(Foto Ilustrativa)
As superstições portuguesas e a busca pelo controle da sociedade, ainda que temperadas com molhos africanos e indígenas, sobrepuseram a ideia de que aqueles homens sábios e benzedeiras respeitáveis deveriam ser queimados na fogueira
A caça às bruxas nos leva à compreensão da socialização da morte (Brasil colonial, no século XVI, por volta de 1692) como um elo fundamental para a sobrevivência dos indivíduos, apresentando o imaginário cujas crenças e práticas se apoiam no imaginário cristão, complementado com os símbolos populares atribuídos a objetos e eventos cotidianos do período colonial.
Segundo Costa, os bruxos e bruxas de verdade foram, em sua vasta maioria, pessoas bastante simples e banais, nem melhores nem piores do que seus vizinhos e quase tão ingênuas quanto eles. Pode-se acrescentar que o contexto do Brasil colonial era cercado por curandeiros e feiticeiras (Costa, 2014, p. 367).
As superstições portuguesas e a busca pelo controle da sociedade, ainda que temperadas com molhos africanos e indígenas, sobrepuseram a ideia de que aqueles homens sábios e benzedeiras respeitáveis deveriam ser queimados na fogueira como bruxos e bruxas assassinos que provocavam a intriga e a desordem nas colônias (Costa, 2014, p. 367).
É importante destacar que a micro-história abre caminhos que possibilitam uma investigação científica sobre o medo de morrer. A micro-história é um gênero historiográfico que defende uma delimitação temática extremamente específica por parte do historiador; mas não se reduz apenas a isso, pois se desenvolve a partir de uma exploração exaustiva das fontes, envolvendo a descrição etnográfica e preocupando-se com uma narrativa histórica que se diferencia da narrativa literária porque se relaciona com as fontes (Caetano, 2012).
Segundo Vainfas (1997), a micro-história também é compreendida como a expressão típica de uma história descritiva, de viés marcadamente antropológico, que renunciou ao estatuto científico da disciplina e invadiu o território da literatura, rompendo de vez as fronteiras da narrativa histórica com a ficcional; sendo, portanto, como um "zoom" em uma fotografia, onde o historiador, sociólogo e pesquisador observa um microespaço, mas tem a consciência da amplitude além da paisagem analisada. A morte, como fenômeno físico, já foi evidentemente estudada, sendo objeto de pesquisa para inúmeros pesquisadores, antropólogos, sociólogos e historiadores; porém, permanece um mistério quando aventuramos no terreno mental.
A morte, ao mesmo tempo em que ajuda a estudar as ideias das atividades humanas, mostra o medo do homem de que um dia a vida chegará ao fim. O estudo da morte é um assunto que está ligado à nossa realidade, uma temática constantemente presente na vida social do homem.
A Nova História ou a História das Ideias dá relevância ao conceito relacionado com a morte, mostrando que não podemos fugir do medo ou da memória; dos fatos esotéricos e sobrenaturais, a morte é uma obsessão "onipresente em nossa vida". Uma nova visão detalhada da História Cultural nos mostra que a historiografia traz evidências da influência do medo da morte em prol do controle da ordem social.
Mapeando as representações, as práticas religiosas e comportamentais consideradas heresias, bruxaria no contexto do Brasil colonial, destacando os discursos utilizados, para melhor entendimento da socialização da morte, de maneira complementar, pretendo estudar como os indivíduos lidavam com o medo da morte e a influência desse medo na criação dos mecanismos de defesa.
A História Cultural abre caminhos que possibilitam a busca pela investigação científica de tal trabalho. O processo de formação e transformação do medo da morte se deu no Ocidente cristão em um contexto que trazia a angústia coletiva de um povo. Surgiu a compreensão de um medo coletivo que traz várias consequências.
O estudo da morte é algo inovador, um assunto que está ligado à nossa realidade. Não podemos fugir do medo ou da memória; a morte é uma obsessão onipresente em nossa vida. No período colonial, segundo Daniela Calainho (2008), as terras brasileiras eram constituídas por várias crenças mágico-religiosas, misturando práticas cristãs, indígenas e africanas. Considerados hereges pelo Tribunal do Santo Ofício português, eram acusados de firmar um pacto com o diabo e tachados de feiticeiros pela Igreja, colocando o homem diante da fogueira ou da morte.
Philippe Ariès, em "O Homem Perante a Morte", descreve o medo, a dor e a preparação para a boa morte através de uma análise comparativa entre a dicotomia Vida x Morte. Ajudando-nos a compreender os aspectos científicos e psicológicos que circundam a temática em destaque, em um contexto que pauta os comportamentos socioculturais trabalhados pelo antropólogo Roque Laraia (1986). Os comportamentos sociais são fatores de suma importância para analisar o homem diante da sua própria morte.
Ginzburg (1989, p. 21) afirma que a "ressignificação das confissões das acusadas de feitiçaria por parte do inquisidor, fazendo com que elas se adequassem ao discurso teológico e, dessa forma, se enquadrassem às exigências legais que permitiriam a condenação, somente era possível devido à peculiaridade das crenças das acusadas".
Mas houve queima de bruxas e autos de fé em terras brasileiras? Será que os líderes cristãos da época abafaram os registros históricos sobre relatos do exílio e morte daqueles que praticavam adivinhações, sortilégios, cerimônias de culto a ídolos pagãos e comunicação com os mortos, além de evocações ao diabo?
Enfim, é necessária a investigação. Precisamos analisar os campos além do poder territorial imposto pelos portugueses, apontando a opressão religiosa que normatizava as regras de comportamento, ou seja, o prescrito e o vivido. Obrigado ao homem do período colonial brasileiro por viver bestializado, buscando sempre fazer a coisa correta, agindo publicamente como prescrevia a Igreja.
"É impossível conhecer o homem sem lhe estudar a morte, porque talvez mais do que na vida, é na morte que o homem se revela. É nas suas atitudes e crenças perante a morte que o homem exprime o que a vida tem de mais fundamental".
(Morin, 1988, p. 40)
O medo de morrer sempre esteve presente nos estudos de diversos grupos sociais, inserido nos fatos sociais, promovendo sua influência em todas as camadas sociais, formulando reflexões da sociedade contemporânea.
Compreensão que interfere nos contextos sociais, materiais e ideativos em que vivemos. A morte é apresentada como uma manifestação de elementos cognitivos, imagens, representações, conceitos, categorias, símbolos e teorias, agregando-se às definições de representação social trabalhadas por Jodelet (1985).
Como afirma Judith (2008), existem diversas formas de conceber e abordar as representações sociais, relacionando-as ou não ao imaginário social. Elas são associadas ao imaginário quando a ênfase recai sobre o caráter simbólico da atividade representativa de sujeitos que partilham uma mesma condição ou experiência social. Para compreender a relação conceitual de ser bruxa no período colonial e as consequências dessa afirmação, é necessário fundamentar-se na teoria da Psicologia Social desenvolvida por Jodelet (1985).
Para tanto, é de suma importância a efetivação de estudos que descrevem o "medo da morte" em diferentes períodos da história, evidenciando as representações, as crenças, os ritos, as práticas simbólicas e seus efeitos nas múltiplas dimensões do campo social.
"O medo da morte no período colonial" menciona os fenômenos causados pela morte no seio da sociedade brasileira, descrevendo os mecanismos psicológicos que entram em ação, um confronto vida versus morte.
Colocando em destaque as ideias de Moscovici (1978) sobre as múltiplas dimensões do campo de estudos das representações sociais, a interdisciplinaridade que lhe é intrínseca, as contradições, os paradoxos e as inúmeras dualidades com que se depara o homem diante da morte.
O homem historicamente teme a morte, e a teme por motivos materiais e não somente religiosos, pois tenta fugir da morte e da perda da vida; ele teme o desconhecido e luta para não perder o conhecimento, ou seja, sua bagagem intelectual dos relacionamentos criados no meio social, evitando constantemente uma relação com a morte (Ariès, 2003).
O medo é algo "comum" para o homem, mas o medo da morte é incomum e, ao mesmo tempo, é fonte de todas as nossas realizações, pois tudo o que fazemos é para transcender a morte; prevalecendo o materialismo de Marx e Engels, como superação tanto positivista quanto idealizadora dos processos sociais do existir (Caetano, 2012).
Trabalhar a morte como um elemento de influência social é de suma importância para entendermos como se deu o processo de estruturação dos "paradigmas da sociedade brasileira". É perceptível a divergência e convergência entre os autores citados, pois a morte é apresentada ora como flagelo, punição, martírio e fim, e em outros momentos, a morte surge como salvação, libertação, misericórdia e recomeço.
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