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Dhiogo José Caetano

dhiogocaetano@hotmail.com

Opinando e Transformando

Flavio Roberto Mota é o 16º entrevistado na série sobre cultura

Objetivo é formar um mosaico com o que cada um pensa desse universo multifacetado

Pelo Brasil  –  16/07/2016 11:52

Publicada: 11/07/2016 (15:06:03) . Atualizada: 16/07/2016 (11:52:31)

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(Foto: Divulgação)

“Devemos zelar para que haja cada vez mais a troca de informações pelos meios digitais”

> Clique e confira todas as entrevistas da série sobre Cultura "Opinando e Transformando"

O 16º convidado na série de entrevistas “Opinando e Transformando” é Flavio Roberto Mota. Uma oportunidade para os internautas conhecerem um pouco mais sobre os profissionais que, de alguma forma, vivem para a arte/cultura. Confira:

> Nome: Flavio Roberto Mota
> Reside: São Paulo (SP)

> Breve currículo: Ilustrador desde 1990, trabalha para o mercado publicitário e editorial, passou por empresas como McCann Erickson, TV1.com, Terra Networks, Manager Online, Euro RSCG e já prestou serviços para empresas como Senac, F/Nazca S&S, Loducca, Z+, Y&R, Editora Abril, Escala e FTD. Atualmente comanda o Estúdio Tris, prestando serviços de ilustração, criação de personagens, animação e projetos especiais. Também colabora com a Abipro (Associação Brasileira dos Ilustradores Profissionais), onde foi presidente-fundador em 2006.

> Em sua opinião, o que é cultura?

Podemos considerar cultura tudo aquilo que as pessoas têm o hábito de cultivar, seja essa coisa boa ou ruim, desde que seja o hábito de uma pessoa ou de um grupo. Baseando nessa definição, compreendemos que é necessário que cultivemos o hábito da produção, divulgação e consumo das manifestações artísticas, assim como também de outras formas de expressão do conhecimento humano, por isso tratamos como simplesmente “cultura” como toda e qualquer manifestação artística ou de comunicação.

> Você se considera um difusor cultural? Qual é o seu papel neste vasto campo da transformação mental, intelectual e filosófica?

De certa forma, sim, eu me considero, uma vez que eu me comporto habitualmente de maneira a consumir, produzir e divulgar manifestações do conhecimento humano ao qual eu me afinizo, em particular o desenho, pintura, animação e ilustração.

Não se trata apenas de ser um papel meu, ou de outra pessoa, mas de todos, principalmente nos tempos de mídia social onde praticamente todo mundo tem alguma capacidade de influenciar, difundir, replicar suas manifestações artísticas, a questão é que a grande maioria das pessoas não tem consciência de que ao interagir expondo suas afinidades seu ponto de vista sobre todo ou qualquer assunto ele está aumentando para melhor ou para pior, incentivando ou podando iniciativas, divulgando ideais nobres ou tacanhos e por tabela assumindo a responsabilidade pelas consequências de suas ideias na vida cotidiana das pessoas.

Muito do sentimento de felicidade, satisfação, utilidade social, fé no futuro, nas pessoas e instituições, esperança num mundo melhor, mais justo ou desesperança, raiva, frustração vontade de achar culpados por problemas, etc. É resultado direto daquilo que cada um cultiva.

Se pensarmos em termos de artes, atualmente existe certa falta de coerência entre as ideias e princípios que as pessoas defendem e aquilo que as pessoas difundem (entenda que para difundir qualquer coisa você não precisa obrigatoriamente ser um canal de TV, uma revista, ou um blog, hoje em dia basta ter uma conta numa mídia social, por exemplo). Essa falta de coerência, eu acredito ser parte da falta de consciência de que você é um difusor.

No início, meu objetivo era apenas de postar meus trabalhos, mas a verdade é que como ilustrador e animador, a maioria dos trabalhos que eu realizo, por questões de sigilo profissional eu simplesmente não posso me dar ao luxo de ficar postando. Foi quando eu percebi que muitas pessoas esperam saber sobre mim um pouco mais do que o que eu faço profissionalmente, e também um pouco mais sobre o que eu penso sobre as coisas, mas o que me chama atenção, o que me atrai, do que eu gosto.

A partir daí eu percebi que eu amo e muito as artes visuais e desde que me conheço por gente eu sempre senti que pelo menos na nossa sociedade as pessoas simplesmente ignoram arte, não consomem, não gostam, não se interessam simplesmente porque não conhecem e quando conhecem estão acostumadas a ver uma imagem, um quadro, um desenho sempre acompanhado de um texto complementar. Então eu percebi que eu poderia difundir as imagens que fazem o conjunto de coisas que me atraem, que eu gosto, que eu me afinizo e que, de alguma sorte as pessoas possam prestar atenção 100% nessas imagens a ponto de quem sabe pelo hábito de vê-las, aprender a apreciá-las sem que necessariamente precisem sempre ler um texto junto, sem um comentário ou uma descrição sobre do que a imagem trata. Uma imagem precisa falar por si só e as pessoas precisam aprender a ler o que elas têm a nos dizer.

Provavelmente uma quantidade enorme de pessoas não compreende isso com tanta facilidade, mas como cultura é aquilo que se cultiva de sol a sol, fruto de um hábito, então sigo eu com meu esforço que eu realizo paralelamente com o meu trabalho e os meus textos e acredito haver coerência em todas essas coisas. 

> Como você descreve o processo de aculturação, ao longo da formação da sociedade brasileira?

Eu não diria de aculturação, se a gente levar em conta a etimologia da palavra cultura, que é o que me orienta sobre o que eu entendo ser cultura, percebemos que a sociedade brasileira sofre sim com um foco distorcido sobre o que é cultivado.

Ao longo de décadas, as camadas dominantes, que são aqueles que detêm o poder do dinheiro para investir e fomentar as manifestações culturais, contribuíram para que a cultura do brasileiro médio seja basicamente TV e novela, no máximo filmes, séries, músicas e livros que os grandes meios de comunicação dizem que devemos ler, ouvir e assistir.

Até o futebol, veja você, que a 30 ou 40 anos atrás tinha uma cultura e status de arte, onde as pessoas costumavam ir aos estádios para aplaudir, se transformou em simples disputa de torcidas, enquanto que essa característica de espetáculo foi habilmente transferida para os torneios de futebol da Europa...

Precisamos compreender que somos um país colonizado por uma nação católica, considerada na época a mais conservadora da Europa e que nos via única e exclusivamente como local para extração de riquezas, que se viu com a possibilidade de se tornar independente pelas mãos da própria monarquia que o explorava e que depois da independência sofreu forte influência da Inglaterra, posteriormente da França (sendo que no Brasil nunca houve uma forte influência dos ideais da revolução francesa) e desde o final da Segunda Guerra Mundial dos EUA, é um país protestante, militarista, imperialista, devorador de recursos naturais, consumista e que se vende ao mundo como a face do bem no planeta e necessita desesperadamente de um inimigo para encarnar o papel de mau sobre a Terra.

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"O resultado disso é sermos um país com um povo que idolatra seus dominadores, principalmente com uma elite servil, acomodada, sem comprometimento social e que enxerga a população apenas como mão de obra barata que precisa ser manipulada".

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Por isso mesmo a cultura brasileira é desvalorizada pelos meios de comunicação de massa que se rende aos temas voltados para aquilo que chamamos “cultura pop” sem permitir nem mesmo que elementos da nossa identidade sejam absorvidos.

Faz-se necessário ter em mente que aquilo que chamamos “cultura pop” é apenas um posicionamento cultural voltado para o consumo fácil e rápido, mas países como o Japão conseguem aliar a sua cultura pop com a sua identidade cultural.

Outra coisa que também é digno de menção é que com essa análise pode parecer que eu sou avesso à inclusão de elementos de outras culturas na nossa, o que não é verdade. Desde a antiguidade percebemos que as grandes civilizações apenas conseguiram se estabelecer como grandes fontes de cultura por justamente saber absorver a cultura dos povos com quem eles tinham contato (muitas vezes pela conquista militar), essa absorção criou as grandes civilizações desde o Egito, Babilônia, Grécia e Roma; sem contar que a absorção faz parte da cultura original brasileira que é a cultura Tupi-Guarani que entendia a necessidade de absorver a força, os valores e o que de melhor os seus inimigos poderiam ter como condição vital para o engrandecimento do seu povo. Tanto é assim que a Semana de Arte Moderna e seu Manifesto Antropofágico que foi tão importante para as artes brasileiras do século XX é apenas a aplicação da filosofia Tupi-Guarani com uma roupagem nova.

A questão a meu ver é a situação de quase inviabilidade econômica existente entre a manifestação da cultura mais identificada com a nossa história e origem em confronto com a cultura pop desprovida quase que totalmente de qualquer referência da nossa identidade, mas que gera renda fácil. Eu entendo que isso é fruto de décadas de não investimento e nenhuma política pública visando utilizar a nossa identidade aderindo nela elementos contemporâneos tendo como objetivo criar uma formação cultural legitimamente brasileira em harmonia com as demandas comerciais. Levando em consideração que não possuímos uma elite econômica acostumada em “comprar brigas” para fazer valer alguma coisa que não seja apenas o lucro fácil, sofremos por termos uma sociedade cuja identidade cultural está muito mais ligada às campanhas publicitárias do que à produção dos artistas brasileiros.

> A cultura liberta ou aprisiona os indivíduos?

A cultura é uma arma poderosíssima de condução das pessoas para o esclarecimento ou a completa escuridão intelectual com relativa rapidez, basta para isso apenas ser conduzida com consciência para auxiliar o processo de emancipação da consciência dos indivíduos. 

> Que problemática você destaca na prática da difusão cultural?

Bom, eu acho que eu já mencionei isso, mas posso tentar repetir de maneira diferente. Hoje em dia existe um abismo entre a produção que dá retorno financeiro e a produção que exprime legitimamente a nossa identidade cultural e esse abismo faz com que haja uma gigantesca resistência para absorver a nossa produção cultural.

Fomos ensinados por décadas a nos comportar apenas como consumidores espectadores da produção cultural de terceiros e hoje pagamos um preço gigantesco por isso. Poucos povos no planeta têm tanto desprezo pela sua história, sua origem e seus valores quanto o brasileiro, que prefere cultuar um Tonny Stark a um Tiradentes, por exemplo. 

> Comente sobre o espaço digital, destacando sua importância no cenário cultural brasileiro e mundial?

Desde que não haja nenhum tipo de regulamentação futura que impeça a liberdade de material produzido digitalmente, eu vejo que essa será a nossa esperança de realização, difusão, debate e crescimento. Devemos zelar para que haja cada vez mais a possibilidade de troca de informações, conhecimento e de produção pelos meios digitais. É a nossa esperança de um porvir com mais reconhecimento para aqueles que trabalham com as artes. 

> Qual mensagem você deixa para todos os fazedores culturais?

Apenas que procurem estudar, pesquisar, trabalhar e produzir sem pensar em desistir. As dificuldades existem, sempre existirão, são elas que irão nos creditar a força necessária para que a nossa arte possa ganhar corpo e força, porque no final das contas a questão não é apenas de sucesso comercial, mas da possibilidade da expressão da natureza da nossa alma que precisa ser valorizada.

Por Dhiogo José Caetano  –  dhiogocaetano@hotmail.com

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