foi ainda emancipado porque ainda é trilha sonora. Cresceu. Todavia, é ainda um adolescente rebelde que não quer ferir os homens, não quer embriagar a todos. A época trágica se dará hoje, possivelmente, na ópera. No cinema é onde a música sempre engatinhou. Tentativas, no entanto, são uma meta para quem conhece a história da música antiga grega nas tragédias, às quais me esforço em explicar neste artigo. Enquanto, não compreendermos, que talvez, pelo menos um equilíbrio entre música e texto sejam necessários no cinema, a música, na opinião de Nietzsche é o que fará a diferença entre os irmãos: Apolo e Dioniso. Independente do poder de Apolo, como um deus de categoria mais elevada e com mais poderes, Dioniso sempre será aquele que fornecerá uma ambrosia divina, oferecerá uma fragrância metafísica, uma eloquência artística só entendida pelos deuses, mas oferecida aos homens na forma de uma embriaguez, na forma de êxtase, incompreensível ao nível das palavras, mas sentida como um tremor sentido pela alma. Sem a música, o filme estará sem uma ação convincente, ou imagem de valor. Dioniso deverá estar ativo e presente em um curta-metragem, ou em um longa-metragem, ou num pequeno vídeo, não como pano de fundo - como um fraco e escravizado fundo sonoro, mas com uma presença imperial divina que servirá o “pathos” à alma humana, numa bandeja de prata. 

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Por Ricardo Yabrudi  –  yabrudisom@hotmail.com

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