(Foto Ilustrativa)
É preciso romper com os padrões e finalmente tornarmo-nos personagens que não mais serão vistos como figurantes, mas como protagonistas que objetivam tornar a nossa sociedade mais igualitária
A história do negro no Brasil, por muitos anos, permaneceu nas regiões subalternas da historiografia, desde a institucionalização do ideal liberal, que abraçava a construção de uma nação brasileira livre e homogênea; uma transição socioeconômica que objetivava a fecundação de uma sociedade uniforme. E, se necessário, o negro seria embranquecido, eliminando a negritude do seio social; o negro deveria ser apagado da história brasileira.
No Brasil colonial, os negros experimentaram uma realidade que se encarregou de mantê-los em uma situação de subalternidade, sendo alocados na base de uma sociedade sustentada pelo trabalho escravo. Os negros eram marginalizados pelas representações culturais que se sedimentaram no regime escravocrata. Diversos pesquisadores, historiadores e antropólogos buscaram explicar a teoria racial e as transformações dentro da sociedade brasileira a partir da mestiçagem e das relações entre brancos e negros.
A sociedade brasileira é constituída por diferentes grupos étnico-raciais que a caracterizam, em termos culturais, como uma das mais ricas do mundo. Entretanto, sua história é marcada por desigualdade e discriminação, especificamente contra negros e indígenas, impedindo, desta forma, seu pleno desenvolvimento econômico, político e social. Até quando a cor da pele vai falar mais alto dentro da nossa sociedade, que arrasta o racismo desde os tempos da escravidão? Podemos compreender que o tema "ser negro" é uma análise quantitativa que nos remete à história de Fernand Braudel, em "O Mediterrâneo".
Os diversos percursos da história forçam a sociedade atual a imaginar a distância ou o tempo para a estruturação do verbo "ser negro" em meio aos longos processos, constituindo os modelos, padrões, normas e regras raciais, como diria Weber, um "tipo ideal" no qual a cultura negra sobreviveu, passando da condição de "coisa" para sujeito do processo histórico-social. O negro, ao longo dos processos históricos, sempre foi estereotipado por uma visão etnocentrista ou eurocentrista. Ao estudar tal conceito, podemos compreender que é uma característica de quem só reconhece a legitimidade e validade das normas e valores vigentes na sua própria cultura ou sociedade.
Tem sua origem na tendência de julgarmos as realidades culturais de outros povos a partir dos nossos padrões culturais. Entretanto, podemos perceber traços etnocêntricos na construção da história do negro no Brasil, pois, ao longo da estruturação dos registros historiográficos, por um longo período, os negros foram citados como coadjuvantes, não falando de si próprios, sendo sempre mal interpretados e estereotipados em filmes e livros didáticos, ora bravos, ora mansos, ora mercadorias, ora inferiores, ora incapazes, ora sem coração... É dessa forma que colocamos o nosso eu como referência e anulamos ou rebaixamos a opinião do outro. Há 19 anos, senti o peso dessa inferiorização na pele, quando fiz a minha inscrição para o vestibular na UEG, Universidade Estadual de Goiás; declarei-me negro no ato da inscrição. Após a minha aprovação no processo seletivo, encaminhei-me para a sede da faculdade; na fila, como todos, aguardava para efetuar a minha matrícula.
Quando entreguei os meus documentos, a secretária me disse: "Cadê o seu registro de cor? Você se declarou negro e precisa do mesmo para efetuar a sua matrícula". Fiquei abalado com aquela situação, pois os brancos, os pardos e outros que ali estavam não precisavam de tal documento. "Ser negro é um crime!?". Por assumir a minha cor, preciso de um registro de cor! E, para obter o mesmo, tive que pagar e levar três testemunhas para aprovar a minha cor em cartório de registro. Na declaração e registro de cor constava explicitamente a frase: "Dhiogo José Caetano declara-se negro de acordo com o Censo Escolar e perante a lei". A cor da pele, de atributo simplesmente biológico, assume um conteúdo cultural, social e moral em um imenso conjunto de qualificativos inferiorizantes. Esse processo aconteceu, principalmente, com os fenotipicamente negros ou de pele mais escura, que não podem "disfarçar sua origem racial".
Os perigos da atitude etnocêntrica se fixam na negação da diversidade cultural humana (como se uma só cor fosse preferível ao arco-íris) e, sobretudo, nos crimes, massacres e extermínios causados por essa conjugação de atitudes ilegítimas. Depois da Segunda Guerra Mundial e do extermínio de milhões de indivíduos e povos, a antropologia promove uma abertura da mentalidade, passando a seguinte mensagem: em todas as culturas encontramos valores positivos e negativos; se certas normas e práticas nos parecem absurdas, devemos procurar seu sentido , integrando a totalidade cultural, com conhecimento metódico e descomplexado de culturas diferentes da nossa, permitindo que compreendamos o que há de arbitrário em alguns dos nossos costumes, tornando legítimo optar, por exemplo, por orientações culturais não só daquelas em que fomos educados, buscando questionar determinados valores vigentes, respeitando o outro.
A defesa legítima da diversidade cultural conduziu, contudo, muitos antropólogos atuais a enxergarem a diversidade das culturas e das sociedades. No decorrer da análise, podemos concluir que não existem valores universais ou normas de comportamento válidas, independentemente do tempo e do espaço. São tantas as mazelas sociais que cercam a nossa sociedade moderna, que evoluiu nas técnicas e nos mecanismos; no entanto, estagnou-se com relação à forma de pensar os conceitos de cor, sexualidade e padrões sociais.
As organizações negras são fundamentais na luta contra as desigualdades raciais no Brasil contemporâneo. Algumas delas têm uma longa história, que remonta ao século XIX, no tempo em que uma boa parte da população afro-brasileira ainda lutava para emancipar-se da escravidão. Outras foram criadas em resposta à discriminação e às péssimas condições de vida do negro no século XX. É preciso romper com os padrões e finalmente tornarmo-nos personagens que não mais serão vistos como figurantes, mas como protagonistas que objetivam tornar a nossa sociedade mais igualitária.
Portanto, busco a voz de todos os revolucionários para gritarmos contra a imposição social, o racismo, rompendo com o sistema que nos sufoca e cria falsas realidades. "Só se abate o preconceito acreditando na igualdade” (Marcelo Semer).
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