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Conflitos Sociais

Dhiogo José Caetano

dhiogocaetano@hotmail.com

Opinando e Transformando

Ricardo Yabrudi é o 64º entrevistado na série sobre cultura

Objetivo é formar um mosaico com o que cada um pensa desse universo multifacetado

Pelo Brasil  –  21/12/2018 19:02

  

(Foto: Divulgação)

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“O meio digital não muda em nada o mundo, apenas sua ‘velocidade’ se altera, para mais e para menos; para mais, quando as mensagens chegam mais rápidas que as cartas e os pombos correio, para menos quando criam uma letargia e um freio para a cultura”

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Ricardo Yabrudi é o 64° convidado na série de entrevistas “Opinando e Transformando”. Uma oportunidade para os internautas conhecerem um pouco mais sobre os profissionais que, de alguma forma, vivem para a arte/cultura. Confira:  

> Nome: Ricardo Yabrudi
> Breve currículo: Músico profissional pela Ordem dos Músicos do Brasil. Foi aluno de Vicente Lima, Leo Soares, Fernando Moura, Abel Carlevaro, entre outros. De formação erudita e popular, integrou o Kalenda Maia (especializado em música medieval, renascentista e barroca). Tocou profissionalmente no círculo erudito na Sala Cecília Meireles, Theatro Municipal (RJ), TVE, e outros tantos concertos. É violonista e violinista erudito, bandolinista, alaudista e guitarrista. É compositor, filósofo, escritor e professor de música. Trabalha com sonorização e iluminação profissional, estruturas de palco em shows e eventos. 

> O que é cultura? 

Será uma resposta curta para uma verdade longa, enfim, poderia responder sem muita universalização do tema, embora o quisesse. Tudo começou na pré-história, quando o homem primitivo dependurou uma pedra no pescoço em detrimento de jogá-la, ou arremessa-la à esmo ou de se defender de algum ataque animal ou mesmo em sua defesa. Esse foi o “gesto” inicial da arte, consequentemente da “cultura”. Entendo que tudo que se faz a esmo, sem uma utilidade estrita, estará chancelando o rótulo de arte, que é o espelho da cultura. Não só o fenômeno da art pour l´art, faz com que a arte seja livre como o gesto do homem primitivo, todavia, se for servil como a arte dos séculos que antecederam esse fenômeno, também será arte porque não se enquadram no real. Os retratos renascentistas dos pintores foram encomendas. A própria “Santa Ceia”, de Leonardo da Vinci, foi uma delas. Não compreenderemos cultura se não delimitarmos e delinearmos os limites da arte. Uma vez delimitados, mesmo que imprecisos, poderemos falar de “cultura”. Estando conscientes dos estados artísticos se são reais ou imaginários a cultura se oferecerá transparente aos olhos. Vejam o teatro medieval de rua que era real e se misturava ao burgo, em contrapartida vejam uma pintura de Jackson Pollock. O real aqui se mistura com o subjetivo, mas ainda formam o objeto da cultura. A cultura pode se apropriar do real e do irreal. A dança de rua poderá se confundir com alguém que dança porque está feliz. Qual a diferença? A intenção. Andar de modo feliz e dançante não é cultura, contudo, os movimentos populares de dança o serão. Como delimitar e saber quando é cultura ou modus vivendi? “Cultura é o acúmulo de expressões não utilitárias de expressão do homo sapiens”. Beber um copo de água não é cultura, mas bebê-la num palco fingindo que é champanhe, ou mesmo água de verdade, o será. 

> Você se considera um difusor cultural? 

Todos nós o somos, em maior ou menor grau. Alguns preferem a alçada e a difusão do seu próprio modus vivendi, principalmente através das redes sociais, o que não é arte. Um self não fará parte do acervo cultural para a posteridade, talvez uma performance ou uma piada nova o será porque modifica o campo semântico teatral doméstico. De minha parte, por sempre estar ligado às áreas da estética como a música, arquitetura, pintura e literatura, eu “talvez” seja um pouco mais ativo como difusor, mas humildemente me associo à maioria da população como um grão de areia numa praia imensa da cultura. Acho que a cultura não está nem aí para mim porque ela não é uma pessoa, contudo, um fenômeno formidável, gigantesco que a cada dia aumenta e se expande, porque se acumula dentro da história. O acervo cultural só aumenta desde que o aprisionemos e o guardemos por algum meio. O acervo é o que fica. No meu caso o que escrevo e o que toco e que toquei nos meus concertos e o que pintei e o que projetei no campo da arquitetura. Nas aulas que eu dei de filosofia e estética provavelmente o vento levou porque não foram gravadas. Muito da difusão é perdido pela humanidade. Ainda bem que na área teológica muitos dos sermões teológicos filosóficos de Agostinho de Hipona nos foram legados pelos estenógrafos de sua época. Se não houver registro não haverá difusão. As tempestades serão esquecidas e seus ventos não retornarão na memória se não tivermos suas imagens. Nossos artifícios de armazenamento, do pensamento humano do homem comum não estão sendo aproveitados para uma imagem do pensamento mais profundo de nossa época. Nossas redes sociais foram invadidas por chocarrices e parvoíces criando uma imagem errônea de nossa época. Poucas pessoas postam o retrato do homem existencial. Aqui, no hoje das redes, o ser e tempo se perdeu em quimeras. Como disse Sêneca em sua obra “A Brevidade do Tempo”: A vida verdadeira é o que se vive, o resto é apenas “existir” no tempo. O homem tem apenas existido, viver por sua vez é explorar, difundir, propor e é o que tenho tentado. 

> qual é o seu papel neste vasto campo da transformação mental, intelectual e filosófica? 

O homem carrega uma máscara de ator grego, ou talvez uma máscara veneziana tentando acobertar seu verdadeiro caráter e desejo para com a sociedade, uma espécie de autismo social descrito por Jaques Poulain, onde o homem se apresenta à sociedade o que ele não é verdadeiramente, falseando seu caráter e postando nas redes sociais o que não é, todavia, me enquadro perfeitamente nessas máscaras porque não se pode ser o que não lhe permitem. Não me foi permitido escrever onde desejei. Não se pode ser difusor se não lhe convidam para ser difusor. Aqui o sou com minhas verdadeiras palavras. Quem não gostaria de ser conhecido? Sócrates não o foi imediatamente, contudo, muito mais após os seus diálogos escritos por Platão e Xenofonte - seus maiores difusores. Nietzsche também não conheceu as consequências de suas marteladas (o seu filosofar com o martelo como dizia). Somente sua obra foi reconhecida pelos filósofos do século XX. O que resta para mim? Se nem Nietzsche, o maior pensador da humanidade foi reconhecido em sua época... O homem sempre será agredido intelectualmente por outro homem à sua altura. Será um ego por outro ego. Freud x Lacan, Hegel x Nietzsche. Aliás, Nietzsche x Todos. Fico eu neste tiro cruzado. Sei que tenho opositores contra minhas ideias. Alguns se calam, alguns sorriem, alguns se rendem. Que bom! Isso é Cultura. 

> Como você descreve o processo de aculturação, ao longo da formação da sociedade brasileira? 

Somos uma salada de frutas cultural, se olharmos cada fruta como uma parte da cultura. Entrementes, estamos divididos historicamente entre o pós-descobrimento e o pré-descobrimento do Brasil, independentemente de culturas que já existiam, pois existiam diversas tribos, povos diferentes com culturas diferentes. Contudo, se analisamos a época pós-descobrimento, uma herança lusitana vai nos afetar. A imigração estrangeira contribuiu em muito para essa miscigenação da cultura, principalmente no final do século XIX e começo do XX com os japoneses, alemães, italianos e muitos outros. O espelho da cultura pode ser analisado, principalmente pela lente da arte, onde se traduz o rosto da cultura. A deformação da cultura brasileira ganhou um traço híbrido na sua feição, tanto na pele, quanto nos seus órgãos vitais, como o coração apaixonado e dionisíaco pela sua música e os prazeres desenfreados atuais desnudos. Nossa cultura é quente e se transformou nesta fogueira, justamente pela miscigenação e pelo acréscimo, numa adição constante de valores onde essa soma assusta e atrai os olhares e a presença dos turistas nessa terra tupiniquim-europeia. 

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"A vida não digital é carne e osso. A imagem que está contida nos pixels ainda deverá ser calculada e melhor estudada como nos ensinou Wilhelm Flusser. O poder da imagem ainda assusta os homens reais. Tudo começou quando o homem segurou uma pedra e a pendurou no pescoço" 

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> Que problemática você destaca na prática da difusão cultural? 

Não vejo a pergunta desta forma, porque problema é o que necessita de uma solução. A cultura não apresenta problemas porque é ela quem questiona. Por estar vestida com a arte, a cultura é um mostruário que interroga aos seus observadores e aos seus usuários. Diz: “como estou? ”. Participamos ou não dela, nos alienamos ou nos juntamos a ela. Apenas trancado em um quarto escuro estaremos nos isolando por completo - por certo um ato estranho e ascético...

A cultura só morre ou fica doente quando não participamos dela. O povo brasileiro gosta de festa. O clima ajuda, a primavera parece verão, aliás, o horário de verão se inicia na primavera, um chiste, pilhéria, engano, como coisas estranhas que nos acontecem e que nos enganam numa cultura, às vezes enganadora, comumente proposta hoje em dia. O próprio Carnaval é uma despedida, nossa maior festa. Deveria ser o início de uma série de festas e não o princípio de um brusco intervalo, logo no começo do ano.

Difundir a cultura tem sido um papel outorgado às mídias. Poderia ser diferente, pois os índios têm sua cultura difundida e não possuem internet, redes sociais e a televisão. Somos preguiçosos quando deveríamos farejar a cultura e persegui-la sem o auxílio de uma voz que diz: “vá por esse caminho”. A tradição perdeu muito de sua força vital. Estamos caminhando para uma fila onde o querer já não é mais voluntário, o usar é obrigatório, a vida apenas mais uma dentre outras iguais. Precisamos vestir a camisa desse povo miscigenado e evitar o que desconfiamos, mas para isso, a educação e o olhar estético deverão se aprimorar. 

> Comente sobre o espaço digital, destacando sua importância no cenário cultural. 

O meio digital não muda em nada o mundo, apenas sua “velocidade” se altera, para mais e para menos. Para mais, quando as mensagens chegam mais rápidas que as cartas e os pombos correio, para menos quando criam uma letargia e um freio para a cultura. O mais grave é quando o espaço digital coloca o pé no freio e ficamos ruminando aquela cultura oferecida com um gosto amargo, tendo a população que ruminar aquele fel sem se dar conta do amargor, sentindo um doce-mel, mascarado pela própria mídia. Pior ainda é quando retrocede e faz retroceder a cultura, quando muda um paradigma já estabelecido, jogando fora séculos de tradição. No entanto, a cultura e a tradição resistem: os discos de vinil resistem, o livro resiste, as pinturas a óleo resistem.

Entretanto, se soubermos usar “bem” essa velocidade, com o acelerador e um bom freio conseguiremos consorciar o digital e o analógico. O digital é uma escada, o analógico uma rampa. As cores de uma tela de Rubens têm uma cromática “molecular infinita”, uma tela digital, todavia, estará sempre confinada a um número “finito” de pixels. Contudo, não se deve descartar o digital. O avanço da ciência no campo digital é primoroso e ajuda em muito a humanidade. Não devemos dicotomizar, e tornar o analógico rival do digital, pois são irmãos, filhos da ciência, onde o analógico é o primogênito.

Não existe cultura digital, esse é apenas um meio de propagação. A cultura é vida e essa não é virtual. Este plano, na qual está inserida a virtualidade, um fantasma do real, talvez seja a aspiração do “noumenom” kantiano que procura a coisa em si. É uma excelente ferramenta para a ciência, mas nos faz mergulhar numa “aparência” onírica, tal qual aquela apolínea que Nietzsche quis apagar com o coro ditirâmbico da tragédia grega. Apagar a realidade e a tradição com a ciência, que promulga a troca da realidade pelo mundo virtual digital, talvez seja a negação primeva do devir. A vida não digital é carne e osso. A imagem que está contida nos pixels ainda deverá ser calculada e melhor estudada como nos ensinou Wilhelm Flusser. O poder da imagem ainda assusta os homens reais. Tudo começou quando o homem segurou uma pedra e a pendurou no pescoço... 

> Qual mensagem você deixa para todos os fazedores culturais? 

A produção artística que molda e cria a cultura está nas mãos de todos. Desconfio muito do “gênio artístico” e de seus enaltecedores - os críticos de arte. Quem critica não produz arte, e quem faz arte não critica. Talvez essa dúvida de tudo se assemelhe à “dúvida hiperbólica de Descartes”, não é ceticismo, mas analisar cultura é o mesmo que fazer voltar a correnteza de um rio para seu “montante”. Contudo, me alegro quando vejo um caminhar saudável da arte rumo a uma cultura digna. Saudável, digo estável, informativa, recreativa, questionadora. Digna: A face de uma arte que seja o espelho de um povo, mesmo que muito miscigenado, e não uma máscara estrangeira que vem como um tsunami e destrói nossas praias tropicais. Devemos honrar e enaltecer o que é bom. Bom é o bem, esse o que traz alegria, que nos faz saltar, cantar, dançar, sem culpa, sem questionamentos, em paz, alongando a vida sem pensar no futuro nem no passado, a pedra que não podemos mais mover, nem prever.     

> Clique e confira todas as entrevistas da série sobre Cultura "Opinando e Transformando"      

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Por Dhiogo José Caetano  –  dhiogocaetano@hotmail.com

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