
(Fotos: Arquivo Pessoal)
"Por um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres"
É curioso o fato do país do Carnaval se chocar com o nome "marcha das vadias". O mesmo país em que homens celebram a festa da carne trajados dos acessórios femininos que passam a ser expostos publicamente com aval de toda a sociedade, que vai do sutiã às mini saias de renda, com direito a muito glitter, paetê e purpurina, no chamado bloco das piranhas.
Ao contrário do evento folião, a Marcha das Vadias - que pretendo abordar aqui - leva mulheres e homens às ruas não para festejar, mas sim reivindicar direitos iguais entre os gêneros, políticas públicas adequadas, bem como, denunciar todos os tipos de violências cometidas contra mulheres daqui e de todos os cantos do mundo. Parece que os ares de liberdade nas ruas, só mesmo no Carnaval e para os homens.
A polêmica do nome do movimento

O/a leitor/a deve estar se perguntando: "Mas se é um
movimento sério por que esse nome e não qualquer outro?"
O movimento "Slutwalk" (Marcha das Vadias) se iniciou no ano de 2011 no Canadá em resposta ao comentário de um policial que culpabilizava as vítimas de estupro da Universidade de York na cidade de Toronto, pelas roupas que usavam. De acordo com ele, para evitar estupros, as mulheres deveriam parar de se vestir como vadias.
Mas, e quanto às mulheres afegãs que se cobrem com a burca e não conseguem evitar os inúmeros casos de violência sexual desse território, considerado um dos piores do mundo nessa questão? Isto prova que a violência cometida contra as mulheres independe da vestimenta que as adorna, porque se encontra enraizada e, o mais grave, naturalizada na cultura machista e misógina que tem a função de manter as coisas exatamente como estão: com papéis e espaços de atuação diferenciados para homens e mulheres na sociedade e elas como mero objeto de uso/consumo deles. Um exemplo disso, são os comerciais de cerveja que explicitam a mercantilização do corpo feminino, além, é claro, da banalização das "cantadas" que vão desde assobios, olhares intimidadores e frases grosseiras chegando até mesmo a atitudes mais exaltadas como puxões de braço e cabelo. É a famosa liberdade que cerceia o direito à liberdade do outro, como a de ir e vir sem sofrer qualquer tipo de abordagem inconveniente. Já ouço leitores dizendo: "Lá vem as feministas querendo censurar tudo"...
O discurso utilizado pelo policial canadense acerca da responsabilidade da mulher é amparado aqui no Brasil, quando não para justificar as violências sexuais e assédios sofridos, tem a função de desqualificar mulheres que fogem ao arquétipo esperado ao seu gênero. Um exemplo disso, foi a declaração do ator global Reynaldo Gianecchini à "Revista TV Brasil" nº 731: "Uma coisa é vestir uma microssaia na beira da praia, outra muito diferente é usá-la para ir a uma festa. Garota pouco pano não está com nada".

Estudos apontam que aqui é o 7º lugar onde mais se mata mulheres no mundo
Tudo se torna motivo para a desqualificação do "segundo sexo" (menção à Simone de Beauvoir ao gênero feminino) e ainda nos torna responsáveis pelas violências que sofremos, afinal "tinha que estar andando na rua àquela hora da noite? Com aquele shortinho pouco pano? Com aquele decote ela estava pedindo!". Há uma vigilância contínua do corpo feminino, dos seus gestos que precisam ser sempre comedidos. A mulher precisa ser sensual (apenas para agradar aos olhares e desejos masculinos), mas sem excessos para não se tornar vulgar. Falar palavrão também é algo que deve ser evitado. Beber tudo bem, mas beber demais não "pega" bem para uma mulher. Blá, blá, blá... Há uma espécie de fronteira posta entre a "mulher para casar" e "as outras".
Nesse sentido, a intenção do movimento da marcha com a proposta do termo "vadia" é retirar a conotação negativa e de desqualificação que essa palavra possui no imaginário coletivo e que produz inúmeras desigualdades entre os gêneros e, com isso, propor uma reflexão a toda a sociedade em torno das violências sofridas e da desigualdade entre homens e mulheres, fortalecendo a ideia de que em caso de violência sexual: A culpa nunca é da mulher!
O que me preocupa, no entanto, é por que o termo "vadia" choca mais os chamados "cidadãos de bem" do que os altos índices de violências contra as mulheres? Do que o aumento dos casos de estupro e os números estarrecedores de violência doméstica. No Brasil, a cada 15 segundos uma mulher é vítima de agressão. Estudos apontam que aqui é o 7º lugar onde mais se mata mulheres no mundo! Isto sim pra mim é um escândalo! Uma pouca vergonha!
Ressignificando o dia 8 de março

O medo de que as coisas mudem incomoda - e muito -
àqueles que se beneficiam da estrutura vigente e dominante
A 1ª Marcha das Vadias realizada em Volta Redonda veio chamar a atenção para a problemática supracitada e escolheu o 8 de março a fim de ressignificar essa data tão importante que tem sido esvaziada pelos salões de beleza que oferecem cosméticos de brinde ou a costumeira distribuição de rosas pelas ruas da cidade. Qual seria o intuito? "Vocês são oprimidas, têm os seus direitos negados, são violentadas, mas, receba essa homenagem, parabéns pelo seu dia!". A única Rosa que as feministas aceitaram nesse dia foi a Luxemburgo (feminista, autora da frase: Por um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres).
Mulheres e homens na rua - confrontando esse espaço ainda tão sexuado - munidos de cartazes, cores, sutiãs desnudando corpos que se recusam a ser domesticados e massacrados por um padrão de beleza que destoa da grande maioria das mulheres brasileiras; instrumentos de percussão marcando o compasso das canções entoadas com letras que questionam as relações de poder entre os gêneros, além da imposição de um modelo de sexualidade que não pode ser vivida plenamente pelas mulheres, condicionada por uma sociedade machista, misógina, racista e homofóbica.
Mesmo com toda a dificuldade de mobilização diante da polêmica do nome e em meio à persistente garoa daquela tarde gris, a 1ª (de muitas outras que virão) Marcha das Vadias aconteceu levando para as ruas cerca de 120 pessoas que em coro cantaram: "Se cuida, se cuida, se cuida seu machista: Volta Redonda vai ser toda feminista!". Cabe ressaltar que, muito embora, a organização do evento tenha comunicado com antecedência às autoridades competentes, nenhum integrante da segurança pública municipal esteve presente na manifestação a fim de auxiliar no trânsito e na segurança dos que participavam do movimento.
A Marcha foi alvo de insultos masculinos no momento em que ocorria na Vila Santa Cecília, bem como de comentários machistas e pouco esclarecidos sobre o movimento nos veículos de comunicação da cidade: jornais e blogs. Nada surpreendente, afinal, mulheres ocupando as ruas com reivindicações representa uma ameaça em potencial às posições e relações de poder preestabelecidas. O medo de que as coisas mudem incomoda - e muito - àqueles que se beneficiam da estrutura vigente e dominante.
O recado da marcha foi dado, os questionamentos foram colocados publicamente pela primeira vez na cidade, algumas pessoas tiveram a oportunidade de refletir e entender a importância de mobilizações como essa das Vadias para a vida das mulheres. O movimento realizado no dia 8 de março contribuiu também para fortalecer o movimento feminista de Volta Redonda, atingindo parte dos seus objetivos. Ao nos servirmos do termo polêmico nessa manifestação, declaramos que as meninas e mulheres da cidade devem ser livres para vestir o que bem quiserem sem sofrer nenhum tipo de incômodo e humilhação. E nessa perspectiva, "se ser livre e lutar por igualdade é ser vadia, então somos todas vadias!"
