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Conflitos Sociais

Dhiogo José Caetano

dhiogocaetano@hotmail.com

Glorificação do Trabalho

As problemáticas de uma nação industrial

As relações sociais produzidas a partir da expansão do mercado capitalista com a união das fábricas geraram uma relação antagônica na sociedade

Pelo mundo  –  27/03/2026 21:13

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(Foto Ilustrativa)

As máquinas foram introduzidas com o objetivo de instituir um marco dentro do qual se podia impor uma disciplina, mas claramente notamos que sua introdução se deu sob uma ação de contrapartida dos patrões para controlar as greves e inúmeras outras formas de militâncias desencadeadas no “período industrial”

 

A partir do século XVI, podemos perceber que dos vários acontecimentos e ideias, nenhuma se realizou tão desgraçadamente como a sociedade do trabalho; fábricas-prisões, fábricas-convento, fábricas sem salário, “sonhos realizados pelos patrões”, que tornaram possível a glorificação do trabalho; palavra que tinha como significado penalidade, cansaço, dor, esforço extremo, um estado de pura miséria e pobreza; mas uma nova concepção da palavra trabalho surgiu no século XVI, uma visão que traz positividade.

A substituição das ferramentas pelas máquinas, da energia humana pela energia motriz e do modo de produção doméstico pelo sistema fabril constituiu a Revolução Industrial; revolução em função do enorme impacto sobre a estrutura da sociedade, num processo de transformação acompanhado por notável evolução tecnológica.

Smith afirma que o trabalho é fonte de toda riqueza, alcançando o topo do “sistema de trabalho pregado por Marx”, o trabalho passa a ser a fonte de toda a produtividade e a expressão da própria humanidade. A glorificação do trabalho se fortalece com o surgimento das fábricas mecanizadas, as quais alimentam a ilusão de que, a partir delas, não há mais limites para a produtividade humana. Percebemos que as fábricas, ao mesmo tempo em que confirmavam a potencialidade criadora do trabalho, anunciavam a dimensão ilimitada da produção.

A presença da máquina traz consigo a superação de barreiras da própria condição humana, uma reflexão que propõe uma imagem cristalizada do pensamento do século XIX, que se reduz a um acontecimento tecnológico, que apresenta uma intervenção de organizar e disciplinar o trabalho.

Uma perspectiva trabalhada por Durkheim que divide o trabalho em dois momentos, identificado como uma espécie social, que estabelece a passagem da solidariedade orgânica; tipicamente relacionado às fábricas, ao conceito de solidariedade orgânica, afirmando a aceleração da divisão do trabalho social, onde os indivíduos se tornam interdependentes. Essa interdependência garante a união social ao mesmo tempo em que os indivíduos são mutuamente dependentes, cada qual se especializa numa atividade e tende a desenvolver maior autonomia pessoal.

O Homem torna-se propriedade do mundo capitalista

O trabalho nas fábricas não permitia ao homem pensar além do que já foi dado, o mercado estabelecia ao homem o que pensar e agir, empregando regras, portanto o comércio não só impõe aos homens determinadas tecnologias, como também impede que seja possível pensar em outras tecnologias.

Portanto, o homem pensava segundo regras já definidas, e a sua oposição em relação à sociedade é juntamente a impossibilidade de pensar além das regras. Falar de mercado ou divisão social do trabalho é apropriar-se da ideia de que o homem estava vetado e impossibilitado de saber; um saber que serve hoje para manter a ordem de domínio político, tecnológico, social, cultural, nacional, etc.

Os múltiplos mecanismos permitem o reconhecimento de uma imposição de normas de valores próprios de determinadas sociedades em que aparece dotada de universalidade; podemos utilizar como exemplo o pensar do desenvolvimento de uma sociedade burguesa no seio da sociedade feudal, que logo imaginamos a instituição do mercado como esfera universalizadora de uma nova ordem que se impõe.

A autodisciplina proposta pela classe dominante torna-se ideias dominantes de toda a sociedade, aplicando novas regras, ideias e valores, que enfrentam conflitos gerados pelos trabalhadores que não estavam dispostos a seguir normas, a cumprir horário e aceitar ordem de um superior.

No entanto, com o processo de organização das fábricas, que constituía em primeiro momento de um trabalho manufatureiro, as maquinarias foram sendo introduzidas neste espaço, objetivando uma maior produtividade.

A força de trabalho como mercadoria, não se tratando de uma mercadoria qualquer, significa a criação de valores, sendo reconhecida como verdadeira fonte de riqueza da sociedade. Afirmam os marxistas que “o capitalismo transformou o trabalho em mercadoria”; portanto, o valor da mercadoria dependia do tempo de trabalho que era estabelecido, da habilidade individual média e das condições técnicas vigentes na sociedade; por isso, o valor de uma mercadoria era incorporado ao tempo de trabalho socialmente necessário para a produção da mesma.

Sabemos que o capitalista produz com o objetivo de obter lucro, isto é, querer ganhar com sua mercadoria, mais do que investiu. Podemos citar o exemplo da mais-valia de Marx, onde o trabalhador trabalha mais tempo e ganha o mesmo valor, ou seja, gera um valor maior do que é pago na forma de salário.

Entretanto, a insuficiência do valor pago para o trabalhador, não sendo suficiente para a sua subsistência, provoca uma luta entre as classes. De um lado, a burguesia, do outro, os menos favorecidos, que agora fazem parte de uma dimensão na qual o homem pensa e age; tornando o sujeito da história, onde se opera efetivamente a divisão social, expressando a sua visão inerente ao conceito de nacionalismo que vinha arraigado no peito do indivíduo que era visto como um simples operário.

As desigualdades sociais eram provocadas pelas relações de produção do sistema capitalista que divide os homens em proprietários e não proprietários dos meios de produção, afirma Marx que “as desigualdades são à base da formação de classes sociais”. No contexto histórico, percebemos uma relação antagônica marcada por exploração, ou seja, a burguesia sobre os trabalhadores e a classe proletariada.

Desigualdades sociais e os conflitos vivos por uma nação industrial

Em meio ao confronto, nasce o sujeito social, a imagem de resistência à imperiosidade da figura capitalista, como elemento indispensável para o processo de estruturação do trabalho. O conflito transcrito anteriormente descreve a situação histórica de domínio da sociedade, embora esta esteja delimitada pelo dispositivo do mercado, não se transformou ainda em domínio técnico. No caso, a razão técnica, por mais que esteja sob o domínio de quem participa do processo de trabalho, ainda não seria possível a representação de um instrumento através do qual se possa exercer o controle social.

Marglin, em sua obra de crítica à divisão do trabalho, nos mostra que nenhuma tecnologia avançada determinou a união dos trabalhadores no sistema de fábricas. Ela nos apresenta fatores que possibilitaram a disciplina e a hierarquia na produção. Sua ideia é baseada na dispersão dos trabalhadores domésticos, que futuramente vão gerar problemas ao sistema capitalista.

Portanto, o sistema fabril representou a perda desse controle dos trabalhadores domésticos, pois nas fábricas a hierarquia, a disciplina, a vigilância e outras formas de controle tangíveis eram aplicadas, obrigando os trabalhadores a se submeterem ao regime de trabalho fabril, ou seja, o domínio do capitalista sobre os trabalhadores.

Em primeiro lugar, os comerciantes precisavam controlar e comercializar toda a produção dos artesãos, com desejo de reduzir ao mínimo as práticas de desvio dessa produção; tornando as fábricas o marco organizador do desejo empresarial, um sistema ditado com necessidade de organização que teve como resultado uma ordem disciplinar durante todo o transcorrer da modernidade.

Na realidade, as máquinas só foram desenvolvidas e introduzidas depois que os tecelões já haviam sido concentrados nas fábricas; os tecelões, os ceramistas, não estavam acostumados com esse novo tipo de disciplina; segundo a documentação histórica da época, os ceramistas haviam gozado de uma independência durante muito tempo para aceitar amavelmente as regras; as quais tinham como objetivo implantar a pontualidade, a presença constante, as horas prefixadas, as escrupulosas regras de cuidado e de limpeza, a diminuição dos desperdícios, a proibição de bebidas alcoólicas; promovendo uma formação de um conjunto magnífico de mão de obra.

No decorrer do estudo de diferentes obras relacionadas à temática, notamos que o desenvolvimento foi crucial no que se refere ao estabelecimento do sistema fabril, contribuído na efetivação de uma disciplinarização geral, com relação à força de trabalho; ocorrendo um impacto de poderosas forças atrativas ou repulsivas, onde grande parte dos trabalhadores ou artesãos ingleses se tornaram mão-de-obra fabril; afirmando uma nova relação de poder hierarquizado e autoritarista.

Alguns historiadores ingleses afirmam mesmo que o êxito alcançado por alguns empresários capitalistas, em meio a tantos fracassos que rodearam as primeiras tentativas de instalação das fábricas, deve-se muito mais à qualidade de direção dessas empresas do que a uma substância de mudanças, no que se refere à qualidade do trabalho ou das máquinas.

O processo descrito esclarece a dependência do capitalismo em relação ao desenvolvimento das técnicas de produção, mostrando ainda como o trabalho sob a ótica do capital perde todo o atrativo e faz do operário “mero apêndice da técnica”, o principal elemento da força produtiva, responsável pela ligação entre natureza, técnica e os instrumentos que fecundam uma nação profundamente industrial.

Porém, os revoltosos e os destruidores de máquinas se manifestavam em várias regiões, como uma maneira criteriosa de manter a sua identidade coletiva e individual viva, luta desencadeada não contra a mecanização em geral, mas em direção a determinadas máquinas em particular.

Conclusão

A utilização da maquinaria não só visava conseguir a docilização e a submissão do trabalho fabril, neste sentido notamos que a implantação das máquinas tinha como objetivo assegurar a regularidade e a continuidade do processo industrial.

As máquinas foram introduzidas com o objetivo de instituir um marco dentro do qual se podia impor uma disciplina, mas claramente notamos que sua introdução se deu sob uma ação de contrapartida dos patrões para controlar as greves e inúmeras outras formas de militâncias desencadeadas no “período industrial”.

Marx, em “O Capital”, embora saudasse o advento do universo fabril como o surgimento de uma nova era, também nos apresenta um contexto profundamente apreensivo com relação à introdução das máquinas automáticas no processo de trabalho, problemáticas que dizimariam a sociedade trabalhadora, eliminando a memória histórica de inúmeros trabalhadores; neste sentido, Marx enfatiza o determinismo pelo saber técnico, cujo fundamento estava ligado ao inerente bojo de implicação relacionada à hierarquia, disciplina e controle do meio de trabalho, ao mesmo tempo separando crucialmente a produção do saber técnico.

Afinal, as relações sociais produzidas a partir da expansão do mercado capitalista com a união das fábricas geraram uma relação antagônica na sociedade, tornando possível o desenvolvimento de uma determinada tecnologia que impõe não apenas os instrumentos que incrementam a produtividade, mas os métodos de controle disciplinar que enfrentam conflitos de relação entre consciência, realidade, dinâmica histórica e suas características voltadas para a construção da identidade e memória nacional.

Referências Bibliográficas

De Decca, Edgar Salvadori. O Nascimento das Fábricas. Rio de Janeiro: Brasiliense, 1986.
Goff, L. Jasques. História e Memória/tradução brasileira. São Paulo: Unicamp, 1990.
Marx, Karl O Capital, Difel Editora, São Paulo 1982, Vol II, Cap. XXIV e XX.
Marglin, S. A. Origem e funções do parcelamento das tarefas. Para que servem os patrões? In: Gorz, A. (Org.) Crítica da Divisão do Trabalho. São Paulo: Martins Fontes, 1980. (1.ed., 1973).
Durkheim, Émile. "Da divisão do trabalho social" In GIANOTTI, José A. Coleção Os pensadores. São Paulo, Abril cultural, 1978.
Marx, Karl. "Trabalho alienado e superação positiva da auto-alienação". In K. Marx, F.Engels: história (Org.) Florestan Fernandes. São Paulo, Ática, 1984.
Smith, Adam. Riqueza das Nações. Lisboa: Ed. Fundação Calouste Gulbenkian, 1981 e 1983. 2 vols. 

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