(Foto Ilustrativa)
A ideia de nação ou sociedade está sempre associada à sociedade americana (um ideal importado), um contexto de superioridade
A autora Nísia Trindade de Lima realiza uma pesquisa que perpassa o campo sertão e litoral, investigando os contrastes e as principais problemáticas dessa sociedade, o que foi objetivo de diferentes tentativas de interpretação. Destaca-se a contraposição entre um país moderno no litoral e um país rebelde, insubmisso, refratário no interior. Neste período, devemos observar que ocorre a formação de uma identidade nacional, concomitante à formação da intelectualidade brasileira.
Grande importância foi dada ao cientificismo na intelligentsia, com teorias e ideologias provenientes das camadas dominantes e médias, importadas de outros países. "Com o objetivo de forjar a nossa identidade nacional brasileira" (grifo nosso). Ao longo da interpretação da autora, identificamos a existência de uma continuidade de discursos e perspectivas que nos permite falar de uma corrente de pensamento voltada para a "incorporação dos sertões", trazendo para o debate intelectuais como Euclides da Cunha, Vicente Licínio Cardoso, Roquette Pinto, Monteiro Lobato, dentre outros.
O desejo de construir um Estado Novo reforça a aparência de descontinuidade. Na obra “O Imaginário Social no Brasil”, Wanderley Guilherme dos Santos (1978) identifica três vertentes que orientaram os estudos sobre a história das ciências sociais: institucional, sociológica e ideológica. Nessa perspectiva, relacionar os argumentos sociológicos aos processos de construção da nação não implica perceber tal interface como um risco à validade do conhecimento, mas sim como confronto de ideias dicotômicas.
O sertão e o litoral surgem no pensamento social brasileiro como algo simbólico, onde um lado se contrapunha a um estágio anterior a ser suplantado, o da barbárie, e do outro, significava a eliminação do espaço entre barbárie e civilização.
A oposição entre civilização e cultura foi formulada inicialmente por Kant, o qual considerava a moralidade como parte da cultura. Civilização se associa à expansão, sendo necessário levar a civilização aos bárbaros; culturas existem como autoconsciência da nação. Ambos os conceitos de cultura e civilização iniciaram o seu desenvolvimento com a expressão de sentimentos e ideias "inteligentes" das camadas médias que assumiram a feição de uma "consciência nacional".
A análise de Lima nos traz com clareza a dicotomia que perpassa a existência de dois Brasis. Segundo Euclides da Cunha, as múltiplas interpretações buscaram integrar o Brasil atrasado com um Brasil moderno, sertão e litoral. É visível o debate intelectual em torno do contraste entre o Brasil do litoral e o Brasil do sertão, fermentando a força e a continuidade das ideias sobre modernidade e o papel do intelectual nos processos de mudanças sociais.
Positivamente ou negativamente, o sertão é comparado a outros lugares entre dilemas de um processo civilizatório, visto por uns como inevitável e por outros como passível de alguma escolha, que se fizesse sentir. No decorrer da sua pesquisa, a autora mostra que a oposição dicotômica entre a valorização positiva dos Estados Unidos da América do Norte e a interiorização dos povos do continente sul-americano nos remete ainda ao contraponto entre barbárie e civilização, contrastes semelhantes aos representados na dicotomia litoral versus sertão. Werneck Vianna afirma que a América era vista como paradigma de um caminho possível para a institucionalização da ordem democrática, com o compartilhamento entre os valores de igualdade e de liberdade, por meio do interesse bem compreendido, com a possibilidade de surgimento de uma ação moralmente orientada.
Entretanto, seria possível "dizer que a América poderia ensinar algo à Europa". Weber complementa promovendo uma comparação entre as sociedades alemã e norte-americana no que se refere ao desenvolvimento do capitalismo e da agricultura, afirmando que seria incoerente ligar a ideia de sociedade rural com os Estados Unidos, ao menos nas áreas produtoras de cereais, focalizando a ideia de supremacia, civilização e monopólio do poder.
Notamos uma visão etnocêntrica em relação à visão teórica de inúmeros pensadores europeus e norte-americanos que valorizam de forma positiva os Estados Unidos e inferiorizam a América Latina, difundindo a ideia de que os mesmos vivem em "estágio de barbárie". De forma alienante, inúmeros intelectuais descreveram a geografia de diferentes espaços do globo com traços inferiores e superiores.
O contraste entre o Brasil do litoral e o Brasil do sertão pode ser relacionado a outras experiências históricas de diversas geografias do globo, que são mais ou menos parecidas, ocorrendo no interior de várias nacionalidades, assumindo também grandes forças simbólicas. Turner destaca o papel da fronteira na formação da nacionalidade, uma vez que o constante deslocamento favorecia menor fixidez. Esta concepção estabelece uma comparação entre a representação dos sertões no pensamento social brasileiro e a análise de fronteira na história dos Estados Unidos. Em ambos os casos, temos um espaço de contornos geográficos pouco definidos, sendo representado como um lugar onde se desenvolveria o mais típico da identidade nacional.
O contraste indicado no texto de Sérgio Buarque de Holanda procura pensar fronteiras no Brasil de forma independente do significado atribuído ao conceito por Turner nos Estados Unidos da América. Entretanto, o mais importante não é entender os espaços geográficos internacionais, mas sim o sertão de fato, o que ele tem representado ou o que tem sido dentro do contexto nacional, rompendo com os limites simbólicos de uma descrição etnocêntrica.
Os intelectuais da segunda metade do século XIX e do início do século XX iniciaram uma releitura, procurando legitimar suas posições; fundamentando a relação entre a realidade social e a institucionalidade política, cabendo lembrar também que a ideia de nação ou sociedade está sempre associada à sociedade americana (um ideal importado), um contexto de superioridade.
Podemos entender que o isolamento, ou seja, o sertão, não ocorre somente no Brasil; várias são as regiões de diversas nações que foram marginalizadas ao longo da instituição das fronteiras entre modernidade e cultura. Em suma, como afirma Lígia Chiappinni (1995), a história do interior sempre surgiu com uma ideia nacionalmente voltada para a conservação das práticas regionais, limitando as fronteiras simbólicas e invisíveis entre litoral e sertão.
Referência Bibliográfica
Lima, Nísia Trindade. Um Sertão Chamado Brasil.
São Paulo: Hucitec; 2013. 2 ed., aumentada.
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